Especialistas explicam impacto do atraso na segunda dose da Coronavac

Atualizado: Mai 1

Atraso, como ocorre em Niterói, prejudica a eficácia no combate à pandemia, mas ainda não é possível saber efeitos na imunização


Por Livia Figueiredo

Foto: Reprodução da internet


No dia em que Niterói e outras cidades de pelo menos 18 estados do país suspenderam a aplicação da segunda dose da Coronavac por falta de imunizantes, fabricado pelo Instituto Butantan em parceria com a chinesa Sinovac, especialistas da área de saúde ouvidos pelo A Seguir: Niterói disseram temer o risco de atraso na aplicação da dose de reforço. A demora no reforço pode contribuir para a descontinuidade no fluxo de distribuição da vacina e no combate efetivo da pandemia. Ainda não há, porém, dados de proteção para intervalos maiores do que os estudados da vacina e, por conta disso, não é possível garantir com precisão a eficácia da imunização com o atraso da dose de reforço.


Leia mais: Niterói suspende aplicação da segunda dose de Coronavac nesta sexta-feira


O motivo da suspensão da segunda dose da Coronavac foi o atraso no envio de novas remessas da Coronavac pelo Ministério da Saúde. Além disso, outro motivo que pode ter comprometido foi a imunização em outros municípios. Segundo a Prefeitura de Niterói, os moradores da cidade que tomaram a primeira dose da Coronavac em outros municípios e vieram tomar a segunda em Niterói podem ter levado à redução do estoque reservado para a segunda dose.


- Essa situação é péssima porque a distribuição da vacina chega de forma proporcional para os estados e municípios em função da população. Então se você tem um município que começa a adiantar a primeira dose, como foi visto em Caxias, sem se preparar para a segunda dose, a população acaba migrando para municípios vizinhos. A gente perde o controle da informação e da vacinação. Como cada estado e município têm definido seus grupos prioritários, a gente acaba tendo esse processo de migração. É lamentável porque é mais um reflexo da falta de planejamento do Brasil desde o início da pandemia, que acaba contribuindo para o fluxo de internação e a falta de regionalização e integração entre os prefeitos no combate à Covid - diz o pesquisador de saúde pública da Fiocruz Diego Xavier.


Imunização


De acordo com Leonardo Bastos, outro pesquisador de saúde pública da Fiocruz, a imunização pode ficar comprometida por dois motivos: primeiro, por não se saber ao certo a eficiência da vacina fora do prazo da bula, pois ela é baseada em estudos (ensaios clínicos) que têm esse período entre doses muito bem definido. O segundo motivo é atrasar a vacinação dos grupos seguintes, adiando por mais tempo o alcance uma boa cobertura vacinal.


A biomédica e pesquisadora (UFRGS), além de divulgadora científica pela Rede Análise COVID-19, Mellanie Fontes-Dutra, também diz que, até o momento, não há dados de proteção para intervalos maiores do que os estudados e estabelecidos e, portanto, não é possível garantir a porcentagem de eficácia ou outros parâmetros acima disso.


- É provável que em casos de atrasos mais curtos o impacto seja menor, mas precisamos nos ater para respeitar os intervalos estabelecidos, e se a pessoa por ventura tiver sua 2ª dose atrasada, precisa tomá-la tão logo esteja disponível, o quanto antes, para ficar sempre o mais próximo possível do intervalo estabelecido – explica.


Sobre a possibilidade de a mutação do vírus contribuir para o surgimento de novas variantes, a pesquisadora explica que é necessário ter cautela quanto a isso já que pessoas com baixos níveis de anticorpos, ao se infectarem com uma carga viral mais significativa, podem gerar um ambiente que propicie pressões para o vírus se adaptar e escapar dessa resposta. Ela diz que as mutações são aleatórias, mas essas pressões seletivas podem propiciar o surgimento de uma versão do vírus mais adaptada para esse meio.


- Se a pessoa tomou a primeira dose e se infecta com uma carga viral elevada, é possível que essas mutações possam acontecer, mas não é a vacina que está gerando variantes e isso precisa ficar extremamente claro. É a pessoa que, por alguma flexibilização, acabou se contaminando. Muitas vezes isso está relacionado à falsa sensação de segurança por já ter tomado a primeira dose, sem ter a proteção completa. Por isso é importante seguir com as medidas de enfrentamento, mesmo após cada uma das doses da vacina e tomar as duas doses para a proteção completa – ressaltou.


Diego Xavier explica que, no caso da Coronavac, os estudos preliminares indicam que há um intervalo entre 14 e 28 dias. No entanto, estudos mais recentes apontam que a aplicação da segunda dose depois de 21 dias pode acarretar até numa eficácia maior da vacina. No entanto, ainda não há estudos que apontam os efeitos do intervalo de aplicação das doses após os 28 dias.


A recomendação atual do Ministério da Saúde é que, mesmo após os 28 dias, as pessoas devem se imunizar, no entanto ainda não é possível afirmar que há um comprometimento significativo da eficácia da vacina após os 28 dias, mas é fundamental tomar a dose de reforço.


- Infelizmente a gente tem essa descontinuidade no fluxo de distribuição de vacinas. A população precisa continuar se imunizando, seguindo as orientações do Ministério da Saúde e do Instituto Butantan, mas para isso, o poder público precisa se organizar melhor, entender a importância de respeitar esse fluxo. Não podemos continuar com esse atraso das distribuições das doses, mas o poder público precisa reservar essa segunda dose – destacou.


O especialista lamenta a falta de planejamento e orientação do Ministério da Saúde e diz que é melhor que os municípios dêem prioridade absoluta à aplicação da segunda dose no intervalo certo, do que ficar adiantando a primeira dose sem garantia. “É melhor um esquema vacinal adequado, de forma completa, com a garantia de ter a segunda dose em um tempo oportuno. Ele diz que espera que para as futuras remessas o poder público tenha esse cuidado de reservar a segunda dose”, concluiu.


Butantan antecipa entrega de novas remessas


O Instituto Butantan vai antecipar para esta sexta-feira a entrega de 600 mil doses da CoronaVac, programada anteriormente para o dia 3. Na próxima quarta-feira (6), mais um milhão de doses deve ser entregue ao Ministério da Saúde, que é responsável pelo planejamento, coordenação e logística de distribuição do imunizante em todo o território nacional.


No último dia 19, o Instituto Butantan recebeu uma nova remessa de IFA (Insumo Farmacêutico Ativo) para a produção de novas doses da vacina contra o coronavírus. São 3 mil litros de matéria-prima para envase, rotulagem, embalagem e inspeção de qualidade no complexo fabril da capital.


O Butantan ainda trabalha para entregar mais 54 milhões de doses para vacinação dos brasileiros até o dia 30 de agosto, totalizando 100 milhões de unidades contratadas até agora para o combate contra a COVID-19.


Leia também: Falta de insumo atrasa detecção de novas variantes em Niterói