Especialistas explicam os riscos do retorno das aulas presenciais da rede municipal de Niterói

Prefeitura abriu sete escolas municipais nesta terça-feira; professores advertem que escolas favorecem a propagação do vírus

Por Livia Figueiredo

Foto: Reprodução da internet


Após um longo período de escolas fechadas, Niterói retomou as aulas presenciais. O retorno será escalonado. O prefeito Axel Grael definiu o momento como "primeira fase do ensino híbrido da rede municipal". Nesta terça (27), sete escolas municipais receberam os alunos; na próxima segunda-feira, outras sete escolas vão reabrir.


O retorno das atividades presenciais funcionará da seguinte forma: a cada semana novas escolas serão reabertas, de acordo com a situação da pandemia no município. A decisão tem gerado divergências. O Sindicato dos Profissionais de Educação de Niterói (SEPE) tem criticado a posição da Prefeitura. Especialistas da área de saúde também discordam.


Leia mais: Niterói vai reabrir sete escolas da rede municipal nesta terça-feira


- A volta às aulas é um assunto bastante controverso. Nós temos estudos que apontam que a possibilidade de reinfecção entre as crianças existe, mas ela não é significativa se comparada a outras populações. O grande problema é que esses estudos foram realizados em situações que não são as que o Brasil enfrenta. Eram situações onde existia uma velocidade de contágio menor, não tinham novas variantes circulando e não tinha essa mudança que temos visto no Brasil do rejuvenescimento da doença, que está afetando a população mais jovem – afirmou o pesquisador de saúde pública da Fiocruz, Diego Xavier.


Estudos não consideram contexto atual


Segundo o especialista, muitas pessoas que defendem a volta às aulas se baseiam nesses estudos. Outro ponto que vale ser ressaltado, de acordo com o pesquisador, é que a rede de escolas é muito heterogênea. Enquanto há algumas escolas que têm condições de controlar melhor os surtos dos casos, há também aquelas que não têm condição nenhuma de oferecer segurança para os funcionários e para os alunos.


- Mesmo que as escolas tenham essas condições, a comunidade escolar é muito mais ampla que aluno e professor. A partir do momento que colocamos todo esse volume de pessoas para circular nas ruas, a possibilidade de transmissão aumenta. Toda a sociedade corre o risco por conta da maior circulação de pessoas. É por isso que tomamos essas medidas restritivas. No momento atual, com o aumento de casos e de óbitos não é aconselhável o retorno das aulas presenciais. Não temos um plano de testagem adequado e não temos condição de oferecer segurança para que isso aconteça. No final, o que se reflete é o abismo de desigualdade social do Brasil – afirmou.


Pesquisador de saúde pública da Fiocruz, Leonardo Bastos, também afirma que o retorno no momento é prematuro. Ele explica que apesar de começar a observar a queda no número de hospitalizações e óbitos no estado do Rio de Janeiro, os índices ainda estão em um patamar muito alto, o que não sugere que seja um bom momento de retorno das atividades presenciais.


Ele diz que a volta das aulas exige uma maior proteção aos professores e a elaboração de um protocolo de segurança efetivo, porque a principal forma de transmissão do vírus é aérea e para isso é necessário o uso de máscara de qualidade para os professores e uma boa ventilação para evitar a propagação do vírus. Além do distanciamento social, que é difícil de controlar em um ambiente escolar.


- As escolas precisam fornecer protocolos para proteção de alunos e professores para reduzir o número de casos e, consequentemente, de hospitalização e óbitos. A transmissão de criança para adulto tem se mostrado de menor importância. As crianças, em geral, têm um quadro assintomático, o que sugere um menor nível de transmissão de criança para adulto do que o contrário. Os professores precisam ser protegidos e, se possível, vacinados. Sem isso, não deveria voltar – ressaltou.


Já o Sanitarista da Fiocruz Christovam Barcellos, membro do Observatório Covid-19, acredita que o retorno das aulas é um marco de que a educação é um serviço essencial porque faz parte da convivência social de crianças e adolescentes de um modo mais seguro. No entanto, também deve ser avaliado a questão da falta de homogeneidade entre as escolas.


- Niterói adotou um sistema híbrido, o que acaba aliviando a carga do professor e permite uma gestão melhor dos contágios que podem acontecer nas escolas. Mas existem vários tipos de escolas, algumas com áreas arejadas e pátios, onde as pessoas podem praticar exercícios, manter o uso de máscara e o afastamento. Por outro lado, também há escolas com condições precárias, sem a ventilação adequada.


Intensificação das ações de monitoramento


O sanitarista da Fiocruz diz que um caminho possível é a intensificação das ações de vigilância em saúde, como a testagem em massa, por amostra de alguns alunos, testagem permanente de professores e servidores da escola, como merendeiros e fiscais, além do registro contínuo de todos os casos suspeitos e a vacinação dessas categorias. Com essas medidas, ele diz que pode ser garantido uma grande redução do número de contaminados.


SEPE-Niterói é contra retorno das aulas presenciais


Um dos coordenadores gerais do SEPE-Niterói, Thiago Coqueiro, afirma que o sindicato se posiciona contra o retorno das aulas, tendo em vista que as escolas da rede municipal de Niterói têm as condições ideais para a propagação do vírus, além disso, não há nenhuma base científica que alegue um retorno seguro às aulas.


- Se o governo quer retornar as aulas, ele precisa vacinar os profissionais de educação. Isso é uma pauta antiga do sindicato. Queremos saber como vai ser essa vacinação, qual a idade, se pessoas de outros municípios podem se vacinar, qual vai ser a vacina, porque isso interfere no intervalo da segunda dose – concluiu.


Niterói retorna com 7 unidades da rede municipal


Nesta terça, Niterói retornou com sete unidades da rede municipal: Levi Carneiro, Governador Roberto Silveira, Professor André Touché, UMEI Renata Magaldi, Professora Nina Rita Torres, Jaci Pacheco e Darcy Ribeiro. O prefeito de Niterói, Axel Grael, visitou a unidade UMEI Darcy Ribeiro, em Charitas. Em uma rede social, o prefeito comunicou que as aulas do Ensino Infantil retornaram nesta terça seguindo todos os protocolos sanitários. Grael afirmou que Niterói está se esforçando para que o cotidiano escolar volte o mais rápido possível, de maneira responsável e comprometida.


- Foi emocionante ver professores e alunos felizes em retornar para a escola. Essa retomada acontece de maneira híbrida. Na UMEI Darcy Ribeiro, metade das crianças, de 5 anos, estudam de manhã e a outra metade à tarde, com 3 horas de aula em cada turno. Estamos anunciando hoje o crédito para os professores poderem comprar equipamentos de informática de maneira que eles possam participar, da melhor forma, dos sistemas online. Os alunos também receberão equipamentos.


De acordo com a Secretaria Municipal de Educação (SME) e a Fundação Municipal de Educação (FME), a reabertura das escolas seguiu todos os protocolos de segurança estabelecidos pelo Plano de Retomada das Aulas, como o uso obrigatório de máscara, aferição de temperatura e o distanciamento entre as mesas e cadeiras. Eles afirmam que as crianças foram recebidas com atividades culturais, realizadas pela equipe de professores do programa Aprendiz Musical.


O secretário municipal de Educação, Vinicius Wu, ressaltou a importância do vínculo entre os alunos e a escola, respeitando as regras sanitárias recomendadas pelos órgãos de saúde. Desde o começo do ano, o combate à evasão escolar, a adequação das unidades e a mitigação dos efeitos da pandemia são prioridades da secretaria para elevar a qualidade da educação pública de Niterói.


- O cenário pandêmico causou enormes desafios na educação e estamos implementando ações para superá-los. Reabrimos hoje as escolas com muita cautela e protocolos para garantir a segurança de nossos alunos e profissionais. Foi emocionante acompanhar a entrada das crianças nas salas de aula, eles estavam animados e ansiosos pelo encontro com os colegas e professores - destacou.


O ensino híbrido não será obrigatório no município, uma vez que o formato remoto continuará sendo oferecido. As aulas presenciais terão duração reduzida, de três horas diárias. No Ensino Fundamental 1, será feito um revezamento semanal, alternando em dois grupos. Já na Educação Infantil, as crianças poderão ir para a escola todos os dias. Em caso de unidades que funcionam com tempo integral, os alunos serão divididos em grupos nos turnos da manhã ou da tarde.


Leia também: Com veto à Sputnik V, Niterói articula aquisição de outros imunizantes