'Está na hora de colocar alertas', diz especialista da Fiocruz sobre a pandemia em Niterói

Sanitarista Christovam Barcellos, membro do Observatório Covid-19, alerta para perigo da automedicação, que pode confundir diagnóstico


Por Livia Figueiredo

Christovam Barcellos. Divulgação/Fiocruz


"Existe hoje uma tendência geral do aumento do número de casos de contaminados e do número de óbitos no Brasil e isso está se refletindo também no Rio de Janeiro." O alerta é do sanitarista e pesquisador da Fiocruz, Christovam Barcellos, integrante do Observatório Covid-19, no dia em que o Brasil passou a marca de 3 mil mortes em 24h. Falando especificamente sobre Niterói, afirmou que "as medidas de prevenção implantadas precocemente seguraram a curva epidêmica na cidade durante muito tempo. Contudo, é preciso tomar cuidado e estabelecer medidas bem assertivas para o controle da pandemia, já que Niterói está muito conectado a outras cidades da região metropolitana do Rio de Janeiro."


- Atualmente, são em torno de 50 casos por dia em Niterói, desses 50 casos cinco a dez podem se transformar em casos graves e a gente precisa de leitos para esses pacientes. É importante lembrar que Niterói está muito conectado ao Rio de Janeiro, a São Gonçalo e a Maricá e nós estamos vendo uma explosão de casos em São Gonçalo. Eu acho que está na hora de colocar alertas – pontuou.


Hospitais lotados


Christovam Barcellos trabalha há 35 anos na área de Saúde pública, e acompanha, pelo observatório da Covid-19, a evolução da doença. "Essa pandemia tem causado diversas preocupações apesar das mudanças que têm ocorrido no perfil das infecções e dos óbitos. Existe hoje uma tendência geral do aumento do número de casos de contaminados e do número de óbitos no Brasil e isso está se refletindo também no Rio de Janeiro. O Rio tinha até pouco tempo uma folga de leitos em hospitais e essa folga está diminuindo. Nós estamos chegando a quase 90% dos leitos ocupados e infelizmente a tendência é de alta. Com o crescimento do número de casos, aumenta-se o número de casos graves e esses terão que ir para hospitais, que já estão superlotados", sintetiza.


A doença nos jovens


Segundo o especialista da Fiocruz, já é possível notar um aumento relativo de pessoas que chegam aos hospitais com idade menor que os idosos. Ele diz que isso tem relação com o fato dos jovens terem relaxado ao logo da pandemia, flexibilizando mais as saídas e não tomando o cuidado necessário. Devido a esta postura, ele afirma que há um aumento nítido neste sentido. Ele sublinha que é importante delinear a diferença entre os sintomas acometidos pela Covid-19 entre jovens e idosos. Geralmente o que ocorre é que pessoas menores de 18 anos e, principalmente, crianças apresentam mais problemas digestivos e alguns sintomas de paralisia em alguns órgãos, enquanto idosos costumam ter problemas pulmonares.


- Temos percebido um aumento do número de jovens e crianças que chegam aos hospitais em estado grave que, não necessariamente, é Covid-19. Precisamos reforçar a capacidade de testes que a cidade tem para fazer essa triagem: separar os pacientes que foram infectados pela Covid-19, que devem ter um tipo específico de tratamento e devem ser isolados dentro do hospital, e outras pessoas que não foram contaminadas pela Covid-19 – reforçou.


O risco da transmissão


Em termos de avanço de pesquisa em um ano de pandemia, o especialista da Fiocruz afirma que atualmente existe uma consciência maior sobre o modo de transmissão, como através do contato mais próximo com as pessoas que emitem essas gotículas, seja pela saliva ou pelo espirro/tosse. Portanto, o uso de máscara é uma maneira eficaz de proteção. Ele diz também que já se tem um maior conhecimento sobre tratamento, mas a maior parte deste é feita dentro do hospital e não previamente, dentro de casa.


- É perigoso até usar alguns tipos de medicamento. Claro que as pessoas devem se alimentar melhor, praticar exercícios, tomar sol, procurar o ar livre sem aglomeração. Mas podemos afirmar que já se sabe algumas coisas que são consenso no mundo inteiro. É importante destacar que quem faz pesquisa tem que estar atento a tudo que está saindo em termos de artigo e separar o que é fake news, o que é uma hipótese e o que realmente já é comprovado cientificamente – ressaltou.


Sobre as variantes


Segundo o especialista, a equipe de virologia da Fiocruz detectou que grande parte dos estados hoje tem a presença da P1, variante que foi identificada na Amazônia, primeiramente. Ele pontua que até o momento o que pode se afirmar é que ela é mais transmissível, o que significa dizer que ela se transmite com mais facilidade, mas ainda não foi confirmado se a variante afeta a população mais jovem. Porém, como os jovens têm se exposto mais seja porque estão trabalhando ou porque estão saindo e frequentando festas sem o cuidado necessário, ele acabam se infectando com mais facilidade, naturalmente.


- A gente deve tomar todas as providências possíveis para evitar a infecção, evitar a aglomeração de pessoas, a frequência em lugares fechados e o uso de máscara permanente – concluiu.


O perigo das fake news


Sobre o tratamento precoce, veemente defendido pelo governo federal, o pesquisador e sanitarista da Fiocruz afirma que durante muito tempo houve uma propaganda voltada para alguns medicamentos que foram chamados de “tratamento precoce”, mas esse tratamento, como toda automedicação, pode fazer mal. Ele diz que existe vitamina e outros medicamentos que em geral não causam muito problema de saúde, mas a cloroquina e a ivermectina, se tomados em altas doses, podem prejudicar o tratamento e confundir o diagnóstico.


- A gente tem visto pessoas chegando aos hospitais com casos graves e com certo grau de intoxicação por esses outros medicamentos, o que dificulta, sem dúvida nenhuma, o tratamento. Alguns medicamentos são de uso hospitalar. Se é para tomar medicamento, quem deve receitar é o médico, avaliando o quadro clínico de cada um. É algo que já sabemos como tratar e em que fase da doença deve-se tratar – explicou.


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