“Ficava impressionada com o fato de quase não haver livrarias em Niterói"

Dona da Blooks, no Reserva, Elisa Ventura diz que o delivery de livros veio para ficar e que as livrarias terão de ser repensadas como espaço


Por Silvia Fonseca



Elisa Ventura tem três livrarias no Rio e duas em São Paulo. E sempre teve vontade de abrir uma em Niterói até inaugurar a sua Blooks no Reserva Cultural, no Centro, há quatro anos. “Acho o Reserva um espaço único no Brasil. Dentro de um conjunto arquitetônico feito pelo Niemeyer. Isso é um luxo!”, diz ela, depois de contar das dificuldades para manter a livraria, agravadas pelos cinco meses de portas fechadas por causa da pandemia. Recorreu a delivery de livros e até a um financiamento coletivo, na campanha Blooks Resiste. O apoio surpreendeu e alegrou Elisa, para quem as livrarias não vão acabar, mas “precisam ser repensadas como espaço”. Porque terão sempre, para a livreira, o papel é ajudar a formar pessoas. “E esses espaços são mais do que nunca fundamentais”, diz em entrevista ao A Seguir: Niterói.


A Seguir: Os dois anos anteriores a este trágico 2020 já tinham sido muito ruins para diversos setores, inclusive para o mercado editorial e as livrarias. E aí veio 2020 com a pandemia de Covid. Como foi fechar as portas da Blooks por cinco meses, quais as consequências?


Elisa Ventura: Nenhum negócio no mundo suporta ficar fechado tanto tempo fechado, é trágico. De uma hora para outra a sua receita passa a ser zero. Estamos tendo que renegociar com todos os fornecedores. Uns entendem o momento, são parceiros, mas outros não. Estamos também nas negociações de aluguel desses meses passados. Como digo sempre, tem muito problema pela frente ainda Mas meu mantra durante esse período tem sido cada dia um dia.


Como está o movimento após a reabertura, especialmente na Blooks do Reserva de Niterói?


Está voltando ao poucos, vejo que o público está voltando, mas estamos com 30% em relação ao meses antes da pandemia.


O delivery de livros, que você implantou na pandemia, funcionou? Ajudou a manter o negócio? Os clientes responderam positivamente? O serviço continua, mesmo com as livrarias agora reabertas?


Tem funcionado muito bem, e o público, principalmente o de Niterói, respondeu muito bem. O serviço de delivery nos proporcionou atender um público bem maior do que o da livraria física apenas. Hoje atendemos em qualquer bairro, da Região Oceânica a São Gonçalo e em até 48hs, com uma taxa de entrega de R$ 5. O serviço veio para ficar!


Para ajudar a manter as livrarias você criou a campanha de financiamento coletivo Blooks Resiste. É duro ter de lutar tanto para manter um espaço tão importante como uma livraria?


Muito, relutei muito. Não era o que eu queria, mas, diante da falta total de ajuda do governo, não tive outra forma. Preciso manter meus empregados, não demiti ninguém, mas chega um momento que se esgota. As vendas on-line e as entregas representam 20% do que eu vendia em TODAS as lojas, não sustentam a operação.

Qual o resultado até aqui da campanha, que tinha previsão de ser encerrada no começo de setembro?


Chegamos a 80% da meta da campanha, quase 700 pessoas contribuindo. Para mim, surpreendente. É lindo ver o engajamento das pessoas. um alento nesse momento tão difícil. Esperamos conseguir alcançar a meta até o fim do mês.


A propósito da campanha, a Heloisa Buarque de Holanda disse que "a Blooks não vende só livros. Vende ideias. E um lugar que vende ideias não pode acabar". Deve ser muito gratificante, a despeito das dificuldades, administrar um lugar "que vende ideias". E cada livraria tem sua alma. Como você vê o espaço de Niterói, num centro cultural, com cinema, salas de exposições e shows, projetado por Niemeyer...?


Acho o Reserva um espaço único no Brasil. Não conheço nenhum outro espaço que tenha cinema, teatro, café, livraria e restaurante juntos. Dentro de um conjunto arquitetônico feito pelo Niemeyer. Isso é um luxo!


Você tinha alguma relação com Niterói antes de abrir a Blooks no Reserva Cultural? O que te agrada ou chama a atenção no público da Blooks em Niterói?


Sempre tive uma vontade imensa de abrir uma livraria em Niterói. Eu tinha um público muito grande de Niterói na minha loja de Botafogo, isso sempre me chamou muita atenção. Ficava impressionada com o fato de praticamente não haver livrarias na cidade. É uma cidade que consome muita cultura e que valoriza muito isso.


O atual governo tem agora a proposta de taxar a venda de livros em 12%, depois de 70 anos de isenção para estimular a leitura, a cultura, a educação. A emenda que garantiu a isenção inclusive foi proposta por Jorge Amado. Se aprovada, essa taxação impactará muito negativamente as livrarias e todo o mercado editorial?


É um absurdo, é o retrato deste governo que desvaloriza a cultura, a educação, que acha que livro é coisa de elite. Vai ter um impacto muito grande em toda a cadeia produtiva do livro, que já vem sofrendo muito nos últimos anos.


Qual pode ser o resultado dessa taxação, se aprovada?


Aumento de 20% no preço final do livro, menor acesso ao livro, quedas nas vendas e consequentemente o fechamento de pequenas livrarias e editoras.


Como você vê o futuro das livrarias, com livros oferecidos a um clique e preços baixos? Perder esses espaços de debates e ideias que são as livrarias não é ruim para uma cidade, um país, as gerações que virão?


As livrarias não vão acabar mas elas precisam ser repensadas como espaço. Nosso trabalho na Blooks sempre foi o de abrir as portas para todo tipo de público, mesmo o público que não consumia livros. O importante para mim é dar acesso a informação, que pode vir pelos livros, pelos eventos, pelos clubes de leituras... Cada vez mais a livraria precisa ser esse espaço, para além da venda de livros. O nosso papel é ajudar a formar pessoas. Leitores críticos, curiosos, participantes. E esses espaços são mais do que nunca fundamentais.


As livrarias vão sobreviver?


Acredito que sim, mas como falei, devem ser repensadas. Espaços menores, com curadoria, com perfil e com um atendimento cada vez mais personalizado.



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