Fiocruz: casos e óbitos por Covid vão continuar altos no Brasil no verão

Instituto faz balanço detalhado dos seis meses de pandemia no país



A curva da evolução de casos e óbitos por Covid-19 no Brasil apresentou, desde o início da pandemia, um padrão diferente dos outros países e vai continuar elevada. É o que alerta edição especial do Boletim Observatório Covid-19 da Fiocruz, que faz um balanço analítico dos mais de seis meses da pandemia no país. O boletim afirma que a pandemia vai continuar em “um patamar ainda muito alto do número de óbitos no país, nos próximos meses, caso o cenário atual permaneça”.


Realizada por uma equipe multidisciplinar de pesquisadores da Fundação, o boletim especial analisa os principais aspectos relacionados à Covid-19, reúne textos analíticos, dados e infográficos que aprofundam temas como organização dos serviços de saúde, impactos da doença em profissionais da saúde e outros trabalhadores, e questões relacionadas a desigualdades raciais, povos indígenas, idosos, populações em favelas, assim como desafios referentes à bioética e à justiça social.


Os principais pontos do documento:


Impacto na população idosa


Os números de casos e óbitos por Covid-19 disponibilizados no boletim MonitoraCovid-19 da Fiocruz, com base no Sistema de Informação de Vigilância Epidemiológica da Gripe (Sivep-Gripe), não são nada animadores. Pela análise, até o início de outubro (6/10), foram notificados 210.007 casos e 100.059 óbitos de pessoas de 60 anos ou mais - o que corresponde a 53,1% do total de casos e 75,2% dos óbitos -, comprovando a maior gravidade da Covid-19 entre a população idosa. Esses números significam uma redução de 0,41% da população idosa masculina e de 0,25% da população idosa feminina, trazendo como uma das consequências demográficas da pandemia a intensificação da tendência de feminização da população idosa brasileira.


Vacinas: cautela e justiça social


Na visão dos pesquisadores, a vacina deve ser considerada uma estratégia adicional e não ser entendida como única solução para o enfrentamento da pandemia. O boletim destaca ainda a importância do acesso universal à vacina e às estratégias de vacinação que deverão ser adotadas no país para que estejam alinhadas aos cenários de epidemicidade e possam contribuir para a estratégia mais ampla de enfrentamento.

Covid-19 nas favelas,


Nos grandes centros urbanos, o impacto da Covid-19 nas favelas tem se mostrado mais acentuado por causa de vulnerabilidades estruturais. Segundo a análise, o fato de as taxas de incidência da Covid-19 serem maiores nos bairros sem favelas ou com baixa concentração dessas, em comparação com os bairros de “altíssima concentração”, pode ser em parte explicado pelo baixo acesso à testagem pelas populações destes territórios.

Foi observado que os bairros com alta e altíssima concentração de favelas apresentam maior letalidade (19,47%), o dobro em relação aos bairros considerados “sem favelas” (9,23%). Isso indica, segundo os pesquisadores, tanto uma falta de acesso ao diagnóstico em tempo adequado, quanto problemas de acesso aos serviços de saúde de maior complexidade assistencial.


Raça e cor


No período analisado, o percentual de óbitos por Covid-19 segundo raça/cor foi de 48,2% em negros e 31,12% em brancos; porém ainda houve 20,15% “não informados” nesse quesito. Já a incidência da doença é de 44,6% em negros; de 37,04% 3,99% em amarelos; 0,17% em indígenas; e 14,19% ignorado. Na avaliação dos pesquisadores, esse resultado retrata as bases do racismo estrutural no Brasil, expresso na imensa vulnerabilização e precarização de vidas negras.


Povos indígenas e Covid-19


Os povos indígenas são particularmente vulneráveis à Covid-19 e às suas graves consequências, devido a fatores históricos e socioeconômicos. A circulação do Sars-CoV-2 no Brasil resultou em progressiva proporção de indígenas em municípios em alto risco imediato para pandemia, afetando, rapidamente, os 34 Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEI). A taxa da mortalidade entre indígenas, dependendo da faixa etária, chega a ser até 150% maior do que a de não indígenas.


Os dados disponibilizados pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) evidenciam taxas de mortalidade por Covid-19, progressivamente mais elevadas a partir dos 50 anos nos indígenas, em comparação à população geral. Esse fato traz um alerta para impactos socioculturais da pandemia: os indivíduos de mais idade são os guardiões dos conhecimentos tradicionais, línguas e da memória das lutas históricas desses povos.

Situação dos trabalhadores de saúde frente à Covid-19.


Um dos grupos de maior risco de adoecimento por Covid-19 é dos trabalhadores da área da saúde. Além do contato direto e exposição a altas cargas virais, da sobrecarga de trabalho, das mudanças de protocolos e rotinas, outro fator relevante que aumentou a exposição desse grupo foi a ampliação da oferta de leitos por meio de hospitais de campanha.


Segundo o Observatório do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), em 4 de outubro de 2020, havia registro de 40.608 casos e 441 óbitos entre seus profissionais (enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem). As mulheres respondem por 85% dos casos e 63% dos óbitos, destacando que elas são 85% da força de trabalho desse segmento.


Organização dos sistemas de saúde


Outro tema destacado, “A organização dos sistemas de saúde” ressalta que a desproporção entre óbitos e casos registrados expõe fragilidades acumuladas em função do subfinanciamento e problemas de gestão, reforçando a necessidade do fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS). A avaliação da capacidade instalada no país para atender pacientes graves de Covid-19 revelou as grandes desigualdades entre as regiões e a forte concentração de recursos voltados para o setor de saúde suplementar em áreas específicas.


Covid-19 e desigualdades sociais


Na abordagem sobre o Covid-19 e desigualdades sociais, é enfatizado o fato de que a pandemia deixou mais explícitas as injustiças estruturais. Segundo a análise, as diferenças observadas nos indicadores de saúde entre os mais ricos e os mais pobres, independentemente da região geográfica, deixam ainda mais claro o papel dos determinantes sociais no processo de adoecimento e morte da população mais carente.

Os pesquisadores alertam que, embora o número de casos, especialmente os fatais, venha mostrando paulatina redução, não há sinais de adesão da população às normas elementares de proteção individual


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