Flávio Serafini, do PSOL: cortar cargos para contratar mais professores

Candidato acredita que retomada da economia passa por investimento público e não descarta criar empresa de ônibus municipal


Por Luiz Claudio Latgé e Silvia Fonseca


O deputado estadual Flávio Serafini, do PSOL, não é desses políticos que aparecem apenas em época de eleição. Ele tem forte atuação na cidade, especialmente na defesa de questões sociais, direitos humanos e combate à desigualdade. Tem trânsito nos movimentos comunitários. Mas representa um partido muitas vezes acusado de propor mais gastos do que geração de emprego e renda. Por isto, a nossa primeira pergunta, foi logo: o como gerir uma cidade num momento de crise, em que o desafio maior é encontrar dinheiro para todas as ações que se fazem necessária?


Serafini acha que Niterói tem recursos suficientes para oferecer à população serviços de qualidade. A primeira coisa a fazer é cortar pela metade os cargos comissionados que a prefeitura distribui para atender acordos políticos e não trazem o retorno necessário - sentencia. Entende que, neste momento, a política de investimentos públicos é o melhor caminho para a retomada da economia.


A redução do quadro da Prefeitura para por aí. Serafini acha que é mais eficiente contratar funcionários do que terceirizar. E antecipa que contrataria mais professores e profissionais de Saúde. E promete mudanças importantes nos serviços de transportes, com a reorganização das linhas, controle da bilhetagem pelo poder público e barateamento das tarifas. Se necessário, com a criação de uma empresa municipal de ônibus para atuar em algumas linhas.


A educação é outro ponto de atenção, como fator de agravamento das desigualdades. Critica a prefeitura, que, segundo ele, não oferece vagas para crianças entre três e quatro anos na rede pública. Acha inaceitável que a cidade tenha crianças fora da escola. Diz que a pandemia agravou os problemas na educação e que a volta às aulas talvez só aconteça, efetivamente, no ano que vem, mesmo assim com protocolos de saúde rigorosos. Para evitar maior contágio, cogita a criação de transporte escolar público e gratuito para os alunos.


Reconhece o trabalho da Prefeitura no combate à pandemia. A compreensão da gravidade da doença, a ação rápida, o fortalecimento da rede hospitalar, com a criação do Hospital Oceânico. Mas acha que o Município abriu a cidade cedo demais, quando a circulação da Covid ainda era muito alta. Segundo ele, isto prolongou o controle da doença. Por isto, cogita prorrogar os programas assistenciais até depois da vacina. O que nos devolveu à pergunta inicial. Como encontrar dinheiro para tudo isto?


O A Seguir Niterói dá continuidade, assim, à sabatina dos candidatos à Prefeitura de Niterói. A ordem de publicação obedece a pontuação apresentada na pesquisa do instituto Paraná Pesquisas, em setembro. Na segunda, conversamos com o candidato do PFL, Deuler da Rocha; na terça, com Juliana Benício, do Novo. Amanhã a conversa será com Felipe Peixoto, do PSD; e, na sexta, com Axel Grael, do PDT. O candidato Allan Lyra, do PTC, confirmou a entrevista mas não compareceu. Estes são os partidos com representação na Câmara dos Deputados. No sábado, o A Seguir Niterói publicará reportagem com os outros candidatos à Prefeitura.

Conheça as propostas e as ideias de Flávio Serafini ao A Seguir: Niterói:



A Seguir Niterói: Deputado, o seu partido, sua trajetória, sua campanha, tudo está sempre associado às questões sociais, muito focado na desigualdade. Mas na Prefeitura o desafio é maior, o senhor está preparado para enfrentar a tarefa de, na Prefeitura, promover a geração de renda e de emprego?


FLÁVIO SERAFINI, PSOL: Acredito que sim. Além de termos essa característica muito vinculada à luta pelos direitos humanos, à garantia dos direitos sociais, também temos uma atuação muito próxima das universidades, dos diferentes grupos profissionais… E um dos desafios que a gente tem é a forma de fazer governo na cidade, fazer uma gestão mais profissional. Então, por exemplo, a gente quer ter mais professores mais médicos mais profissionais das diferentes carreiras e muitas vezes não consegue porque tem uma estrutura pública inchada de cargos comissionados, de indicações políticas dos diferentes campos ideológicos… A gente propõe uma mudança no perfil, que nos permita realizar mais concursos públicos, profissionalizar a máquina pública


Como encontrar receita?


Nós vamos cortar o que a gente considera uma estrutura inchada, profissionalizar a máquina. A Prefeitura tem, somando secretarias e administrações regionais, mais de 60 órgãos de primeiro escalão. São mais de cinco mil cargos comissionados. A gente acredita que poderia cortar pelo menos 50 %. E, com isto, liberar recursos para fazer concursos públicos. É claro que a gente precisa fazer outras ações que permitam fortalecer a arrecadação, que permitam encontrar a margem para que você realize estas mudanças, mas esta é uma das ações, das primeiras ações que refletem o que a gente tem trabalhado e proposto enquanto partido político. A gente pode ter uma máquina pública que funcione, que garanta direitos sociais e seja também profissional


Isso vale também para contratos terceirizados e concessões?


Também, também. A gente entende que as terceirizações têm uma característica de encarecer os serviços. A gente pode pegar profissional por profissional, do servente ao faxineiro, ao médico, que são categorias que a gente tem terceirizada na rede, e a gente vê que a contratação do terceirizado custa em média entre o dobro ou o triplo do concursado por mês. Diminuindo os cargos comissionados, diminuindo as terceirizações, a gente abre espaço para garantir serviços públicos de melhor qualidade. A prefeitura tem como tarefa garantir escola, serviços de assistência social, garantir serviços de planejamento urbano, mobilidade, políticas de urbanização, e para isto você precisa de um corpo profissional competente.


Em relação às concessões. O senhor tem planos de rever as concessões. Águas de Niterói, por exemplo?


A concessão da Águas de Niterói exige da gente um debate público com a sociedade. Por exemplo, se eu fosse Prefeito, eu não caminharia no sentido de romper o contrato sem que isso fosse uma demanda de um debate público com a sociedade, por que isto pode ter custos, pode demandar uma reorientação dos recursos da Prefeitura…


Trazer uma insegurança jurídica…


... exatamente. Injeção de recursos da prefeitura… E eu não considero que esta seja a agenda prioritária. Agora, por exemplo, com relação às empresas de ônibus, a gente entende que é uma concessão que tem muitos problemas, desde a licitação, que foi uma licitação muito complicada. Então é uma licitação que a gente vai querer rever em vários pontos, porque a gente precisa adequar o planejamento da mobilidade urbana na cidade, precisa cobrar eficiência e transparência dos números dessa concessão pública. Este é um ponto em que a gente vai ter um posicionamento muito firme, no sentido de ter tudo cumprido. A gente teve uma CPI aqui na cidade de Niterói, que mostrou que aquela licitação tinha sido eivada por vícios de todo tipo. Então, a gente vai analisar a legalidade daquela concessão, analisar cada ponto do contrato para cobrar a prestação de um serviço público com qualidade, com transparência. Não é atoa que no Rio de Janeiro, no país inteiro, inclusive em Niterói, a gente tem denúncias de corrupção envolvendo as empresas de ônibus.


O senhor considera estatizar o transporte?


O transporte público todo, não considero, não, isso seria algo impossível de ser feito. Mas a gente considera necessário por exemplo que toda a bilhetagem eletrônica seja controlada pela Prefeitura, por algum órgão da Prefeitura, porque a gente não pode ter um serviço concedido, que a gente paga por bilhetagem e não ter o controle da bilhetagem. Quem tem o controle da bilhetagem é quem opera o serviço. Isso é o que se chama de caixa preta. E a gente considera também a possibilidade de ter uma empresa pública de transportes que nos permita ter uma melhor dimensão do funcionamento do sistema de transportes e garantir a cobertura de trechos que a gente considera estratégicos e economicamente importantes. Maricá, por exemplo, tem uma experiência que a gente considera positiva Tem uma empresa pública que faz determinados trajetos e isso dá ao poder municipal a possibilidade de planejar o conjunto do sistema com autonomia e com mais capacidade de intervenção. Então, a gente caminha neste sentido. A nossa agenda central para a cidade é garantir os serviços essenciais para a população, e aí se for necessário ampliar serviços a participação do serviço público , a agente vai fazer isto..


Começa a aparecer uma visão política bem clara, o senhor prefere contratar servidores do que terceirizar... O senhor pensa em criar estatais em Niterói?


No nosso programa a gente não aponta objetivamente para nenhuma área que a gente vai intervir através da Prefeitura O que a gente considera necessários são estudo dentro das áreas de concessão e a revisão da concessão é no setor de transportes, Não estatizar todo o setor de transportes, mas ter uma participação do município, assim como existe em Maricá. Em Maricá a gente tem uma linha que é tarifa zero, que não cobra nada, é sustentável, a Prefeitura tem condição de manter e que presta um serviço importante. A gente pode avaliar na cidade, inclusive do ponto de vista da mobilidade urbana, a gente pode ter uma operação deste tipo em alguma parte da cidade, é isso que eu estou colocando.


Que parte da cidade, por exemplo?


Aí a gente tem que pensar. A gente tem como proposta retomar os terminais de integração que estão previstos há muito tempo, isso é uma forma de evitar que todo transporte tenha que fluir para o centro da cidade, porque é o único terminal e de lá redistribuir. Mas você pode ter a integração intermodal em diferentes pontos. A gente pode avaliar, por exemplo, que para uma integração ser bem sucedida tenha um trecho que não tenha cobrança de passagem, que seja importante a gratuidade para garantir o sucesso desta política de mobilidade. Como coloquei no início, nosso plano não tem uma proposta de estatização nem de construção de estatais, mas intervenções pontuais, que possam garantir um serviço público de qualidade.


O senhor é crítico em relação à Transoceânica, o que falta fazer ali?


Acho que a Transoceânica foi uma obra muito cara, que saiu mais cara do que estava planejado, teve uma parte dela contratada por regime diferenciado de contratação, que é uma espécie de dispensa de licitação, e não impactou positivamente o sistema de transportes. Eu sou autor de uma lei que está em vigor e diz respeito ao serviço das barcas, é a criação de uma tarifa social em Charitas para que a Transoceânica tenha mais efetividade, para que o morador que trabalha no Rio de Janeiro possa ter a opção barca como um opção possível. Isso para nós é importante para a mobilidade de toda a cidade,


É realista? A lei foi aprovada, nunca entrou em vigor, o catamarã desativado crescendo mato, sem perspectiva de voltar a funcionar...


O catamarã está desativado porque a gente está no meio da pandemia. Foi isso que levou à desativação do catamarã.


Mas a barca funciona...


A barca está funcionando com horários reduzidos. Na verdade, todo o transporte público está impactado pela pandemia, você vê nas empresas de ônibus que houve dispensa de funcionários. No caso das barcas, é uma concessão que a empresa atual quer devolver. O TCE já tem uma decisão de que o próximo concessionário tem que prever a linha social de Charitas, como consta na lei. Você ter a linha social em Charitas é uma reestruturação do transporte aquaviário de longo prazo para a melhoria do transporte na Região Metropolitana e especialmente em Niterói.


A gente trabalha para isto. A Prefeitura de Niterói, quando estabeleceu o projeto de integração, ela já poderia ter incluído ali um acordo com a concessionária das barcas, para o início da operação da linha social de Charitas. Eu oficiei o Prefeito, a gente tem estudos e já apresentamos ao MP, que é possível já iniciar o processo de transição para a implementação da linha social e Niterói tem condições de fazer isto. Se a Prefeitura de Niterói participar desse processo, eu não tenho dúvida de que quando a gente superar este quadro da pandemia a linha social pode sair do papel. E, mais objetivamente, se ela não sair do papel de forma imediata, ela estará na próxima licitação, e é uma linha que será muito importante. Além disso, a gente tem que prolongar a Transoceânica até o centro da cidade.


Mas os ônibus têm portas do outro lado…


Tecnicamente, os ônibus podem funcionar, eles têm portas dos dois lados. Isso é algo que não dá para entender, a decisão da Prefeitura, se ela sabia que ia ter que operar ali. Reduziu a oferta de lugares, para ter as portas, e não funciona ali, não dá para entender.


Que outras ações são possíveis na área de mobilidade? Bicicletas?


A gente coloca três pontos estruturantes. Reorganização das linhas com base no planejamento já existente em Niterói. Existem três planos de transportes que ficaram engavetados. Com criação de terminais descentralizados, para melhorar a qualidade do sistema público de ônibus.. A linha social de charitas. E a gente faz uma defesa que Niterói realmente adote a bicicleta como meio de transporte seguro e viável. Isso significa não só fazer mais ciclovias, mas incorporar a ciclovia no planejamento urbano da cidade. Niterói tem uma situação singular. A gente tem num raio de cinco quilômetros do centro da cidade o Fonseca, Icaraí, Cubango, Santa Rosa, Ingá... Então é possível ter uma rede de ciclovias que insira a bicicleta realmente como transporte urbano. A proposta é melhorar a qualidade do transporte, reduzir o preço das passagens de ônibus, trabalhar pela implementação da linha social de Charitas, e ter uma malha cicloviária que ofereça um transporte eficiente e seguro


Como agiria no governo, na negociação com a Câmara e Vereadores? Chamaria todos os partidos? O grupo bolsonarista também?


Como prefeito, quando tiver que conversar com a Câmara de Vereadores, vou conversar com toda a Câmara de Vereadores. Agora, politicamente, nós não vamos buscar nenhum tipo de aproximação com o grupo bolsonarista. Isso é uma diferença que a gente tem com o grupo que está na Prefeitura, que botou todos em sua base de apoio, inclusive o partido do vice presidente Hamilton Mourão. A gente não entende que isso seja saudável, nem que isso seja democrático, porque a democracia se dá com projetos de diferente. A gente pretende ampliar os canais da democracia, ampliando os direitos sociais, muito diferente do que o bolsonarismo tem defendido para o Brasil. Não teremos nenhum tipo de aproximação política para trazê-los para a órbita do governo. Podemos tentar mostrar que os projetos que temos são importantes para a população. Mas nenhuma aproximação política.


Das mais de 50 secretarias, quantas manteria?


Eu cortaria as administrações regionais, porque tem parentes de vereadores, irmão nomeado, que é uma coisa de um atraso enorme> Mais importante que cortar o número de secretarias, no entanto, é cortar o número e cargos comissionados. Você pode ter uma secretaria importante que precisa de equipes para cumprir este papel. Se você cortar as administrações regionais, você já reduz o número de cargos, gente nomeada que não tem nenhum papel. Isso é o mais importante. A gente poderia até criar outras secretarias, por exemplo, eu defendo a criação de uma secretaria de Tecnologia. Niterói tem uma vocação muito forte, até pela presença da UFF, tem um parque de tecnologia. A gente pensa em ter uma secretaria de Ciência e Tecnologia e um órgão de fomento ligado a essa secretaria. A gente não tem falado quais vai cortar, para afinar isso da forma mais eficiente possível. O que a gente coloca é que vamos cortar 50% dos cargos comissionados.


Mudando de assunto: Educação. Tivemos uma paralisação de sete meses. O senhor é contra a volta às aulas, agora. Como recuperar esse aprendizado perdido?


Eu estou contra, enquanto a pandemia não estiver sob controle. Aqui em Niterói, por exemplo, a gente estagnou num patamar de novos casos por semana que é cinco vezes acima do que a Fiocruz considera como patamar seguro. É melhor que em outros momentos, em maio junho, quando houve o pico da pandemia. Mas ainda é muito alto o número de casos. Entendemos que a liberação pode levar a um aumento de casos e mortes. Nós já tivemos 500 mortes. Isso é um número muito alto. O que a gente pensa é manter um nível de conexão do aluno com a escola, especialmente alunos mais velhos que já manejam melhor as serviços virtuais do que os alunos mais novos. Isso é um assunto que a gente está discutindo com a Unicef. Porque é muito possível que o ano comece sem que a epidemia esteja controlada. Então é importante que você tenha mecanismos de contato com os estudantes, por exemplo, que o professor esteja em contato, nem que seja por telefone, duas ou três vezes por semana, para que as crianças tenham contato com a matéria. E com a melhoria da doença, com a abertura das escolas, a gente tem que pensar em protocolos seguros, talvez criando alguns esquemas novos. Por exemplo, o transporte escolar. Uma possibilidade num protocolo seguro é a gente prever transporte exclusivo do aluno para a escola. Isso acompanhado por uma agenda de protocolos seguros, com os professores, os pais. Não existe nenhuma saída para a educação pública que não seja promovida pelo diálogo, por uma razão muito simples: muitas escolas quiseram voltar às aulas, voltaram; e não estão tendo nem 20% dos alunos, porque está todo mundo ainda está preocupado com situação da pandemia


Qual o momento de voltar às aulas?


A gente trabalha com duas perspectivas. Tem uma curva, que está sendo estudada, inclusive pela Fiocruz, que estabelece como patamar seguro um índice de contaminação diário que a gente teria que seguir….


Niterói tem registrado nas últimas sete semanas, de 11 a 13 mortos...


Esse referencial não se aplica ao número de mortos, mas ao número de casos…


O número de novos casos nas últimas semanas ficou em torno de 500. Seria um quinto disto? 100 casos?


Exatamente… isso seria mais seguro para a retomada das aulas, sem significar um risco de aumento de retomada da curva epidemiológica


O senhor é contra a abertura de cinemas, a liberação de música ao vivo, bares atè as duas da manhã…?


A gente teria que ver os protocolos. Eu considero que parte destas atividades pode voltar, desde que com protocolos rígidos. Eu entendo que a reabertura em Niterói se deu de forma precipitada e isso impactou negativa mentes as curvas epidemiológicas. Você vê que o pico dos casos em Niterói se dá já com a flexibilização em andamento e com isso acabou que a gente não conseguiu controlar de fato a disseminação da doença. A volta teria que ser condicionada a um protocolo, às dimensões do lugar, à presença do público, condições de ventilação, isso tudo depende


Se fosse prefeito, o que teria feito diferente do que a Prefeitura fez?


Primeiro, acho que Niterói teve alguns pontos de acerto no combate à pandemia. ao reconhecer a gravidade da doença, criar condições de atendimento hospitalar, com a o Hospital Oceânico, o estabelecimento de um programa de testagem… É importante reconhecer o que houve de acerto. Mas a gente viu alguns equívocos. O primeiro foi a prefeitura ceder a uma abertura precoce, isso dificultou o controle da pandemia quando a pandemia ainda era muito forte, Niterói numa semana chamou o lockdown e na outra semana começou a flexibilização. O que não faz sentido. A prefeitura cedeu à pressão econômica, a gente não teria feito isso. Acho que apesar da prefeitura ter ampliado a testagem, essa ação não foi efetiva nas comunidades, por falta de agentes de saúde. Esse agente é muito importante. Niterói está com uma atenção precária, com poucos agentes, tendo que atender emergências. Isso dificultou que essa testagem fosse uma ação efetiva de controle. O que torna a ação efetiva é o agente comunitário de saúde, ele que está na comunidade. O agente vê que a pessoa está doente, já identifica se outras pessoas da família tiveram contato, quem mais teve contato com ele e cuida da testagem na família inteira. Isso não foi feito na cidade. As próprias famílias tinham que procurar atenção. Então faltou essa vigilância ativa.


Uma outra ação importante que a prefeitura adotou e a gente daria continuidade é a politica de apoio social, a vários setores, a famílias, trabalhadores, empresas. Renda Familiar, Empresa Cidadã, Supera Niterói são programas que a gente manteria, levando até depois da vacinação, para permitir que a economia da cidade se restabeleça. Niterói tem condições de fazer. iso, por isso estenderíamos até o final do ano que vem


Como o senhor vê a questão da vacina, a vacinação deveria ser obrigatória?


Se for segura e sem efeitos colaterais, acredito que deve ser obrigatória. Mas se ela tiver efeitos colaterais mais fortes, num caso destes, acho que não deve ser obrigatório. Se tiver efeitos leves, não impactantes, aí, sim, acredito que deveria ser obrigatoria


Outro assunto: Niterói Presente…


Niterói adotou o Niterói Presente e assistiu o que se assistiu no Brasil inteiro: um processo de queda dos indicadores de criminalidade. Aconteceu em todas as cidades, nos últimos dois anos. Agora, o que aconteceu em Niterói foi um aumento da letalidade policial. Cinquenta e três por cento das mortes ocorridas na cidade aconteceram por ações da polícia,. Neste sentido, a gente entende que a ação da prefeitura tem que ser diferente. Ou você estabelece um protocolo para reduzir esta letalidade ou esta parceria tem que ser revista. Tem que ser uma parceria preventiva, pode até trazer a Polícia Civil, para integrar numa ação de segurança cidadã.


E a maioria dos mortos eram negros…


88% negros


Como o senhor vê a ação das milícias. Tem informações sobre atuação das milícias em Niterói?


A gente tem acompanhado isso de perto, e a gente não tem em Niterói uma ação como a gente vê na zona Oeste do Rio de Janeiro. Mas você ações que se assemelham ao tipo de coação praticado pela milícia. Isso não é de hoje. Vamos lembrar que o irmão do deputado Freixo foi assassinado quando tentava regularizar a questão da segurança no prédio do qual ele era síndico. Há uma série de práticas que são preocupantes, como a cobrança de taxas para isso ou aquilo. Tem que ter sempre atenção e a prefeitura tem que atuar para combater estas prática, para resguardar os direitos da população


Alguns candidatos têm falado em armar a Guarda Municipal…


Eu me posicionei claramente no plebiscito contra o armamento da Guarda.


Eu gostaria de voltar à primeira pergunta desta entrevista, depois de conhecer melhor os seus planos. O seu partido teria condição de promover o desenvolvimento da cidade? Qual seria o plano de retomada da economia?


A gente no Brasil vive numa crise que vem de um quadro de recessão economia. A dificuldade no Brasil é resultado mais da queda da arrecadação, não do inchaço da máquina pública. Muitos economistas concordam que, neste momento, para sair da crise é importante a retomada dos investimentos. Então, a gente pensa em projetos capazes de criar empregos verdes, por exemplo. Empregos verdes são aqueles que estão relacionados à melhoria do meio ambiente. Às obras que estão em curso, a gente quer incluir obras que estejam ligadas à mobilidade urbana, como as ciclovias, ordenadas, seguras, Melhorar o nosso sistema lagunar. A gente considera que os investimentos públicos em Niterói estão muito localizados nos bairros mais nobres e chegam pouco às favelas. No centro de Niterói a gente tem três favelas que você passa da metade do morro você tem esgoto correndo. Na Região Oceânica, você tem as lagoas morrendo porque a coleta não passa nas casas. Isso tem que ser cobrado da concessionária. E tem que ter o investimento da Prefeitura. Então gente quer redirecionar estes investimentos para áreas que a gente acha que são mais sensíveis. A gente pensa por exemplo, em ampliar a coleta seletiva, em estimular a criação de cooperativas, isso já seria um outro ponto de geração de renda.


Quando a gente pensa no desenvolvimento da cidade, a gente pensa também em investimentos na área de tecnologia, que pode ser uma vocação da cidade. Niterói tem uma presença forte de universidades, a começar pela UFF, com muitos profissionais qualificados, e a gente tem que estimular que essa presença de universidades na cidade se reverta na mudança de padrão de desenvolvimento da cidade. TI, games, isso faz parte da nossa proposta.



O STF marcou o julgamento dos royalties do petróleo. O senhor è favorável a um adiamento?


Enquanto não houver consenso, é melhor adiar. Porque se houve uma decisão contrária, Niterói vai sofrer muito e o Rio de Janeiro vai quebrar. Niterói tem hoje uma capacidade de investimento porque teve um aumento na arrecadação de royalties, que representa quase 30 por cento. É isso que deu à cidade recursos para enfrentar a crise como estamos enfrentando.


O senhor gostaria de acrescentar alguma coisa, algo que ficou fora da nossa conversa?


Tem um ponto importante. É inaceitável que uma cidade com os recursos de Niterói tenha uma rede de educação que mantenha cerca de 15 mil crianças fora da escola. Nossa proposta é ampliar a rede desde as creches, e nos primeiros anos. É um absurdo ver crianças de três ou quatro anos numa fila para encontrar uma vaga, porque essa criança vai entrar na escola com deficiências que vão prejudicar a criança e talvez não sejam corrigidas mais adiante. Então tem que ter escola, alimentação acompanhamento


É um investimento que a cidade pode fazer, inclusive na garantia da vida de nossas crianças e adolescentes, é garantir de fato a universalização da Educação Infantil. Educação tem de ser integral, inclusiva e antiracista.

A atual gestão diz que construiu, neste período de oito anos, 25 escolas…


Isso é mentira! A Prefeitura distorce intencionalmente. A maior parte dessas unidade escolares foram unidades que já existiam, que eram conveniadas, a prefeitura já mantinha, já contabilizava as matrículas nessas unidades como matrículas municipais, e elas só que deixaram de ter gestão ou de associações de moradores ou religiosas. Mas isso não significa novas vagas na rede. Se você for pegar de fato novas escolas, é mais ou menos a metade dessas 25, o que é muito pouco para uma cidade como Niterói e com a carência de vagas. A gente calcula que há necessidade de ter 29 novas unidades para ter educação integral.