Fundador da Fluminense FM cria rádio na web voltada para o rock e o blues

Luiz Antônio Mello, criador da eterna "Maldita" e "grudado" em Niterói, apresenta a Rádio LAM


Por Gabriel Gontijo

Foto: Divulgação


Uma das emissoras que até hoje deixam saudades nos ouvintes, principalmente os fãs do rock'n roll, é a Rádio Fluminense 94,9 FM. Mas os órfãos da eterna Maldita terão espaço na Rádio LAM, criada por Luiz Antônio Mello, um dos fundadores da emissora que revolucionou o rádio em todo o Brasil. E, além do rock, a web rádio também vai tocar blues 24 horas por dia.


Em conversa com o A Seguir: Niterói, Luiz Antônio Mello falou sobre o novo projeto inaugurado há uma semana e que é chamado por ele de "a nova filha roqueira de Niterói". De acordo com o criador da Rádio LAM, a emissora da web vai tocar clássicos do gênero, mas estará "muito antenada com os novos". Ele é sincero e direto ao falar qual o tipo de rock que os ouvintes vão encontrar.


- A Rádio Lam toca clássicos do rock, mas está muito antenada com os novos. No entanto, não toca metal e nem punk porque não é seu perfil e existem na web rádios excelentes especializadas nos dois estilos. Particularmente eu gosto muito de punk rock, mas rádio não é CD player. A rádio também toca blues rock - explica Mello.


E também há espaço para os "órfãos da Maldita" na Rádio LAM. Relembrando nomes de artistas e bandas da Alemanha e Itália que o inspiraram na criação da rádio em 1982, Mello cita outras emissoras extintas que são homenageadas no projeto.


- Claro (sobre atender os ouvintes que têm saudades da Fluminense FM). Afinal, ano que vem, 2022, a Fluminense FM faria 40 anos e a presença dela na programação musical é uma honra. A Rádio LAM é um somatório de experiências que acho que tive em rádios desde que comecei como estagiário da Radio Federal AM (rock) em 1973, onde conheci os progressivos alemães e italianos que tocam na LAM: Neu, Can, Amon Düül, Faust, Banco del Mutuo Soccorso, Leo Orme, etc. Tem também ingredientes da Eldo Pop, Fluminense FM e Globo FM que comecei a montar em 1985.


O jornalista Luiz Antônio Mello, niteroiense que sabe tudo de rádios


As locuções são do próprio Luiz Antônio Mello, responsável por gravar "as 24 horas de fala". Além disso, ele planeja "falar mais, desde que tenha coisas para dizer". E o criador do projeto não pretende investir em podcasts, "mas concentrar a energia no link https://radiolam.wixsite.com/24horas".


Mello responde se é possível o Rio voltar a ter uma rádio voltada ao rock que faça sucesso


Um tema que gera muita discussão é se ainda é possível fazer uma rádio exclusivamente dedicada ao gênero rock que faça sucesso. Apesar de ser relembrada com muito carinho até hoje pelos ouvintes, a Fluminense FM tinha dificuldades em conseguir anunciantes, conforme relato do próprio Luiz Antônio Mello no livro "A Onda Maldita. Como Nasceu a Fluminense FM", cuja última edição foi lançada em 2012.


Mello é direto em afirmar que o "rock está aceso, está aí" e acredita que é possível fazer história no gênero da mesma forma que a Fluminense fez, pois "não falta coisa boa". Mas ele acredita que é necessário "bons vendedores, gente que consiga anunciantes", já que sem patrocínio "nenhuma mídia sobrevive".


Considerada por alguns como a única emissora carioca do gênero na atualidade, a Rádio Cidade deixou o dial pela terceira vez no dia 10 de fevereiro. A frequência 102,9 foi passada para a Igreja Pentecostal Deus é Amor numa operação que causou fortes críticas nas redes sociais da rádio. Perguntado a respeito, Mello deixa claro que não considerava a Cidade uma rádio que pudesse trazer inovação para quem gosta de rock.


- Eu só ouvi a Cidade durante os dois primeiros dias, não gostei e não ouvi mais. O que ouvi foi algo velho, arcaico e ultrapassado. As vinhetas eram totalmente anos 90, com ecos e voz distorcida. A programação musical (repito, só ouvi dois dias) era a mesma da Cidade anterior que saiu do ar. Os anos 1990 do rock, na minha opinião, foram muito chatos, quase medíocres, alguns destaques aqui e ali, mas há quem confunda música com rádio.


E ele explica mais:


- A música é parte de uma rádio, que envolve locução, textos, vinhetas, chamadas e trabalho para profissionais do meio. Os executivos desse veículo têm expertise suficiente para dirigir qualquer tipo de emissora. Ele é um gestor de rádio e não de música. Se a emissora é de notícias ele contrata bons jornalistas, se é de samba, contrata conhecedores do gênero, e por aí vai. O formato das boas e modernas rádios rock deste milênio prima pela discrição, uma conversa normal com os ouvintes, de igual para igual, e as vinhetas seguem o mesmo padrão de elegância, como a linguagem dos textos, das promoções, do produto como um todo - argumenta Mello, que lamenta "profundamente o Rio perder mais um canal de FM para o fundamentalismo religioso".


Faltam novidades


Outra coisa que ele critica é o fato de o rádio carioca ser "ricas moedas de troca, de negociatas políticas" há décadas. Também afirma que falta novidade no meio, onde muitas emissoras voltadas ao público jovem "tocam a mesma coisa". Ele faz uma análise sobre o atual momento do dial no Rio.


- Hoje, o sujeito tem, por exemplo, uma concessão de FM. Decide fazer uma rádio musical, contrata programadores, locutores, jornalistas, técnicos, área comercial. Lá na frente, apesar de estar faturando, percebe que poderia alugar a concessão por R$ 300 mil, R$ 400 mil por mês para uma igreja da vida, sem gastar um centavo com pessoal, impostos, água, luz. Tudo por conta do inquilino. Ele acha melhor embolsar R$ 400 mil líquidos por mês. Para piorar, as emissoras que estão no ar atualmente não contratam bons profissionais para fazer o produto. Já as rádios adultas em geral só tocam sucessos dos anos 70, 80, 90. São no máximo 50 músicas por dia repetindo, repetindo e repetindo. Sinceramente, só ligo FM para ouvir Bandnews ou CBN que são allnews bem feitas - desabafa.


Comentário sobre os dois filmes baseados na "Maldita"


Fundada em 1º de março de 1982, a Rádio Fluminense 94,9 FM foi um fenômeno responsável por lançar no cenário brasileiro inúmeras bandas de rock nacional, como Os Paralamas do Sucesso, por exemplo. Com um elenco formado todo por vozes femininas, a emissora revelou nomes como Selma Boiron, Monikinha Venerábile e Mylena Ciribelli.


Por toda a história marcante até hoje relembrada por muitos ouvintes, dois longas contam a trajetória da Maldita: O documentário “A Maldita”, de Tetê Mattos, e o "Aumenta que é rock'n roll", de Cacá Diegues, que é uma ficção baseada no livro escrito por Mello.


Falando das duas obras cinematográficas, ele conta o que achou ao assistir aos filmes e até brinca com o ator Jhony Massaro, que o interpretou no longa de Diegues.


- O documentário “A Maldita” da Tetê Mattos, que estreou no Festival do Rio em dezembro, é maravilhoso e traz imagens da época raras, preciosas. Além de depoimentos de profissionais que trabalharam na rádio, artistas, etc. Ele vai ser exibido no Canal Brasil e também no Cine Arte UFF. O outro é uma ficção baseada em meu livro “A Onda Maldita – como nasceu a Fluminense FM” que está em fase de finalização. Está ficando sensacional. O diretor Tomás Portella deu show, uma dinâmica que é a cara da Maldita e o roteirista L.G. Bayão inventou histórias hilárias. O elenco é nota mil e ver o Johnny Massaro no papel de Luiz Antonio chega a dar frio na espinha. Está igualzinho ao meu jeito, parece mediunidade (risos). Sou muito grato à produtora executiva Renata Almeida Magalhães, que em 2013 me ligou dizendo que queria filmar o livro. Foi muito além. Renata vibra com o projeto, manda ver. Ela e o marido, Cacá Diegues, que, claro, rege a orquestra. Estou muito feliz e grato por esses dois filmes - conclui.