Futebolistas com história em Niterói opinam sobre possível mudança de nome do Maracanã para Rei Pelé

Proposta foi aprovada pela Alerj na quarta (9) e deve ser analisada pelo governador Cláudio Castro em até 15 dias

Por Gabriel Gontijo

Pelé após o milésimo gol no Maracanã, em 1969. Foto: Reprodução/Santos F.C./Site oficial


Embora não seja o estádio com a maior capacidade de público do planeta, o Estádio Jornalista Mário Filho até hoje é falado carinhosamente como "O Maior do Mundo" por ter sido, de fato, o que mais tinha torcedores. Mas o que se encontra gigante no momento é a polêmica aprovação da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) em mudar o nome para Estádio Edson Arantes do Nascimento - Rei Pelé. A Casa Legislativa aprovou a decisão na terça-feira (9) e o governador em exercício Cláudio Castro vai decidir em até 15 dias se sanciona ou veta a decisão.


Independentemente do que o chefe do governo estadual vai decidir, a polêmica já está feita. Em entrevista a diversos veículos de imprensa, o neto de Mário Filho, Mário Neto, criticou fortemente a medida e chegou a dizer que, se fosse para batizar com o nome de um jogador, que fosse o de Garrincha, ídolo do Botafogo.


O A Seguir: Niterói conversou com três jogadores que disputaram partidas no Maracanã e que também tem vínculo com Niterói para opinarem sobre o tema. São eles Caio Cambalhota, nascido na Cidade Sorriso, o ex-goleiro do Botafogo Wagner, morador há décadas do município, e Túlio Maravilha, maior artilheiro da história do Estádio Caio Martins, localizado em Icaraí.


Campeão carioca por Botafogo e Flamengo, Caio Cambalhota é enfático em discordar da mudança de nome. Deixando bem claro "não ter nada contra Pelé" e que "admira demais tudo o que ele fez pelo futebol", ele concorda com o neto de Mário Filho sobre Garrincha ser o jogador que deveria ser homenageado, caso tivesse que mudar o nome do estádio. Além disso, o ex-atleta critica a atual estrutura do Maraca.


- O Maracanã que está aí hoje não é um estádio, é um teatro. Tiraram a torcida de lá. Acabaram com a alegria da geral. E agora querem mudar o nome para Pelé. Não é justo. Se fosse pra homenagear um jogador, então que se colocasse o nome de Garrincha. Tem muita gente que tem mais história jogando lá e não batiza estádio. Castilho, goleiro do Fluminense, e Zico, por exemplo, não têm uma homenagem dessa. O Barbosa, goleiro de 50, nem teve esse direito, carregou uma culpa que nunca existiu. Se o Pelé tivesse essa mesma história que eles tiveram no Maracanã, eu não falava nada. Mas ele não tem. Aliás, o nome do estádio do Santos é Vila Belmiro, não é Rei Pelé. Se não mudaram lá, por que querem mudar aqui? - questiona Caio.


Ídolos botafoguenses com opiniões distintas


Jogando no que ainda leva o nome de Mário Filho, Wagner levantou as taças da Copa Comenbol em 1993 como reserva, do Campeonato Carioca de 1997 e do Torneio Rio-São Paulo de 1998, sendo estas conquistas como titular. Embora tenha sido campeão brasileiro em 1995, o jogo decisivo foi no Pacaembu, em São Paulo. O ex-arqueiro do glorioso é mais um que é contra a mudança.


- O Maracanã já tem o tempo que tem com o nome que lhe foi dado há anos. É claro que o Pelé é uma personalidade dentro do nosso país, mas não vejo motivo pra fazer essa mudança. Até porque os políticos que estão planejando isso deveriam pensar em coisas bem mais importantes para resolver. Deixo bem claro que tenho muito respeito ao Pelé, reconheço ele como um grande ídolo mundial, mas, na minha opinião, o nome do Mário Filho tem que permanecer - opinou.


Dizendo também que "isso é coisa de quem não tem o que fazer, de gente que quer inventar moda", Wagner guarda duas curiosidades em relação ao estádio. A primeira é que na final do Brasileirão de 1995 ele teve como adversário o goleiro Edinho, filho de Pelé. E a outra peculiaridade é que o então camisa 1 do Fogão esteve em campo na última vez que o Maracanã registrou na história um público superior a 100 mil pessoas. Foi na final da Copa do Brasil de 1999, na qual o Botafogo foi vice-campeão para o Juventude, do Rio Grande do Sul. O jogo terminou em 0 a 0, mas o time gaúcho foi campeão por ter vencido o primeiro confronto por 2 a 1.


Mas um outro ídolo botafoguense, e que foi colega de Wagner em algumas das conquistas do Glorioso, tem uma opinião diferente. Túlio Maravilha é favorável à homenagem. Artilheiro da história do Caio Martins com 64 gols, ele falou que a mudança já deveria ter acontecido ainda na época em que o rei fez o milésimo gol, em 1969, no jogo contra o Vasco.


- Eu sou a favor da mudança de nome. Penso que isso deveria ter acontecido há muitos anos, desde quando ele fez o milésimo gol em 1969. Quando se viaja para fora do Brasil, a primeira palavra que as pessoas pensam quando se fala no nosso país é "Pelé". Eu, como esportista que sou, rei do Caio Martins, assino embaixo. Está em ótimas mãos essa homenagem. Quando ele morrer vai ter a certeza que ele estará perpetuado na história do futebol mundial no templo sagrado que é o Maracanã, o maior de todos - argumenta Túlio, com seu tradicional e conhecido bom humor.


De autoria do deputado estadual André Ciciliano (PT), o projeto de lei que dispõe sobre a alteração, 3.489/21, mantém o nome de todo o complexo esportivo como "Jornalista Mário Filho", mas alteraria o do estádio. O PL teve outros deputados como relatores, como Marcio Pacheco (PSC), Eurico Junior (PV), Carlos Minc (PSB), Coronel Salema (PSD) e Alexandre Knoploch (PSL) e até o ex-jogador Bebeto (Podemos). Procurado para comentar sobre o projeto, até pela relação que tem com o estádio, o campeão da Copa de 1994 não quis comentar o assunto.


ABI lança manifesto contrário à mudança


Em carta aberta assinada pelo presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), Paulo Jerônimo, a entidade afirmou que recebeu "com espanto" a notícia da possibilidade da mudança de nome. Reconhecendo que o "genial" Pelé merece todas as homenagens, a associação pede para que o governador reconheça "a importância indiscutível de Mário Filho para o jornalismo esportivo, no Brasil, bem como sua relevante atuação como escritor".


Irmão de Nelson Rodrigues, Mário Filho escreveu os livros “Histórias do Flamengo”, “Viagem em torno de Pelé”, uma homenagem ao Rei do Futebol, ainda em 1964, e, principalmente, “O Negro no Futebol Brasileiro”, considerado como referência no pioneirismo ao abordar o racismo dentro de campo.


Além da manifestação da ABI, um grupo de jornalistas esportivos criou um abaixo-assinado online contra a mudança. Quem quiser saber mais detalhes, basta acessar https://secure.avaaz.org/community_petitions/po/sport_art_comunicacao_e_eventos_nao_a_mudanca_de_nome_do_maracana_1/?zUCiZrb