Grupo faz financiamento coletivo para revitalizar o São Dom Dom

Atualizado: Mar 12

Prédio onde já se apresentaram grandes artistas passa por reformas e terá programação variada, inclusive infantil

Amanda Ares

Foto: Arquivo pessoal


O São Dom Dom, clássico espaço cultural independente de São Domingos, está passando por uma revitalização coletiva. A casa histórica da Rua General Osório foi, ao longo de 10 anos, palco de muitos shows, brechó, biblioteca, sala de exposições, além de um espaço de grandes encontros de músicos de peso na cidade, como Sérgio Chiavazzoli, Fernando Caneca e Júlia Vargas. Agora, um grupo de amigos músicos e artistas liderado pela gerente do local, Solanges Pontes, se une no esforço de reformá-lo para uma nova fase do empreendimento cultural, que irá contemplar também as crianças do entorno de São Domingos. Solanges Pontes conversou com o A Seguir: Niterói sobre a história por trás do espaço, a campanha de financiamento coletivo para a reforma e as perspectivas da reabertura:


A Seguir: Niterói - De quem foi a ideia de abrir a casa para se transformar num point cultural?


A ideia foi minha e do meu marido na época, o Claudio Schott, que é músico. Nós somos de Niterói, eu moro em São Domingos desde que eu nasci. Quando fomos morar em Visconde de Mauá, e montamos uma livraria e locadora de livros lá, e trabalhamos com cultura. Quando voltamos de lá, ficamos meio fora do mercado de trabalho, e essa minha tia, tia Ida, que morava ali, cedeu a parte da frente da casa, que antigamente era um comércio, onde funcionava uma barbearia, já foi mercearia. Mas nós viemos pra cá com uma pegada cultural, pois passamos quatro anos trabalhando com entretenimento e cultura.


- O que o São Dom Dom já fez, naqueles dez anos, e de que momentos você lembra mais?


Abrimos em 2003. Pensamos em fazer uma lanchonete à noite, trouxemos os livros de Visconde de Mauá e adaptamos no andar de cima. Já tínhamos uma experiência com noitada, com rock 'n roll, porque Claudio conhecia muitos músicos. E aí, todo dia tinha um músico novo querendo se apresentar, e a gente não conseguia dizer não. Decidimos que os músicos iriam tocar no andar de cima, e embaixo ficariam a lanchonete e o bar. Até que um músico amigo nosso, o Dino Rangel, quis tocar no andar de baixo. Ele e o Mazinho Ventura, que tocam jazz. E pronto, nunca mais conseguimos fazer os músicos tocarem no andar de cima.


Segunda Jazz. Arquivo pessoal


A gente fazia a Segunda Jazz, a Quarta MPB, quinta, era o dia do DJ, e quem comandava era o DJ Gomes. Sexta, rock 'n roll, sábado, às vezes a gente abria, às vezes não, e domingo, começou a entrar uma turma mais jovem. Chegou num nível de qualidade que uma turma nova que estava chegando, como os Giras Gerais, que nasceu ali… A Júlia Vargas, a Amanda Chaves, da banda Devir...


Niterói é um lugar muito rico musicalmente. E não tinha um lugar que tivesse feito isso que a gente fez, depois que o antigo Cantareira fechou. O que só aconteceu por causa da disponibilidade dos músicos, que fecharam com a gente independente do que recebiam, ou de qualquer coisa.


- Por que você acha que o Dom era tão popular?


Porque era um lugar disponível pra isso. Como o Claudio era músico e tínhamos esse know how de cultura, sabíamos tratar o músico. Todos os famosos que existiam em Niterói já passaram por ali em algum momento: O Paulinho Guitarra, que foi guitarrista do Tim Maia a vida toda, e tocou ali, Marcelo Martins, Sérgio Chiavazzoli, instrumentista do Gil; Fernando Caneca, que toca com a Marisa Monte…


E ali, era assim: a partir da segunda cerveja, você precisava pagar o couvert, e só ficava quem pagava o couvert, então o músico se sentia prestigiado. Era um lugar para prestigiar o músico. E muita gente bebia na praça pra não pagar o couvert - o que é a cara de Niterói -, e tínhamos brigas por causa disso, mas nós deixávamos de servir. Isso foi assim nos 10 anos de funcionamento.


Arquivo pessoal


Solanges explica que a maior parte dos músicos e frequentadores do Dom também haviam tocado e produzido no antigo Cantareira, que funcionou como espaço cultural autônomo por muitos anos, até ser fechado pela prefeitura para uma reforma, com a promessa de se transformar em um centro cultural, o que nunca aconteceu. Atualmente, o Espaço Cantareira é um local privado de eventos.


- Por que o São Dom Dom parou de funcionar?


Quando o Cantareira, que era um centro cultural nascedouro, feito pelas pessoas, fecha, as pessoas passaram a fazer da praça o que era o espaço, e virou uma loucura. Até que em 2008, a praça ficou fechada para reformas. Nós continuamos funcionando com a programação, mas o público diminuiu consideravelmente. Como o São Dom Dom é um lugar pequeno, pra ele se sustentar, tem que estar cheio, e a praça em obras espantou as pessoas. E aí a gente comeou a ter um declínio, e isso eu devo à má estrutura da prefeitura na época. Aí, a gente continuou fazendo música, mas em 2010 foi ficando difícil, e fechou em 2011.


- Quem está nessa empreitada de revitalizar o espaço, e o que vem por aí?


Meu filho que propôs, ele vem propondo há anos. Ele tem vinte e um anos e já tem um projeto, em que ele filma com os amigos ali dentro. Em novembro, eu conheci alguns amigos, e numa conversa com a Soraya, que é antropóloga, eu falei sobre a vontade do meu filho de trazer o São Dom Dom de volta, mas eu disse a ela que não queria voltar como bar.


Eu tenho memórias boas do bar, mas vejo que enquanto a gente estava curtindo, coisas ruins vinham acontecendo no entorno. Via crianças sendo levadas pela polícia, e crianças morrendo, inclusive. E esses episódios me fizeram começar a ver que o entretenimento desordenado na praça causou uma mazela irreversível pro bairro, que foi a violência, principalmente para as crianças dali que não chegaram a crescer. Então, eu queria fazer algo pensado pras crianças, mas eu não tenho pegada pra trabalhar com criança ou jovem. Eles, esses amigos, têm.


A gente ainda está em construção, mas vamos ter oficinas musicais, vamos ter aparelhagens pra circo, pra oficinas, trabalho com filosofia pra jovem, leitura e escrita… e inicialmente é o que a gente pensa: Fazer um espaço pra atrair as crianças, e ver a demanda que tem que ser desenvolvida. Também vamos ter os espaços de música, o palco de encontro, fazer em um mês as Segundas Jazz, no outro, Terças Reggae. Vamos ter um show, e sim, a gente vai vender cerveja, mas não vai ser nossa prioridade. Vai ser um lugar pra aproveitar a cereja do bolo do São Dom Dom. Não é a bebida que faz o encontro acontecer, é o espaço.


Arquivo pessoal


Estamos fazendo a campanha de financiamento coletivo pela plataforma kikante, e queremos que ao contribuir, as pessoas se sintam parte dessa nova fase do Dom.


Lei Aldir Blanc


Enquanto o espaço não abre, Solanges e os amigos irão realizar atividades remotas, transmitidas online, como as oficinas de escrita, de filosofia e, claro, shows ao vivo. O São Dom Dom foi contemplado pela Lei Aldir Blanc, e irá transmitir apresentações produzidas pelo coletivo.


- Buscamos fazer uma releitura de nossa programação quando bar:

Segunda Jazz, com Zé Canuto e sua banda, Terça Reggae com Careca Camillo & MondNego, a Quarta MPB com o lançamento do disco de "Claos Mózi & Alcachofras", entre outras.


As transmissões ocorrem entre os dias 5 e 11 de abril, das 19 às 20h, na página facebook.com/sao.domdom.1


Confira o vídeo que conta mais da história do espaço: