Longo convívio com o lockdown, a lição da França no combate à Covid

Atualizado: Mar 26

País vive terceira onda de pandemia, mesmo com restrições


Por Livia Figueiredo

La Défense, polo financeiro de Paris, França / Foto: Milena Daumas


Durante um ano de pandemia, muitos cenários já foram vistos na França. O primeiro lockdown do país impôs medidas mais rigorosas para controle da Covid-19. Ruas desertas davam o tom de que o melhor caminho era se resguardar e ficar em casa e sair para rua apenas para o essencial. No entanto, em março a situação começou a fugir um pouco do controle. Apenas dois dias após anunciar novas medidas de lockdown, a França vive nesta semana uma terceira onda da Covid-19. O depoimento é do primeiro ministro, Jean Castex. O número de pessoas em unidade de tratamento intensivo atingiu uma nova alta, segundo dados do Ministério da Saúde.

A realidade é dura, semelhante ao Brasil, o número de pessoas com Covid-19 em UTIs aumentou em 142, o maior aumento diário deste ano, atingindo a marca de 4.548, a nova máxima de 2021. Desde que começou a pandemia, a França já passou por algumas fases de lockdown. O resultado é que, mesmo com o fechamento de alguns estabelecimentos e restaurantes, o país está sob ameaça de um colapso no sistema de saúde.


- Desde que eu cheguei à França as coisas mudaram bastante. Em setembro, as pessoas só tinham que usar máscaras. Bares, restaurantes e o comércio como um todo estavam abertos funcionando como se fosse vida normal. Isso era no final do verão. Até que em outubro decretaram o lockdown e os estabelecimentos fecharam de vez – conta Milena Daumas, que reside na França atualmente para cursar mestrado de Relações Internacionais.


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Nascida e criada em Niterói, a estudante conta que durante sua estadia na França, que agora já completa seis meses, muita água rolou. Ao longo desse período, ela diz que não houve um lockdown tão severo quanto o primeiro instituído no país, porém algumas restrições já chegaram próximas a ele. “Em outubro, as pessoas tinham que ter justificativa para sair. A gente só podia fazer uma hora de exercício físico em lugares que estavam há no máximo 1 km de distância da nossa casa por dia. Isso durou dois meses, apenas”, releva.


Lockdown menos severo


Em dezembro, Milena relembra que foi instituído o toque de recolher a partir das 20h e, no final de janeiro, o horário foi alterado para 18h. No final da semana passada, a estudante destaca que foi decretado uma espécie de lockdown novamente, porém com a diferença de ter menos restrições em comparação com o decreto de outubro. Ainda assim, bares, restaurantes e museus seguem fechados desde outubro. Lojas também continuam com as portas fechadas desde janeiro. Em dezembro, o comércio ficou aberto para compras de Natal. No momento, restaurantes funcionam no esquema de delivery, parques seguem abertos e algumas escolas, dependendo do nível.


- Acho que a palavra lockdown carrega um peso, mas na prática as pessoas já estão entendendo que a gente vai conviver ainda com isso durante muito tempo, com as medidas e tudo mais. Eu acho que de outubro até fevereiro não mudou muita coisa porque era inverno e estava muito frio. Especialmente em janeiro e fevereiro. As pessoas não saíam para fazer praticamente nada, pois a temperatura não permitia. Restaurantes e museus estavam fechados e não dava para fazer muita coisa ao ar livre por causa do frio – explica.


Agora, o cenário é outro. Com as temperaturas mais amenas e medidas menos severas de isolamento social, a jovem confessa que tem receio de sair. A temperatura mais agradável faz naturalmente com que as pessoas queiram ir para a rua e fazer atividades ao ar livre. Ela acredita que o principal desafio que a França enfrenta agora será o de lidar com a chegada da primavera e do verão.


Ensino Médio retorna para sistema híbrido


Até o dia 19 de março, as redes de Ensino Infantil, Fundamental e Médio estavam funcionando com aulas presenciais. No entanto, desde segunda-feira, 21 de março, o Ensino Médio passou a funcionar no sistema híbrido, mesclando o ensino remoto com o presencial, em uma tentativa de frear a circulação do vírus entre os jovens.


O primeiro ministro da França, Jean Castex, já havia anunciado ao parlamento que o país estaria passando por uma terceira onda da Covid-19. Em meados de março, a média de sete dias de casos novos passou de 25 mil pela primeira vez desde o dia 20 de novembro. O aumento constante de novos casos não é à toa: o país segue adotando medidas mais brandas no sentido de conter o avanço da circulação do coronavírus. Assim como outros países da União Europeia, a França está bem atrás dos Estados Unidos e do Reino Unido no avanço da campanha de vacinação da sua população.


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