Médica do Hospital Oceânico alerta para aumento de jovens internados com Covid

Infectologista da Fiocruz, Diana Ventura, explica o risco das novas variantes do coronavírus e alerta para os casos de reinfecção

Por Livia Figueiredo

Infectologista Diana Ventura é da Fiocruz e do Hospital Oceânico. Reprodução


“Estamos verificando nesse momento uma redução significativa na faixa etária, com pacientes bem mais jovens necessitando de internação, de cuidados intensivos e já chegando muito graves ao hospital. Pacientes que, muitas vezes, além de jovens, não possuem histórico médico de doenças crônicas ou outras condições que aumentam o risco de complicações pela Covid-19”, relata a médica Diana Ventura, que atua na área de Infecção Hospitalar de Covid-19 no Hospital Municipal Oceânico de Niterói, no dia em que se completa um ano desde a confirmação da primeira morte na cidade, e quando a pandemia chega ao pior momento no país.


O Hospital Oceânico foi "construído" (foi arrendado e equipado pela Prefeitura) para reforçar a capacidade de atendimento dos pacientes graves de Covid na rede pública. Tem leitos e UTIs, respiradores, todo equipamento necessário, e equipe treinada para o tratamento da doença. Hoje, cerca de 100 pessoas internadas. Ao lado do Hospital Carlos Tortelly, referência para Covid no município, têm sido responsável pela recuperação de muitos doentes. A grade do hospital, tomada por fitas coloridas, colocadas por quem venceu a doença, é uma das imagens mais fortes do enfrentamento da pandemia na cidade.



Diana Ventura chama a atenção para os riscos das novas variantes que são mais contagiosas do que a linhagem original do vírus, isto é, se propagam com mais facilidade e rapidez. A comunidade científica também acredita que sejam capazes de causar quadros clínicos mais graves. Todas estas características, adverte a médica, contribuem para essa nova onda de casos.


A médica também sublinha que a reinfecção pode ocorrer independentemente da presença de anticorpos nos exames sorológicos, principalmente após três meses da primeira infecção. No entanto, ainda não é comprovado cientificamente que as novas variantes são capazes de causar reinfecções mais precoces em pessoas com diagnóstico recente de Covid.


O A Seguir: Niterói dá sequência à série especial de um ano de Covid, com relatos de profissionais da linha de frente, especialistas, entre sanitaristas, infectologistas e pesquisadores que traçam uma perspectiva crítica sobre o que avançou de conhecimento sobre a Covid-19, o que se pode afirmar sobre as novas variantes até então. A ideia é oferecer um panorama da situação atual da Covid e a sobrecarga de leitos hospitalares provocado pelo aumento do número de contaminados da doença.


Além de atuar na área de Infecção Hospitalar de Covid-19 no Hospital Municipal Oceânico de Niterói, Diana é também Infectologista há 14 anos no Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas da Fiocruz. Mestre em Microbiologia Médica Humana pela UERJ e graduada pela UFF, a médica possui especialização em Doenças Infecto-Parasitárias pela UERJ. Também é chefe do Serviço de Controle de Infecção Hospitalar e Presidente da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar.


Confira abaixo a entrevista na íntegra:


A Seguir: Niterói: É possível traçar um perfil dos pacientes que estão chegando ao hospital? É um público mais jovem? Dra. Diana Ventura: Estamos observando atualmente no Hospital Municipal Oceânico de Niterói e em todo o Brasil e no mundo, uma mudança no perfil da população que está se infectando e desenvolvendo formas mais graves da doença, em comparação a outros momentos da pandemia. Estamos verificando nesse novo público uma redução significativa na faixa etária, com pacientes bem mais jovens necessitando de internação, de cuidados intensivos, e já chegando muito graves ao hospital.


Pacientes que, muitas vezes, além de jovens, não possuem histórico médico de doenças crônicas ou outras condições que aumentam o risco de complicações pela Covid-19. Pacientes com menos de 40 anos de idade, alguns até com menos de 30 anos, sendo internados em situação muito grave, numa fase mais precoce da doença e com pior resposta aos protocolos médicos usualmente instituídos para os outros pacientes.

Em relação às novas variantes, quais são seus maiores riscos, além de serem mais contagiosas? - O que sabemos até agora é que as novas variantes do SARS CoV-2 são as responsáveis por essa nova onda de casos que estamos assistindo em todo o mundo. Sabe-se que elas são mais contagiosas do que a linhagem original do vírus, isto é, elas se propagam com mais facilidade e rapidez. Ainda não há comprovação científica de que elas sejam mais virulentas, ou seja, de que sejam capazes de causar quadros clínicos mais graves e de maior mortalidade.

Recentemente foi publicado um estudo científico na revista Nature que sugere que a linhagem britânica (B.1.1.7) pode ser mais agressiva e letal, em comparação ao vírus original. No entanto, este tópico ainda está sendo estudado e ainda não podemos afirmar que as novas linhagens do SARS CoV-2 sejam mais virulentas.


Sobre os jovens, ainda não sabemos se essas novas linhagens genéticas possuem alguma predileção especial por pessoas mais jovens e saudáveis, mas o fato é que estamos observando em todo o mundo o acometimento deste público no cenário atual da pandemia. Eu atribuo esse fenômeno, inicialmente, ao fato de as novas cepas virais serem mais contagiosas, associado ao fato de que os jovens, em muitas partes do mundo, não estão respeitando o distanciamento social e o uso de máscaras, frequentando bares, shows e todo o tipo de aglomeração em eventos sociais. Com isso, tornaram-se alvos mais expostos para o vírus.


Além disso, há a hipótese, ainda não comprovada, de que as novas cepas possam ser mais virulentas, o que também contribuiria para justificar o maior número de casos em pessoas mais jovens e sem comorbidades. Há casos de pacientes que foram reinfectados e apresentaram sintomas mais graves? - Sim. A reinfecção pelo SARS CoV-2 pode ser assintomática ou sintomática. O que tem sido descrito mais frequentemente são casos sintomáticos, que podem ser até mais graves do que o primeiro episódio. É importante enfatizar que a reinfecção pode ocorrer independente da presença de anticorpos nos exames sorológicos, principalmente após decorridos três meses da primeira infecção. Não sabemos, entretanto, se as novas variantes são capazes de causar reinfecções mais precoces em pessoas com diagnóstico recente de Covid (menos de 3 meses, por exemplo). Portanto, todas as medidas de prevenção contra a doença devem continuar sendo adotadas por todos aqueles que já tiveram a doença.


Qual é o perfil do paciente que se automedica? - Pela minha experiência, o perfil do paciente que se automedica é o paciente de classe média alta, que lê mais, tem mais fácil acesso à internet e faz pesquisas sobre o tema, obtendo todo tipo de informação sobre o tratamento da doença. Esse público, por ser mais instruído, acaba acreditando que realmente tem conhecimento científico sobre o assunto. O problema é que esse “conhecimento” vem sem nenhum tipo de filtro, geralmente oriundo de fontes não oficiais e não confiáveis, ocasionando interpretações errôneas e criando “verdades” incertas e até falsas.

O que avançou em termos de pesquisa em relação à Covid nesse ano de pandemia? - Acho que, em termos de conhecimento científico sobre a Covid, avançamos em tudo nesse primeiro ano de pandemia. Todos os tópicos sobre a doença e seu agente etiológico foram incrivelmente explorados e destrinchados com uma velocidade impressionante. Partimos do zero em relação a tudo - ao novo vírus e suas características; à doença: fisiopatogenia, resposta imunológica, tratamento e prevenção – e chegamos, um ano depois, com um conhecimento imenso e ainda muito a ser descoberto. Atualmente, a medicina tem muito mais a oferecer aos pacientes com Covid do que há um ano, em termos de terapia intensiva. Já temos vacinas e conhecemos profundamente o vírus. Só não contávamos com as mutações e o surgimento de novas cepas.

Em março de 2020, quais eram os maiores desafios tendo em vista que a doença ainda era uma novidade? - Na minha opinião, em março de 2020 o principal desafio foi o tratamento da Covid. Não sabíamos como tratar a doença, especialmente as formas graves, e víamos desesperadamente os pacientes irem a óbito sem termos muito a oferecer. Diversas opções terapêuticas foram tentadas e fracassaram. Várias estratégias de terapia intensiva foram tentadas e também falharam. Tivemos que recuar com certas medicações que inicialmente funcionariam, mas que posteriormente mostraram-se ineficazes.


Com o tempo, a própria doença e os pacientes foram nos ensinando a lidar com o vírus. A ciência foi avançando na descoberta de novas e “velhas” opções de tratamento e alguns meses depois de março tínhamos finalmente alguns protocolos terapêuticos bem estabelecidos, baseados em estudos importantes e decisivos. Foram muitas idas e vindas, muitos erros e acertos, até chegarmos onde estamos hoje, com o conhecimento que adquirimos sobre a doença. E as vacinas, a possibilidade de conter a doença através da vacina. Certamente, conseguimos poupar muitas vidas desde então, mas certamente ainda temos muito o que errar e aprender com a Covid-19.