Médica e sobrevivente

Atualizado: Mai 16

Carolina, 29 anos, trabalha em UTIs de três hospitais de Niterói e São Gonçalo


Por Silvia Fonseca


Carolina Teixeira de Lima Brandão é uma jovem médica que enfrenta diariamente o vírus da Covid-19. Duplamente: aos 29 anos, intensivista de UTIS, trabalha em três hospitais de Niterói e São Gonçalo. Plantão após plantão, atendendo, entre outros, pacientes graves com Covid-19. Foi contaminada, teve sintomas, passou maus dias e venceu o coronavírus.


Além dos pacientes que atende nas UTIs, a médica vive outra dura realidade: todas as pessoas que conhece que tiveram Covid são profissionais de saúde. Ela trabalha em dois hospitais particulares (Hospital Santa Martha e Clínica de São Gonçalo) e em um público de Niterói, o Orêncio de Freitas). Em todos, nas UTIs.


- Alguns dos profissionais de saúde que conheço e tiveram Covid precisaram de internação, inclusive o pai do meu noivo, que é médico, e teve de ficar em CTI, com uso de oxigênio, sem intubação - diz.


Sobre seu próprio processo de recuperação, Carolina conta que os sintomas começaram com forte dor de cabeça e, já no segundo dia, perda de paladar e olfato. Ela ficou isolada em casa, sem precisar ser internada, mas foram longos 14 dias de isolamento e solidão até se sentir melhor e poder ter contato com outras pessoas.


- Acho que por ter conhecimentos médicos e acompanhar diariamente muitos casos graves nas UTIs, o pior foi o medo de não saber como a Covid iria evoluir comigo. Tive sintomas leves, piores nos dois primeiros dias, com forte dor de cabeça, e depois mais brandos até o décimo-primeiro dia. Fiquei isolada no meu quarto e tive ajuda da família para receber comida e água, sempre com máscaras. Objetos de cozinha, roupas de cama e banho, tudo separado. Outra coisa ruim é ficar isolado. Mesmo sendo em casa, onde temos mais liberdade do que em hospital, especialmente numa UTI, o contato com outras pessoas é mínimo e distante, quase nenhum. E com o passar dos dias foi ficando mais difícil...


Carolina conta que o paciente que a deixou mais tocada, entre tantas tragédias pessoais e familiares que tem acompanhado, foi um profissional de saúde internado no CTI de um dos hospitais em que ela trabalha. Ele ficou em estado muito grave, intubado, em diálise, e ainda está se recuperando.


- Porque ele dizia que sempre cuidou das pessoas e que, desta vez, ele é que precisava de cuidados. Acho que, por ser ele um profissional de saúde, fica mais fácil se colocar no lugar do outro e perceber seu sofrimento. Saber que podia ser eu ou um colega próximo... - diz ela, contando que a preocupação dele com a situação, ali num leito de UTI sendo cuidado em vez de estar cuidando dos outros pacientes, era muito tocante.


Carolina diz o isolamento total, para quem está internado em UTIs, também aflige médicos, pacientes e familiares.

- A rotina na terapia intensiva está mais desgastante. Além de mais trabalho por se tratarem de pacientes graves e de uma doença pouco conhecida, sem um tratamento específico, temos que lidar com o medo de nos contaminarmos e com o lado emocional. Isso está muito forte, o lado emocional, e não estávamos tão acostumados. Os pacientes ficam isolados, sem visita de familiares e com medo dessa situação desconhecida.


Sem contar o desafio diário de lidar com uma doença “sobre a qual não temos um protocolo certo de tratamento, cada dia vemos novos artigos com sugestões de tratamento ou mostrando que alguns inicialmente recomendados não são o melhor caminho...”


Além disso, ainda há o fato, em todo o mundo, de não ser possível prever como cada paciente vai evoluir.


- Tenho visto pessoas jovens, saudáveis, sem comorbidades, apresentando coronavírus grave, gravíssimo, com necessidade de intubação e hemodiálise. E também vejo idosos com poucos e controláveis sintomas - diz, destacando que são muitas as diferenças de diagnósticos, tratamentos, protocolos e prognósticos em relação a outras doenças, mesmo as igualmente graves.


Já recuperada, ela voltou a trabalhar na semana passada, antes do começo do lockdown em Niterói, e ficou impressionada com o número de pessoas que viu nas ruas, no caminho entre sua casa, em Pendotiba, e os hospitais.


- Isso me preocupa muito e fico até um pouco incomodada. Entendo que as pessoas precisam resolver coisas na rua, em mercados ou farmácias, mas vejo muitas pessoas praticando atividade física na praia, e não acho seguro neste momento. Os hospitais, inclusive particulares, estão lotados, com poucos leitos. Cada dia há mais casos e internações... Não faz sentido eu viver essa realidade nos hospitais e ver a população tranquila, nas ruas e praias, como se estivesse tudo sob controle.


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