Médicos de UTI de Niterói relembram primeiros casos graves de Covid-19

Receio de contaminação da equipe multidisciplinar, desconhecimento da evolução e do tratamento da doença foram alguns dos desafios


Por Livia Figueiredo

Clovis Faria, um dos coordenadores da UTI do Hospital Icaraí / Foto: Divulgação HI


Angústia, dedicação e exaustão. Difícil resumir em uma palavra o que profissionais da linha de frente enfrentam diariamente em suas rotinas. O novo pico da pandemia da Covid-19 e o aumento do número de contaminados e de óbitos reforçam a gravidade da situação. Em um ano, as mortes causadas por Covid ultrapassaram o total de óbitos provocados pela Aids em 23 anos. Atualmente o país passa pelo maior colapso sanitário e hospitalar da história. Os números dizem por si. Quebrando recordes a cada dia, somando quase 300.000 óbitos, a Covid-19 é considerada uma doença aguda, uma vez que provoca os primeiros sintomas pouco depois da exposição ao vírus. Assim, inevitavelmente, provoca um aumento do número de pessoas contaminadas, que colabora para a sobrecarrega do sistema de saúde, já que muitos dos contaminados registram sintomas ao mesmo tempo, apenas alguns dias após a infecção.


O colapso da rede hospitalar do Brasil tem refletido em plantões estendidos, longas horas nas UTIs e uma superlotação de leitos. Nesta sexta, 19 de março, em que foi diagnosticado o primeiro óbito por Covid na cidade, o A Seguir: Niterói conversou com três profissionais de saúde que atuam desde o início da pandemia na linha de frente do Hospital Icaraí. Eles falam sobre como foi tratar dos primeiros casos graves de pacientes com Covid, o que avançou em termos de pesquisa sobre a doença e o que carregam de experiência de um ano de pandemia.


Clovis Faria é um dos coordenadores da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) Adulta do Hospital Icaraí. Ele atendeu um dos primeiros pacientes de Niterói em estado grave de Covid-19, em março do ano passado. Eduardo Mendonça, 49 anos, que ficou 13 dias na UTI, sendo 7 em coma induzido. Após fazer a tomografia, Mendonça relatou que seu pulmão já estava tomado e, por conta disso, foi necessário entrar com uma série de remédios, tanto para a influenza, quanto para a Covid. Mendonça foi o primeiro paciente recuperado da Covid-19 na cidade. O médico destaca que, desde o início da pandemia, a orientação é de que o tratamento seja realizado através de ventilação mecânica, anticoagulantes e corticoides.


Faria conta que a ficha caiu quando a equipe responsável identificou a real gravidade no primeiro caso de internação na UTI. Nesse caso, o paciente apresentava hipoxemia, que significa queda de saturação de oxigênio, com grande acometimento pulmonar evidenciado pela tomografia de tórax. Ele diz que é muito gratificante ver a recuperação de um paciente jovem com uma doença desconhecida naquele momento, quando ainda permeavam muitas dúvidas sobre seu comportamento.


- Ver um resultado positivo motivou toda equipe envolvida gerando confiança para enfrentar o que ainda estaria por vir. Os principais desafios foram receio de contaminação da equipe multidisciplinar, o desconhecimento da evolução e o tratamento da doença – afirmou o médico.


Trabalho multidisciplinar


Clovis reforçou a importância de um trabalho multidisciplinar realizado por médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, fisioterapeutas, técnicos de laboratório e farmacêuticos em terapia intensiva que, juntos, revelam o quão é importante é o acolhimento familiar.


A médica Roberta Pimenta, também do Hospital Icaraí, afirma que dos pacientes que passaram pelo serviço hospitalar, a grande maioria já estava em estado grave e algo em torno de 40 a 50% necessitaram de ventilação mecânica. Esses pacientes foram tratados com suporte ventilatório (cateter nasal, máscara reservatório, cateter de alto fluxo, ventilação não invasiva e ventilação mecânica), terapia farmacológica com corticoides, anticoagulantes e antibióticos, quando em vigência de infecção bacteriana secundária, plasma convalescente em fase precoce e inibidores de interleucina 6 em caso de hiperinflamação. A médica conta que ela e seus colegas notaram recentemente um aumento de internação de pacientes mais jovens, o que não acontecia com muita frequência anteriormente.

Foto: Reprodução da internet


Cresce o número de internações de jovens


- Ao longo de um ano de pandemia conseguimos ter um melhor entendimento das fases da doença, preditores de evoluções desfavoráveis e momento adequado para determinadas terapias. Tivemos a percepção no último mês de aumento de internação de pacientes mais jovens com formas graves. No entanto, não sabemos e nem temos evidências científicas de que a causa seja a nova variante do coronavírus – afirmou Daniel de Almeida, 40 anos, médico da Coordenação da UTI do Hospital Icaraí.


*Os médicos coordenadores citados nessa reportagem fazem parte do corpo clínico desde a fundação do hospital e assumiram o cargo de chefia das UTIs adulta no Hospital Icaraí em outubro de 2018.