MAC apresenta exposição virtual sobre questões sociais e políticas de Cuba

Mostra apresenta um olhar para o povo cubano e para as transformações sociais que mobilizaram o país durante as últimas cinco décadas


Por Livia Figueiredo

Da série "Projeto Havana". Praça Velha. Havana, 1991 / Foto: Divulgação / José Figueroa


Sucesso em São Paulo e na capital federal, a exposição "Um Autorretrato Cubano", de José Alberto Figueroa, chega a Niterói em formato inédito para temporada on-line e gratuita. A exposição é a primeira do museu no formato virtual. A mostra, que será exibida até 2 de maio, traz o olhar sensível do fotógrafo cubano, considerado um dos precursores da fotografia conceitual e também conhecido pelos seus registros que ilustram questões sociais e políticas de Cuba. O projeto foi contemplado pela Lei Aldir Blanc na chamada "Retomada Cultural" e ainda contará com uma série de lives relacionadas à exposição. Para conhecer a exposição, basta clicar aqui.


A mostra com 69 fotografias, que vão desde a década de 60 até os dias atuais, procura dar visibilidade aos 115 anos de relações diplomáticas entre Brasil e Cuba, restabelecidas em 1906. Segundo a curadora da exposição, Cristina Vives, Figueroa sempre esteve intimamente ligado à história da fotografia brasileira. Do ponto de vista histórico e documental, o trabalho do artista tem muitos pontos de contato com outros fotógrafos brasileiros contemporâneos, como Walter Firmo, Nair Benedito, Juca Martins, entre outros.


Da série: Martí. Avenida Carlos III. Havana, 1988 / Foto: Divulgação / José Figueroa


Mostra é dividida em núcleos temáticos


Dividida em núcleos temáticos e em organizada do ponto de vista cronológico dos acontecimentos, a mostra tem como objetivo instigar questionamentos e revelar o trabalho do fotógrafo desde os tempos da fotografia analógica até imagens feitas com o celular. Os registros capturam os diversos momentos históricos de Cuba, que vão desde os primórdios da Revolução Cubana, quando pôde acompanhar mudanças sociais significativas e controversas, até os tempos atuais, onde muitos cubanos estão divididos entre a saudade do passado, as frustrações do presente e uma incerteza sobre o futuro.


Figueroa apresenta através de suas fotografias um olhar para o povo cubano e para as transformações sociais que mobilizaram o país durante as últimas cinco décadas. "Cuba vive atualmente uma situação política e econômica complexa. Meu trabalho de tantos anos talvez nos ajude a refletir nossa história e aproximar um público internacional da realidade cubana”, destaca o fotógrafo, que completa 75 anos de idade e carrega mais de 50 anos de carreira.


Para o diretor do MAC Niterói, Victor De Wolf, o momento é propício para o museu se reinventar. "Trazer para o museu um grande fotógrafo internacional, mesmo que de forma virtual, é nossa contribuição com o processo de difusão da arte e da cultura mundial", comentou.


Segundo a curadora da exposição, que por acaso é filha do fotógrafo, a mostra "Um Autorretrato Cubano" pode ser considerada uma breve antologia da obra do fotógrafo e uma crônica dedicada a todos que desejam se debruçar nessa história.


- Esperamos que esta exposição possa trazer alguma luz desta realidade, longe de lugares comuns e evitando a visão espetacularizada da cidade, tão atrativa aos olhos dos visitantes. Agradecemos ao MAC Niterói por receber a mostra e a LP Arte por permitir mostrar a obra de Figueroa no Brasil. Esperamos que, com esta exposição, mais caminhos possam se abrir para a fotografia cubana e que o público brasileiro possa entender um pouco mais a história de um país através da visão sem preconceito de um dos testemunhos mais sinceros - afirmou.

Da série: Na Figueroa. Rua Figueroa. Havana, 2001 - 2002 / Foto: Divulgação / José Figueroa


Sobre o artista


José A. Figueroa nasceu em Havana, em 1946. Ele é considerado um dos fotógrafos que permitiu a transição da fotografia documental para a fotografia simbólica e conceitual em Cuba e na América Latina. O que o diferencia dos outros fotógrafos cubanos, antecessores e/ou contemporâneos, é o fato de que Figueroa com sua câmera explorou, sem interrupção, todas as etapas históricas do seu país desde os primeiros anos da vitória da Revolução - quando era um jovem fotógrafo, vindo da classe média de Havana, que enfrentava as dramáticas mudanças sociais, até os tempos atuais.


A experiência acumulada de José Alberto Figueroa nos Studios Korda, inaugurado no final da década de 50 em Havana especializado em fotografia de moda e publicitária, onde trabalhou como assistente, no início da sua vida profissional, lhe permitiu enfrentar o fenômeno da Revolução Cubana com frescor e liberdade.


Entre os anos de 1968 e 1976, continuou como repórter fotográfico na prestigiada revista cubana Cuba Internacional. Durante estes anos viajou pelo país e trabalhou com escritores novos e consagrados, designers gráficos e jornalistas. Mais tarde, sua maturidade profissional o levou a trabalhar com cinema e com a imprensa, o que permitiu cobrir diversos aspectos da realidade nacional e internacional. Suas escolhas pessoais lhe fizeram fincar o pé em Havana e não emigrar, ao contrário do que fizeram muitos fotógrafos de sua geração, motivo pelo qual sua visão da realidade cubana não é considerada fragmentada, mas sim, progressiva e crítica.


Foi considerado um artista de transição entre o fotojornalismo documental e a fotografia como recurso da expressão artística em Cuba e na América Latina. Suas obras a partir dos anos noventa até o momento atual refletem a vida dos habitantes de seu país através de um exercício permanente de introspecção.