Médico Mario Roberto Dal Poz faz alerta: 'A previsão é ver o que vimos em Manaus'

Atualizado: Mar 24

Especialista da UERJ comenta decretos de Niterói e Rio, e defende ação integrada para evitar colapso na saúde


Por Amanda Ares

O especialista Mario Dal Poz, da Uerj. Foto reprodução internet


O professor e pesquisador do Instituto de Medicina da UERJ Mario Dal Poz foi membro do gabinete de crise na saúde do Estado do Rio no ano passado, e viu de perto os efeitos da primeira onda no sistema de saúde. O especialista vê com preocupação a resistência por parte de governantes em planejar uma ação conjunta, que deveria ser imediata para evitar o pior.


Leia também: Atenção Máxima: piora nos indicadores leva Niterói para estágio de risco mais grave


O A Seguir: Niterói conversou com o professor Dal Poz, que prevê para o Rio de Janeiro o mesmo cenário que se viu no Amazonas, no começo do ano, quando faltou até oxigênio para os pacientes de covid-19, se medidas duras não forem tomadas.


Niterói e Rio publicaram decretos com regras mais rígidas para incentivar o isolamento social. Essas medidas chegaram em boa hora?


Qualquer hora é hora, porque estão buscando impedir a continuidade da superlotação do sistema hospitalar. Reduzir a circulação reduz o número de casos, de casos graves e mortes. Se poderia ter tomado outras medidas articuladas em um momento anterior, e não chegaríamos a essa situação atual, mas exigiria outras medidas associadas, que as prefeituras não conseguem tomar sozinhas. Elas têm mais dificuldade, pois quem tem a chave do cofre é o governo federal.


Qual o cenário para os próximos 30 dias, se nada for feito agora?


Trinta, não: para daqui a uma semana. A previsão é ver o que vimos em Manaus: pessoas morrendo na rua, corredores de hospitais cheios de pacientes sem conseguir respirar… O problema não é só o fato, que já é grave, de as pessoas serem acometidas pela doença e falecerem, mas também pela falta condições de socorro.


E como os profissionais da saúde têm lidado com essa pressão?


Para quem trabalha em saúde pública, é um cenário muito triste, horroroso, uma tragédia. Tem gente pedindo demissão, tem gente tendo break down, síndrome de burnout, cansaço, porque é insuportável! Trabalhei em CTI, e digo que é muito ruim perder um paciente. Agora, você imagina você perder oito por dia? É um impacto terrível!


Por que as pessoas têm dificuldade em aceitar o isolamento social?


Desde dezembro, as pessoas não estão recebendo auxílio, por exemplo, então o pequeno comércio, os bares, artistas, todos que vivem da renda diária têm menos capacidade de se manterem em casa e fazer distanciamento, e estão mais sujeitos a serem contaminados.


Leia também: Ritmo de vacinação está devagar, uma bagunça, diz especialista


Que tipo de medida articulada poderia contribuir para evitar a disseminação do vírus?


O ideal seria uma ação coordenada, com base técnica, que transmitisse uma direção única para a população, para que as pessoas tivessem mais segurança. A vacinação está uma confusão, e é incompreensível para a média das pessoas.


É muito ruim que o governo estadual tenha declarado essa briga às prefeituras, porque depois do governo federal, o que se espera do governo do Estado é que ele coordene o processo, e não gere conflito.