MC Carol: 'eu faço música sobre coisas que dão errado, sobre a vida, coisas comuns'

Cantora fala sobre música, carreira e o impacto da pandemia na vida das pessoas: 'saber que tem gente passando fome me deixa triste'


Por Amanda Ares

Foto: Gabriella Maria/Afroafeto


Quase 10 anos se passaram desde que os primeiros sucessos da MC Carol de Niterói a fizeram estourar na internet e nos bailes. Mas diferente do que muitos imaginam, a cantora que lançou os hits "Vou largar de barriga" e "Minha vó tá maluca" não é muito diferente da que bombou em 2021 com "Levanta Mina".


Em entrevista para o A Seguir: Niterói, a artista de 27 anos fala sobre seu processo criativo, sua evolução ao longo dos anos, e como a pandemia impactou também a carreira e o emocional da cantora.


Carol, você já tem 10 anos de carreira. Qual a diferença da Carol de 10 anos atrás, quando estouraram seus primeiros sucessos, para a Carol de hoje? Como você avalia sua evolução como artista?


Pergunta difícil… ontem mesmo, eu tava vendo um show meu - até postei no twitter - de nove anos atrás, e assim, eu percebo que a postura no palco não mudou em nada. Parece um show atual. A força da voz, é igual. Claro que algumas coisas mudam… mas eu acho que eu sou a mesma.


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Eu já tive duas equipes. A primeira, ficava em cima de mim pra eu mudar minhas letras, pra cantar por exemplo, música de time, música que levantaria o público. Essas músicas que as pessoas conhecem hoje, “minha avó ta maluca” etc ninguém conhecia. E ficavam cobrando, dizendo que “po, ninguém conhece essa letra”, e eu insistia, “mas um dia vão conhecer”.


A equipe de agora me apoia, mas eu também tenho que ficar batendo em algumas teclas. Vamos fazer uma música comercial? Vamos. Mas também vamos fazer músicas que eu gosto. Rola um diálogo. Eu ouço, mas luto pra não perder minha essência.


Outra coisa é que eu acredito nas pessoas. Eu não vou perder isso que eu tenho de acreditar nas pessoas… sou bem libriana, diplomática… e por eu ser muito calma, muito tranquila, as pessoas às vezes tentam se aproveitar, mas eu não desisto de acreditar nas pessoas. Porque, se eu perder isso, eu vou ser pior que essas pessoas que tentam me prejudicar.


E musicalmente? Você vê diferenças entre seu estilo, suas letras, do começo da carreira pra cá?


Algumas pessoas perguntam em entrevistas por que eu mudei, desde 2016. Por quê minhas letras ficaram mais politizadas. Mas eu não acho isso. Uma das minhas primeiras músicas, “Vou largar de barriga” (2011), é sobre um cara que fala que vai me largar de barriga, e eu respondo a ele. Eu to falando sobre o meu corpo, eu to falando sobre o meu prazer…


Eu acho que eu mudei o instrumental de algumas músicas. Se eu fizesse “100% feminista”(2016) no ritmo de funk, acho que não ia dar. Eu fiz no ritmo trap. Porque eu conheci o trap.


Eu gosto muito de falar do cotidiano. A música “Não Foi Cabral”(2016) foi baseada na minha época de escola, em que eu batia muito de frente com a minha professora. Então, eu não acho que eu tenha mudado, eu acho que eu sou a mesma teimosa, que eu bato de frente pra caramba… talvez daqui a 10 anos eu mude, mas a gente não sabe.


Carol, como a pandemia impactou sua carreira? Como ficou sua agenda, seus compromissos?


Poderia ter sido pior. Consegui fazer alguns trabalhos, sem ser shows, mas eu gosto muito de fazer show. Mas financeiramente ficou ok, fiz outros trabalhos: fiz música pra reality, fiz clip, passei num edital do Youtube, em que eles selecionaram alguns artistas brasileiros pra investir, acho que eu e mais três artistas brasileiros.


Mas saber que tem muita gente passando fome, e saber que tem muito artista sem fazer show, sem publicidade, nem nada, me deixou bem triste, bem abalada, e eu cheguei até a procurar uma psicóloga. Nunca imaginei procurar uma psicóloga, mas precisei. E ela falou que nessa época tinha muita gente procurando profissional, porque era uma coisa nova, nunca passei por isso, e a gente não sabe quando acaba.


Logo no começo, foi um choque muito grande. Caiu muito show, festa de inauguração… Foi caindo, caindo… Primeiro, ninguém estava dando nada. Quando começou a cair um monte de trabalho, a fechar aeroporto, aí é que a gente viu que a coisa ficou séria.


Você sempre fala com muito carinho do Preventório. Como ficou a situação dos moradores, da sua família?


Ajudei pessoas da minha família. Mas a minha empresária trabalha em uma ONG e vai atrás de artistas pra postar e repostar vídeos, e empresas grandes, como mercado, pra fazerem doações. Eu comentei que tinha uma galera lá no morro precisando de cesta básica, coloquei ela em contato com minha prima, e ela enviou. O projeto chama B.A.S.E. (Insta @sejamosbase).


Após um ano de pandemia, como você está hoje? Está com algum projeto, está compondo, fazendo outra coisa?


A gente está tentando… A gente lançou em janeiro o “Levanta Mina”, com o clipe, e agora a gente pretende lançar em abril ou maio um álbum, com 10 faixas. Vai se chamar “Borogodó”. Borogodó é algo que as pessoas gostam sem ter uma explicação. É um álbum pra você dançar, pra você rir de história engraçadas, ou coisas ruins que me aconteceram e que eu transformo numa história engraçada.


O que o público pode esperar do novo álbum? Pode dar um spoiler?


Por exemplo, tem uma música chamada Conto do Vigário, sobre uma mulher que se apaixona por um cara, leva o cara pra casa, e quando acorda, sumiram coisas dentro de casa. Isso não aconteceu comigo, mas isso é uma coisa que acontece muito, que eu vejo no jornal, principalmente com mulheres mais velhas, e eu queria falar sobre isso. Só que se eu falasse isso de uma forma séria, ninguém ia querer ouvir. Então, eu misturo o caos com o cômico.


Estava falando até isso aqui em casa, outro dia, com amigos... eu faço música sobre coisas que dão errado, sobre a vida, coisas comuns… aconteceu alguma coisa ruim, eu vou lá e tento tirar algum proveito disso.


Alguém da sua família já se vacinou contra a Covid?


Minha bisavó. Ela vai fazer acho que 85 anos. Acho que falta a outra [dose].


E você, está ansiosa pra tomar a sua?


Eu quero que os idosos sejam todos vacinados primeiro, pra depois chegar a gente. As pessoas tiveram que se reinventar, muitas pessoas foram demitidas, muitas coisas fechadas, Niterói, mesmo, tá tudo fechado. Tô ansiosa pra isso tudo acabar, e se o caminho é se vacinar, vamos vacinar.


Assista ao último clipe da MC Carol de Niterói, feito em parceria com DJ Thai.