Milagre fluminense? Médicos explicam possíveis fatores para a queda de óbitos no estado do Rio

Apesar da redução, profissionais alertam que ainda é necessário cautela e que a imunidade plena da população está longe de acontecer


Por Gabriel Gontijo


No início da noite desta terça-feira (9), o Ministério da Saúde confirmou um triste recorde. Os óbitos por Covid em um único dia foram de 1.972 vítimas, o maior desde o início da pandemia. A situação está perto do colapso em 21 estados do Brasil. Mas surpreendentemente, o número de mortes provocadas pela doença tem apresentado queda no estado do Rio. E essa situação só se encontra em outro local do país, no Amazonas.


Segundo o consórcio de imprensa, que recebe as informações das secretarias estaduais de saúde, o Rio de Janeiro teve um queda de 26% nos óbitos nesta terça (9) na média móvel. Já na segunda (8), a redução foi de 19%. Atualmente são 33.729 mortes e 594.964 casos ao todo, mas desde o fim de fevereiro que ambos os índices apresentam queda. O que explica esse suposto "milagre"?


O Subsecretário de Vigilância em Saúde da Secretaria estadual de Saúde, Alexandre Chieppe, é sincero em reconhecer que não é possível afirmar exatamente o que está contribuindo no cenário fluminense, mas um dos motivos pode ser o fato de que os outros estados estão enfrentando uma segunda onda que já teria acontecido no Rio entre novembro e janeiro. Outra coisa que ele considera é que a variante que chegou a provocar um aumento nesse período não é a mesma que foi descoberta no Amazonas.


- A gente não consegue afirmar exatamente qual é a razão para essa queda, mas é bem possível que esse segunda onda que atingiu o Rio de Janeiro esteja atuando em outros estados apenas agora. E a mesma coisa aconteceu no Amazonas, que apresenta uma redução atual depois de ter um aumento significativo dos óbitos pela doença no final do ano passado e início de 2021. Mas é importante dizer que, apesar da queda de mortes, o número de transmissão ainda está em um patamar altíssimo - alerta Chieppe.


Já o chefe de internação do Complexo Hospitalar de Niterói, Dr. Vítor Dominato, tem uma outra hipótese, a de que o aumento de casos é "lento" no Rio se comparado a outros estados. Ele também afirma que houve uma alta de infectados entre novembro a janeiro, e que desde então os números foram caindo até a primeira semana de fevereiro. Mas a partir da segunda semana desse mesmo mês, as internações pela doença voltaram a subir.


- Nas últimas semanas estamos notando um aumento de casos de internações e mortes provocadas pela doença. A questão é que esse crescimento é lento em relação a outros estados, mas não há uma redução. Pelo contrário, a gente vê uma necessidade maior no número de atendimento nas emergências e nas internações em enfermarias e em UTIs. É um aumento pequeno, mas está subindo - explica Dominato.


Impacto da variante do Amazonas ainda é desconhecido


Embora ainda haja desconhecimento sobre o potencial que a cepa descoberta no Amazonas possa acarretar no país, ambos os médicos concordam que a variante já circula não só no Rio como em todo o Brasil. E se para Chieppe ainda não é possível fazer uma análise mais precisa dela por ser algo novo, para Dominato é necessário restringir ainda mais a circulação de pessoas na rua justamente pelo desconhecimento dessa nova cepa.


- A variante de Manaus já está circulando em todo o Brasil, inclusive aqui no Rio de Janeiro. A gente ainda não sabe qual o impacto dessa nva cepa. Por isso que é importante monitorar os casos para analisar qualquer mudança de tendência. No momento, a única coisa que dá para afirmar é que essa cepa já circula aqui pelo estado - conta o subsecretário.


- Essa nova variante, descoberta no Amazonas, já circula em todos os estados, incluindo o Rio. Como a vacinação é muito baixa e insuficiente para imunizar a maioria da população, é bem provável que uma nova onda afete o estado. É por isso que acontece novas medidas restritivas, ainda que sejam realizadas de forma devagar. Mas é possível que a gente enfrente uma terceira onda - revela o chefe de internação do CHN.


Imunidade plena segue distante


E um outro consenso que os dois profissionais de saúde têm é que as estatísticas atuais do Rio, embora melhores do que outros estados, não significam que a situação fluminense seja o início de um processo para a imunidade plena, também chamada de "rebanho" por alguns cientistas.


Para o integrante da Secretaria Estadual de Saúde, a Covid "é uma doença ainda muito nova". Por isso, não se sabe "qual é efetivamente o percentual de pessoas que 'precisam' estar infectadas para chegar a uma imunidade coletiva". Outra coisa é que não se sabe o quanto as novas cepas descobertas podem afetar esse percentual. Por isso, "não é possível saber se estamos perto ou longe da imunidade de rebanho porque não conhecemos esses números".


Já Dominato é enfático em afirmar que sequer há uma expectativa para essa imunidade ser atingida no Rio. Alegando que "não existe uma segurança para a população", o profissional do CHN explica que isso só vai acontecer com uma vacinação plena, que apresenta um progresso "muito lento" atualmente.