Modelo híbrido veio para ficar nas artes também, diz diretor de teatro da UFF

Robson Leitão fala sobre a trajetória do teatro, seus novos modelos e a importância do Centro de Artes UFF como espaço de democratização da arte

Por Livia Figueiredo

Robson Leitão fala sobre a tradição do Teatro da UFF e o papel da arte nos dias atuais / Foto: Divulgação


"Você não pode proibir a arte de ser o que ela é: um ponto de discussão, de fazer as pessoas refletirem. A arte precisa instigar”, afirma o diretor de teatro da UFF, Robson Leitão. Robson é todo UFF. Graduado em Publicidade e Propaganda pela Universidade, fez Mestrado em Literatura e Doutorado em Estudos Literários. A relação com a UFF é de longa data, assim como sua conexão com as diversas vertentes da arte, que acabaram se refletindo na sua trajetória profissional. Seu vínculo com a Universidade começou cedo, na função de secretário da direção do Hospital Universitário Antônio Pedro. Depois, transitou por quase todas as áreas culturais da UFF. Ficou lá dois anos para, em seguida, se tornar programador do Cine Arte UFF.


De lá, migrou para o departamento de Assessoria de Imprensa do Centro de Artes da Universidade, onde permaneceu por treze anos, intermediando com a imprensa o que acontecia no teatro, no cinema e na galeria de artes da UFF. Passou também pelo setor do Marketing, onde ficou por pouco tempo, e também pela divisão de artes visuais, onde chefiou o departamento de Fotografia. Na sequência, ficou por quase dez anos chefiando a divisão de música, até ser convidado para assumir a chefia do Teatro da UFF. Especializado em História da Ópera, outro campo da arte que é apaixonado, Robson já ministrou diversos cursos sobre o assunto.


Em entrevista ao A Seguir: Niterói, o diretor de teatro da UFF, Robson Leitão, fala sobre a história do teatro, a política da Universidade em abarcar diversos estilos, abrindo espaço para o debate com o público, e seu projeto para o Youtube de vídeos que conectam a música e a literatura.


A Seguir: Niterói: Como começou sua relação com o teatro? Há quanto tempo você administra o teatro da UFF?


Robson Leitão: Eu fui convidado para assumir a chefia da divisão de teatro do Centro de Artes UFF em 2015. Faço toda a programação artística do espaço e cuido também da parte administrativa. A minha ligação com o teatro vem de muito tempo. Em abril deste ano vou completar 38 anos trabalhando na UFF, sendo 36 no Centro de Artes UFF.


O que você carrega dessa bagagem de tantas vertentes da área cultural?


Um gigantesco aprendizado cultural. É uma vivência que ninguém pode me tirar. Foram coisas que eu não aprendi na faculdade. Na prática eu fui absorvendo todos esses fazeres culturais, o que me dá uma gama de visualização e abrangência monstruosa. Sou formado em Publicidade, mas sempre transitei em outras áreas como hobbie. Trabalho com música erudita há mais de 25 anos. Isso fora da UFF.


O teatro da UFF é uma referência na cidade. A que você atribui essa tradição do espaço?


Primeiro, pelos grandes nomes que passaram por ali, mas isso se deve muito ao lugar que o teatro da UFF ocupa como referência desde a sua criação, em 1982. Só que antes da estrutura do Teatro da UFF ter sido montada, ali tinha sido o teatro Grill Room do Hotel Cassino Icaraí, onde se apresentavam grandes estrelas nacionais e internacionais, como Carmen Miranda, The Platters. Todas essas atrações que se apresentavam no Cassino da Urca, no Rio de Janeiro, se apresentavam também no Grill Room. Então, já havia uma tradição anterior à abertura do Teatro da UFF na estrutura em que ele comporta hoje, depois da sua segunda reforma. Isso já era uma condição, porque as pessoas já tinham consciência que aquele espaço existia em Niterói.


O teatro já trouxe no seu corpo de administradores um grande nome dos espetáculos de Niterói, o Hipólito Maria Geraldes. Ele lidava com todo mundo do universo das artes. Muitos artistas começaram com a ajuda de Hipólito, que trazia para a UFF os maiores nomes do meio artístico da época.


Além disso, a UFF tem a diretriz de variedade. A gente não se fecha em nenhum ponto específico. Claro que tem algumas coisas que a gente evita a colocar na programação. Mas ela é toda pensada e voltada para fazer o público pensar. Não exibimos por exibir. Temos que provocar uma reflexão no público. Essa é a nossa principal diretriz. Isso dá abertura para teatros e shows feitos em periferias, orquestra de cunho social. Enquanto os grandes teatros não abrem suas portas para esse tipo de espetáculo, por considerá-los não apropriados, a gente quebrou o “sagrado” e abrimos espaço. O palco é de todos e não fica restrito a uma elite somente. A gente luta pela arte e eu ouço isso o tempo inteiro de artistas que convivo.


Além de peças, o teatro da UFF também é um espaço para shows. Como você avalia especificamente o cenário musical independente de Niterói e o papel da UFF em dar espaço para esse nicho?


Isso se enquadra nessa abertura geral. A gente apresenta desde Paulinho Moska, Ney Matogrosso até os nomes que não são conhecidos, mas alguém tem que abrir as portas. Se os artistas que não são conhecidos não tiverem a chance de pisar em um grande palco, como é que eles vão ser conhecidos? Vão continuar dentro de um nicho determinado e sem abrangência porque as grandes rádios não tocam artistas independentes há muito tempo. Os grandes nomes vão sempre ter o maior público, mas aos poucos vamos dando chance. Com a insistência de mostrá-los vai que outros públicos comecem a olhar e vão ficando e pedindo mais. Não fazemos esquema escada, em que artistas independentes abrem show para artistas maiores. Isso os grandes festivais já fazem. Nós oferecemos o palco. E isso é uma política não só do Teatro da UFF, mas de todo o Centro de Artes, como a galeria, que dá oportunidade a vários artistas, o cinema, que dá espaço para todos os tipos de mostras e diversos estilos de filmes.


Quais foram as principais peças que estiveram em cartaz no Teatro?


São tantas. A primeira peça que exibi já assumindo a direção do teatro foi Hannah Arendt, dirigido por Isaac Bernadt, com a dramartugia da Marcia Zanelatto. Lembro que fiquei muito comovido. Depois vieram muitos outros como, por exemplo, Dona Zaninha, contadora de histórias, com a Suzana Nascimento. Teve também o “Brimas”, dirigido por Luiz Antonio Rocha, que me arrancou lágrimas. O espetáculo retrata a vivencia de mulheres que vieram do Oriente viver aqui no Brasil e, apesar das brigas dos países lá fora, acabaram se unindo aqui em prol da vivencia e da sobrevivência. Teve um espetáculo que cheguei a ver quatro vezes, que se chama “O menino que brincava de ser” sobre questões de gênero para o público infanto-juvenil. É belíssimo.


Teve também o último espetáculo que fizemos de forma presencial antes da pandemia, o “Foi-se: histórias que a morte conta”, são vários contos que abordam a temática da morte encenada para adolescentes. Apesar de administrar o teatro, eu gosto de sentar na platéia como espectador para observar a reação do público, sentir junto com ele.


Nesse tempo de pandemia vocês chegaram a exibir peça no formato online, né?


Sim, fizemos duas! Foi um grande desafio. Primeiro, por encontrar peças que aceitassem se adequar a esse novo formato. Não por acaso, a peça que a gente escolheu, “Metrópole Online”, de Silvero Pereira e Gyl Giffony, já era uma adaptação da peça “Metrópole” para a plataforma do Instagram. Entramos num acordo com os diretores da peça para exibir com a gente.


O outro espetáculo foi “12 pessoas com raiva”, que foi criado para a plataforma Zoom. O texto, originalmente em inglês, foi adaptado para o período de pandemia. Os 12 jurados não podiam estar juntos fisicamente em uma tribuna para discutir crimes. Então, eles discutiam de forma virtual. Já tinha essa adaptação, então nós só exibimos a peça.


Estamos com planejamento de exibir também a peça “O amor como revolução”, do pastor Henrique Vieira. Será a primeira vez que a peça será exibida no formato virtual. Vamos ter uma série de outros espetáculos também no formato digital, mas ainda estamos montando a programação. Para essas duas peças fizemos a venda de ingresso pelo Sympla. Em março, devemos ter uma peça gratuita.


Acredita que o teatro irá adotar o formato híbrido daqui para frente?


Eu acho que a gente vai seguir com o modelo híbrido ainda por um bom tempo. Acho que isso não se perde mais. A gente sabe que vai demorar ainda até serem produzidas e distribuídas as quantidades necessárias de doses da vacina contra Covid. E, ainda com o retorno ao espaço físico, continuaremos adotando o modelo híbrido. Acho que ele veio para ficar.


Você tem um canal no Youtube em que fala sobre o diálogo da Música e da Literatura. Conte um pouco sobre o projeto “Conexões possíveis”. Como é o processo criativo?


No começo só havia a ideia. Comecei o projeto em abril do ano passado. O primeiro vídeo é bem longo. Eu tinha a ideia, mas não tinha feito um roteiro, apenas posicionei a câmera e saí falando. Foi um grande experimento. Recebi feedback de que o vídeo estava muito longo, então resolvi condensar.


O título “Conexões possíveis” é porque eu costumo conectar ideias o tempo inteiro. Eu nunca fico preso numa ideia. Quando eu vou ver, já estou pensando em outra que pode puxar um gancho. Acho que isso vem da minha temporada como Assessor de Imprensa, porque eu tinha que fazer uma chamada que aguçasse o interesse do jornalista para ele ler aquilo e ver que tinha caldo para uma matéria. Então, eu já tinha que driblar esse monte de papéis que chegavam para os jornalistas em formato de release, como sugestões de matérias, para me sobressair.


Eu gosto de cultura de forma geral. Música, Literatura, Cinema e Teatro são áreas que estão no meu universo. Falar sobre teatro é complicado, não é impossível, mas é difícil, porque é muito visual. Então, eu comecei a criar os roteiros sobre aquilo que eu queria falar. Para cada vídeo eu leio entre 10 a 15 livros, pois eu faço associações de vários livros diferentes e vou construindo a narrativa a partir disso. Tem um roteiro, mas ele só serve como guia de tópicos que eu preciso abordar, fora isso, deixo me levar pela emoção do momento. Eu quero conversar com a pessoa do outro lado da tela, instigar e dialogar. É uma forma de estimular a reflexão e não ficar fechado em uma categoria. As pessoas vem comentar comigo sobre as conexões que elas fizeram, o que elas enxergaram. É uma grande troca.


Em sua opinião, qual o papel da arte nos tempos atuais? A arte ganhou uma nova camada, né? Ela virou uma companhia para todos nós.


No fundo, a arte sempre serviu como alento para todo mundo. Só que, de uns tempos para cá, as pessoas começaram a desprezar o fazer artístico porque se associa que quem faz arte não tem censura, faz o que quer. Mas não é bem assim. Quem trabalha com arte sabe que existe uma censura pré-determinada, que a gente se obriga a romper, para discutir determinados temas. Existem também os artistas que não se comprometem com essa questão e fazem o que estão sentindo vontade.


Mas boa parte dos artistas faz uma arte que pode chocar, mas é pensado, pois o objetivo é atingir uma determinada camada consciente do público para que ele reflita sobre algumas questões. Eu sempre lembro daquela música do Caetano Veloso que foi vaiada em um dos Festivais da Canção, “É proibido proibir”. Você não pode proibir a arte de ser o que ela é: um ponto de discussão, de fazer as pessoas refletirem.


Partindo dessa premissa, não consigo ver a função da arte agora como uma novidade. Talvez para as pessoas que estavam condenando a arte, que esquecem que um texto é um processo gigantesco e que um teatro tem toda uma equipe por trás. Tem trabalho até não poder mais em cima daquilo ali. Nesse momento em que a arte se torna um bálsamo no meio desse caos que a gente vive acredito que as pessoas passam a olhar para ela e para os artistas com outros olhos.

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