Montagem teatral de Dogville faz sessões on line gratuitas e debate

Protagonista, Mel Lisboa conta de sua imersão virtual e sua ligação com Niterói

Por Livia Figueiredo

Mel Lisboa, na peça Dogville / Foto: Reprodução internet


Enquanto algumas salas de cinema estão retomando as atividades aos poucos, os teatros continuam sem previsão de retorno com presença da plateia por causa da pandemia de Covid. Os palcos vazios e as poltronas abandonadas retratam cenário inimaginável para aqueles que gostam de consumir arte, de maneira, digamos, mais imersiva. Mas, enquanto não é possível, soluções criativas surgiram.


Projetos foram reformulados, alguns tirados da gaveta, se adaptando ao formato online e outros roteirizados, dirigidos e produzidos completamente de forma remota. O que fez com que as relações de trabalho se tornassem ainda mais horizontais, abrindo espaço para a experimentação e implantando novos desafios. De repente, surgiu um cenário em que alguns projetos dão espaço para que o ator aprenda a lidar com a câmera, dê pitaco no roteiro e auxilie na montagem. As funções se acumularam e o ambiente online se tornou um grande lugar de troca entre produtores e elenco.


Esse acesso mais democrático também se reflete em transmissões de peças on line. Enquanto antes somente era possível levar os espetáculos a alguns estados, devido ao custo envolvido, agora, com o suporte da tecnologia, torna-se viável estabelecer um diálogo com pessoas de diversas regiões do país, de forma simultânea. Seguindo essa linha, alguns programas de TV, séries e projetos audiovisuais, de modo geral, têm reformulado seus formatos e muitas ideias estão saindo do papel, como é o caso da adaptação teatral brasileira para o filme Dogville, do cineasta dinamarquês Lars von Trier. O espetáculo, dirigido por Zé Henrique de Paula, trilhou um caminho de sucesso em apresentações no Rio de Janeiro, em São Paulo, Brasília, Belo Horizonte e Curitiba.

Para celebrar essa trajetória e o aniversário de dois anos da estreia, a peça ganhará uma imersão virtual com transmissões gratuitas nos dias 2/11 e 3/11, segunda e terça-feira, às 19h, pelos canais da peça no Youtube e no Facebook .


Essa adaptação para o formato digital mescla leitura, gravações, comentários, além de promover, após a exibição, bate papo ao vivo com todo o elenco, direção e produção. A iniciativa é uma homenagem a todas as temporadas e aos atores que passaram pelo elenco. Segundo o produtor e idealizador do projeto Felipe Heráclito Lima, a ideia de apresentar Dogville no formato online surgiu tanto para movimentar todos os profissionais envolvidos no projeto, quanto para celebrar os dois anos da peça.


Dogville ficou conhecida como um espelho da sociedade, pois mostra as nossas falhas, tema muito abordado no roteiro original de Lars von Trier. A trama se passa na fictícia cidade de Dogville, um pequeno e obscuro vilarejo situado no topo de uma cadeia montanhosa, onde residem poucas famílias formadas por pessoas aparentemente bondosas e acolhedoras, embora vivam em precárias condições de vida. A pacata rotina dos moradores é abalada pela chegada inesperada de Grace, interpretada por Mel Lisboa, que vive uma forasteira misteriosa que procura abrigo para se esconder de um bando de gângsteres. Dogville aborda um jogo perverso, em que bondade e fragilidade são postas em cheque.


- Poder ver como esse espetáculo chega para as pessoas, como que elas são afetadas e como através da arte você pode fazer com que elas reflitam, se questionem e se emocionem. Acho que esse é o objetivo maior - ressalta a atriz e protagonista da peça, Mel Lisboa.


Mel Lisboa estudou na UFF, em Niterói


Em entrevista ao A Seguir: Niterói, a atriz relata não só um pouco da sua experiência com a peça e a sua adaptação ao formato digital, mas também fala sobre os seus projetos pessoais criados no período de quarentena.


A Seguir: Niterói: A peça Dogville está comemorando dois anos de estreia. O que planeja de diferente? Como será essa adaptação ao formato on line?


MEL LISBOA: Essa adaptação é uma comemoração em que vai ser mostrada, gratuitamente, uma montagem com trechos de todas as temporadas que fizemos e, por isso mesmo, há a presença de todos os atores que participaram, porque houve algumas substituições do elenco. Eu, inclusive, fui substituída em Brasília pela Larissa Maciel. Na transmissão da peça, serão intercalados comentários da direção, do elenco, da preparação de elenco, além da exibição de algumas cenas mais íntimas que gravamos remotamente. E, depois da peça, acontecerá o debate, a conversa com as pessoas.


Como será organizado o debate com o elenco? O público poderá interagir por meio de um chat?


- A ideia é promover a interação com o público. Eu vou postar previamente no meu perfil do Instagram uma enquete para que o público já envie as suas perguntas, mas também vai ter a interação pós-peça, para aqueles que desejam participar. Acho que vai ser bem bacana. O público vai ter a oportunidade de assistir e ver o quanto o espetáculo era grandioso no palco: o elenco era composto por 16 atores e contava com projeções ao vivo, além de ter uma noção do que foi a montagem e também ter acesso às conversas, o processo criativo. É uma grande mistura de apresentação com um pouco de documentário, e com alguns extras, como as cenas gravadas remotamente que ficaram bem legais.


Vocês passaram pelo Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, Belo Horizonte e Curitiba e agora a peça tem a possibilidade de chegar a todo o país. Você interpreta isso como uma democratização do acesso à cultura?


- Eu acho que existe esse lugar da democratização, mas diante dessa situação tão trágica que a gente está vivendo, sem precedentes e tão inesperada, eu vejo que o uso da tecnologia que temos à nossa disposição é uma saída, um meio pelo qual a gente pode se expressar e continuar criando, ou mostrando um conteúdo que já foi feito anteriormente, compartilhando de certa forma. Acho que isso veio para ficar porque mostrou que amplia as possibilidades. Evidente que a experiência não é a mesma, de estar ali presencialmente. É completamente diferente você fazer um tour virtual no museu e ir de fato ver a obra de arte na sua frente, assistir a uma peça, um show, um espetáculo de dança e um concerto. Presencialmente é uma experiência mais intensa, mais radical desse ponto de vista. Mas eu acho que as coisas a partir de agora, de certa maneira, serão um pouco mais híbridas, porque nós percebemos que a tecnologia permite que a gente leve para um público maior o conteúdo que criamos. Acho que é algo que ainda estamos em experimentação e tomara que em breve a gente possa voltar a fazer os espetáculos presencialmente e que haja uma interação mais híbrida, de forma que chegue a mais pessoas.


Qual o impacto que a peça teve na sua vida?


- O teatro é uma experiência na qual você fica imersa durante um processo de ensaio fazendo um entendimento profundo daquele texto, de uma movimentação, do espaço e das pessoas com as quais você contracena. E depois tem uma experiência ainda mais profunda, de uma temporada que você estabelece todo um diálogo com o público, em que você percebe de que forma o espetáculo chega para as pessoas. Essa peça, especificamente, me impactou bastante. Primeiro, pela responsabilidade, porque eu mesma sou fã do filme. Eu sabia o peso de fazer uma adaptação brasileira para o teatro e tinha noção do quanto era importante apresentar ao público um produto de qualidade equivalente, que seja tão bom quanto, mas de forma diferente. E o meu trabalho também, por conta da atuação brilhante de Nicole Kidman no filme, tão marcante para mim. Então, eu sabia do tamanho do projeto e o que ele representava. Eu nunca tinha trabalhado com o diretor da peça, Zé Henrique de Paula, então foi uma troca muito intensa. O elenco era bem heterogêneo, com atores que vieram de diversas escolas, de experiências e bagagens diferentes. É uma troca muito rica, pois você aprende muita coisa com os colegas. E, depois, o resultado de poder ver como esse espetáculo chega para as pessoas, como que elas são afetadas e como através da arte você pode fazer com que elas reflitam, se questionem, se emocionem. Acho que esse é o objetivo maior.


Quais são os principais hobbies adquiridos no período de isolamento social? Vimos que você fez um projeto, o "Livemhistória" na sua conta do Instagram, com leitura de contos seguida por debate. Como foi essa experiência para você? Planeja seguir com isso ou fazer algum outro projeto nessa linha?


- Durante esse período muito complicado, em que a gente se sente inseguro, com medo, eu acho que houve uma busca por alternativas para que eu me sentisse sã, tanto fisicamente quanto mentalmente e emocionalmente. O que me faz bem? Se quando eu fico vendo notícia o dia inteiro eu fico aflita, ansiosa... bom, então eu vou ler. A leitura é uma atividade que me coloca em outro plano, o da minha imaginação. Claro que temos à nossa disposição os filmes, as séries, mas a Literatura tem essa capacidade de criar as suas imagens, o seu próprio “filme” a partir das palavras escritas. O projeto “Livemhistória” aconteceu naturalmente e, por conta da live que eu fiz durante muitos meses para o Coro na Quarentena - um coletivo para angariar fundos para pessoas em situação de mais vulnerabilidade – eu resolvi começar a ler histórias e enveredar pelas narrativas curtas, por conta do formato da live. Sempre gostei muito de contos, mas, para a minha pesquisa, eu fui me aprofundando mais no gênero. Foi assim que surgiu a ideia de criar essa série, que eu chamo “de conto em conto” e foi muito bacana. Continuo fazendo leituras, mas dessa vez com o Rafa Maia, pela Oca Tupiniquim, mais ou menos duas vezes por mês. A gente faz leituras e depois chama alguém para debater. Da última vez, lemos um trecho do Sérgio Santana, que contou com a participação do escritor João Paulo Cuenca. Foi o projeto que eu mantive, porque eu estou fazendo faculdade de Letras e produzindo minha peça, Madame Blavatsky, que eu fiz durante a quarentena, em que foi criado remotamente um espetáculo com um formato novo para o Sesc. E agora nós fizemos de novo para o Polo Cultural e estamos inscrevendo em festivais e batalhando para levar para o teatro um dia.


Você chegou a cursar Cinema na UFF, em Niterói. Como é sua relação com a cidade?


- Sim! Infelizmente não por muito tempo (risos). Gostaria de ter me formado, mas na época comecei a trabalhar e o curso de Cinema era bastante intenso e não foi possível continuar. Eu tenho um carinho muito grande, uma gratidão por ter sido uma cidade que me recebeu de certa forma numa época em que eu estava me formando como adulta. Eu ia para Niterói todo dia e a minha irmã, antes de mim até, se formou em Veterinária na UFF. Então, sempre houve Niterói ligada à universidade, aos estudos, ao aprendizado de modo geral e eu valorizo muito isso. Eu sou muito grata à cidade por ter me acolhido e pelos encontros que ela me proporcionou.


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