Moradora do Ingá cria grupo para ajudar quem ficou sem renda na quarentena

Valdecir, vendedor de coco da Boa Viagem, comprou alimentos com as doações


Por Silvia Fonseca


Valdecir no ponto onde vende coco, perto do MAC, antes da pandemia


Valdecir com parte dos produtos que comprou com doações do grupo


Onde andará o Valdecir do coco? Quem caminha pela orla e vai até a Boa Viagem conhece o simpático vendedor. Pois mal começou a quarentena da Covid-19 e a empresária Kátia Yusim, que antes passava por ali todo dia e comprava coco com o Valdecir ou o Ronaldo, começou a se preocupar com eles.


- Assim que a gente ficou trancado em casa, e eu sabia da história deles, sabia que eles vivem disso há 20 anos, foi me dando uma agonia porque eu não podia sair de casa, não podia ajudar. E ficava pensando: como estão vivendo, como estão fazendo para viver?


Kátia, de 59 anos, mora no Ingá e caminhava na praia diariamente antes da pandemia. Preocupada em tentar localizar Valdecir e ajudá-lo, acordou um dia e teve a ideia de fazer um grupo no Facebook para achar pessoas que de uma hora para outra perderam a condição de trabalhar e sustentar a família. Com a ajuda do marido e das filhas, criou o grupo “Uma mão lava a outra - Niterói” no Facebook. NitHerói é também quem trabalha para ajudar os outros.


A primeira postagem de Kátia perguntava: “Você conhece o Valdecir?” Ela queria conseguir um contato dele, saber se estava bem, como podia ajudar a família do vendedor de coco.


- E aí não deu dois dias a minha filha recebe uma ligação. Era a filha dele, que viu a foto no grupo do Facebook. Nossa, foi uma festa. O mais legal de tudo foi que de noite ele me ligou para saber por que eu estava procurando por ele... E aí ele contou: “Hoje de tarde, na hora do almoço, fui tentar dar comida pros meus netos e vi que só tinha arroz. E aí saí pra pescar e pedi a Deus que fizesse alguma coisa na minha vida porque eu precisava alimentar meus filhos e netos...” – lembra Kátia.


Quando chegou em casa, na volta da pescaria, a filha contou que Kátia estava procurando por ele. Foi aí que aconteceu o telefonema. E Valdecir não só recebeu ajuda como ajudou o grupo a encontrar também Ronaldo, outro vendedor de coco. Os dois moram no Morro do Palácio.


- O Valdecir é um cara maravilhoso. Além de ter sido muito ajudado pelo grupo, ele foi me trazendo muitas histórias lá da comunidade do Palácio, distribuiu roupas que enviamos para lá, máscaras. Ele contou, por exemplo, sobre uma senhora que mora sozinha, não tem ajuda de governo, vivia da ajuda da comunidade, que estava em dificuldades... Então o grupo doou fogão, muita coisa.


Como algumas das pessoas em dificuldade não sabem ler, Kátia também atua como intermediária delas, faz os apelos no grupo, disponibiliza seu próprio telefone e até conta bancária para receber doações e entregar a essas pessoas.


Foi impressionante a velocidade com que a ideia se multiplicou e o grupo foi crescendo. Hoje já tem quase 40 mil pessoas, e cresce a um ritmo de cerca de 1.500 por dia. E quanto mais crescia, no começo, mais pessoas apareciam querendo ajudar, diz Kátia. Ela só postava notícias de gente que sabia que realmente precisava de ajuda.


- Aí senti que começou uma coisa diferente no grupo, que eram pessoas divulgando seus produtos. Eu falava: gente, o propósito é ajudar pessoas. Então se você está realmente precisando porque é o seu ganha-pão, tudo bem. Mas começaram a aparecer pessoas querendo vender carro, terreno, aí não. Não é o propósito do grupo. Esses eu tiro – conta Kátia, que administra o grupo juntamente com as filhas, Letícia, de 24, e Mariana, de 35 anos. Elas não admitem também postagens sobre política e religião.


- Às vezes eu acho que o grupo cresceu tanto que muitas das novas pessoas não sabem do objetivo. Foi criado para que quem ficou sem nada de um dia para o outro tenha o que comer. Tem gente que hoje me conta que perdeu o emprego e não tinha noção do que ia fazer. Aí botou no grupo que vendia empadinhas e vendeu cem bandejas de empadas só num fim de semana – conta Kátia.


O grupo ajudou o Márcio, que vendia sanduíches na Praia de Itacoatiara, o cara que tinha uma banca de legumes na Nilo Peçanha, no Ingá... Deu dinheiro para um homem que distribuía quentinhas para moradores de rua no bairro, de forma que pudesse comprar ainda mais quentinhas...

O Ingá tem dois primos sapateiros muito conhecidos. Eles estavam há 18 anos numa lojinha alugada no bairro. No primeiro mês da pandemia, o dono do imóvel botou os dois para fora porque não tinham como pagar o aluguel sem trabalhar. Pois o grupo Uma Mão Lava a Outra postou a história. E eles voltaram a trabalhar. Muita gente que os conhece chama, eles vão até o prédio, pegam o sapato, consertam e devolvem na portaria das pessoas.

- Teve uma menina com dois filhos que a casa dela pegou fogo numa parte onde estavam todas as roupas do filho pequeno. E ela foi tentar apagar o fogo com roupa de cama e toalhas de banho. Eu já tinha ajudado ela antes. Aí postei a história do fogo no grupo e um monte de gente ajudou. Ela pediu nebulizador. A gente conseguiu uma moça que está morando em Portugal, viu no grupo, e doou 200 reais para comprar o nebulizador.


Quando a mulher foi na casa da Kátia pegar as doações, surpresa:


- Você acredita que ela trouxe quatro pacotes de fraldas que não davam mais no filho dela? Para doar para alguém que estivesse precisando... Aceitei as fraldas e dei os R$ 200. Aí ela me trouxe a notinha do nebulizador. Tinha custado R$ 120. Então dei o troco de R$ 80 para ela comprar as fraldas no tamanho do filho e repor as que tinha doado.


Outra história que emocionou quem segue o grupo foi a da senhora que pediu uma bicicletinha para o neto. Integrantes do grupo doaram a bicicleta, colchão, muito mais coisas do que ela havia pedido inicialmente. E a senhora então apagou o post com o pedido de ajuda.


- Por que a senhora apagou o post com o seu pedido? - perguntou Kátia.


- Porque eu já consegui tudo o que precisava. Deixa agora ajudarem outras pessoas.

728x90.gif

© 2020. A Seguir Niterói. Todos os direitos reservados. Site por Grazy Eckert e João Marcos Latgé.