Morre Selmo Treiger, o construtor do Caminho Niemeyer

Empresário, nascido em uma família de construtores, fez de Niterói seu canteiro de obras

Por Luiz Claudio Latgé

Selmo Treiger, com a filha Luiza: projetos para Niterói, depois da pandemia

O empresário Selmo Treiger era dessas pessoas que parecem não caber em lugares pequenos. Muito menos, silenciosos. Impossível conter o entusiasmo com que perseguia ideias e projetos. Algumas vezes, no meio da conversa, pedia desculpas: "eu falo muito". E tentava explicar: "é que eu não posso ver isso tudo e não falar." "Isso tudo" podia ser um projeto equivocado, uma oportunidade não aproveitada, uma visão da cidade, o momento certo de fazer alguma coisa... E fez muitas, o caminho Niemeyer está entre as realizações que deixa para Niterói.


Selmo Treiger podia morar em qualquer lugar do mundo. Mas escolheu Niterói. Na verdade, nasceu aqui em uma família que de certa forma está associada à construção da cidade, no boom do mercado imobiliário dos anos 70. Gostava de apontar na cidade as marcas da família na construção civil. Dizia que era um sacerdócio.


Selmo Treigger nasceu em 1955. Estudou no Centro Educacional de Niterói. Formou-se em Engenharia Civil na Gama Filho. Fez pós-graduação na PUC. Entrou na Pinto de Almeida em 90. A Pinto de Almeida foi responsável por muito da estética da cidade, especialmente em Icaraí, onde plantou a maior parte dos seus prédios. Uma ideia de cidade, que concebeu como grande projeto o Plaza Shopping, quando o comércio da cidade girava em torno da Mesbla e pouca gente acreditava no sucesso da empreitada.


Como diretor de novos projetos, tocou vários empreendimentos do grupo, em Niterói, Rio, São Paulo e Portugal. Teve chance de morar fora. Viajava com frequência para os Estados Unidos. Desde 99, tocava a SD Treiger, empreendimentos e incorporação imobiliária.


Meteu-se na vida pública - como se houvesse algo em que não fosse se meter. Foi um dos formuladores do projeto final e executor do caminho Niemeyer. Seu primeiro presidente. No governo de Jorge Roberto da Silveira, foi ainda Secretário de Fazenda. No escritório da sua empresa, em Icaraí, costumava interromper as conversas para procurar alguma lembrança da concepção do projeto. E exibia orgulhoso algum desenho ou anotação feita a mão por Niemeyer.


Nos últimos anos, se afastou da vida pública. Reclamava de todos os governos. Dizia que queria pintar. E mostrava as telas na parede. Mas bastava ter pela frente uma ideia nova para se animar e desenhar novos planos. Queria debater a necessidade de atualização do Plano Diretor de Niterói para valorizar a sustentabilidade e criar soluções para a mobilidade urbana.


Na pandemia, entendeu que o setor em que viveu toda a sua vida, a construção, a arquitetura, o urbanismo iria mudar para sempre, a casa vista como refúgio, depois da experiência do isolamento e do home office. "Muda tudo", dizia, e enumerava a lista. A arquitetura da casa, a lógica dos cômodos, os equipamentos, o lugar da casa, o transporte...


Quando o A Seguir: Niterói fez uma série de reportagens sobre as mudanças na cidade e na arquitetura em função da pandemia, aceitou escrever um artigo, não sem muita

resistência. "Eu gosto de falar, não sou de escrever". Mas concordou depois de conversar com a filha Luíza, que trabalha na empresa. Assinaram juntos o artigo: "A casa agora não será mais só um lugar para dormir ou descansar, não será mais só um momento de passagem. Precisamos, inclusive, avaliar a noção de distância, o “longe- perto” passou a ser mais interessante e desejado. O abrigo, o refúgio, o lar, deve ser mais confortável ainda. Trabalhar, estudar, brincar e ter proteção para receber. O nosso espaço no mundo precisa refletir as novas necessidades e acima de tudo priorizar a qualidade de vida.


Estava ali tudo que mais o motivava na vida: arquitetura, urbanismo, Niterói e a família. A sua obra.


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