Motoristas de aplicativo vivem entre a incerteza financeira e o medo do Coronavírus

Profissionais que trabalham em Niterói contam o que têm feito para continuarem o trabalho sem abrir mão dos cuidados com a saúde


A necessidade de garantir o sustento de cada dia contrastando com o medo de contrair Covid. Esse é o dilema que muitos profissionais de serviços considerados essenciais enfrentam desde a chegada da Covid da país. E esse sentimento voltou a tomar conta de algumas pessoas que atuam em áreas que não podem parar, incluindo os motoristas de aplicativos. Em maio deste ano, a Prefeitura criou um programa de auxílio emergencial de R$ 500 para quem trabalha na área, sendo que o pagamento foi feito em três parcelas. Mesmo assim, muitos preferiram continuar rodando pela cidade e seguem trabalhando mesmo com a ocupação lotada nos hospitais. Mas alguns reconhecem que o medo de se tornarem os novos infectados é grande. O "A Seguir: Niterói" conversou com dois profissionais do ramo que atuam na cidade, Fillipe Araújo e Vinícius Viana. Ambos contaram as adaptações que precisaram fazer na rotina para continuaram trabalhando e relataram algumas situações que enfrentaram com passageiros no dia a dia. Morador do Recreio, na Zona Oeste do Rio, Viana vem toda a semana a Niterói para passar alguns dias ao lado dos pais que residem na cidade. Mesmo assim, ele faz muitas corridas mesmo nos dias de descanso, em especial na Região Oceânica. Ele explicou o que fez no interior do veículo para continuar levando passageiros.

- A primeira mudança que fiz foi colocar uma espécie de placa de escudo de PVC entre mim e o passageiro para oferecer maior segurança e, principalmente, manter uma distância. Além disso, explico educadamente que não levo gente ao meu lado para evitar qualquer tipo de contato físico - detalha Viana. Já Araújo, que mora em Niterói, fala que além do uso obrigatório da máscara, do álcool em gel e das viagens serem feitas com vidro aberto, ele dá um tempo de intervalo maior entre uma corrida e outra para fazer uma sanitização adequada no interior do veículo. Além disso, afirma que não roda além da meta que estipulou no dia em que trabalha. Assim que alcança o valor planejado, ele encerra o expediente. Mas isso não significa que ele não tenha passado por alguns aborrecimentos envolvendo clientes. Atendimentos vão desde cliente mal educados até a quem apresenta sintomas da doença Ele recorda uma viagem que fez da Rodoviária Roberto Silveira, no Centro, com destino a Maricá. A passageira insistiu para que ele viajasse com o vidro fechado, ligando o ar condicionado. O motorista conta que houve um princípio de discussão e para não se indispor mais, optou em deixá-la no Fonseca. - Assim que eu saí da rodoviária, com as malas dela no carro, ela pediu pra ligar o ar por causa do calor. Eu expliquei que não podia por causa das normas da empresa, que estão de acordo com as determinações sanitárias da OMS. Mas ela respondeu de forma arrogante que 'estava pagando' e ainda falou que exigia de mim que eu fechasse os vidros e ligasse o ar. Educadamente, respondi que não faria isso alegando que eu poderia até ser bloqueado pela empresa. Ela me ameaçou denunciar no aplicativo e simplesmente começou a gritar comigo, sem parar. Para não deixar a discussão mais acalorada, deixei ela na altura da Caixa Econômica da Alameda São Boaventura, no Fonseca, encerrei a corrida e reportei essa situação para a empresa - recorda Phillipe Araújo. Já Vinícius Viana vai além e admite que já fez o transporte de passageiros com algum sintoma suspeito com receio, pois pegar gente que esteja tossindo e espirrando é motivo de "intensa preocupação" para ele. De acordo com o profissional, essas situações são mais comuns quando ele é solicitado para fazer alguma corrida para uma Upa ou um hospital. Cuidados vão desde a realização de exames até a "intervenção divina" Quando os dois são questionados sobre alguma ocasião em que desconfiaram estar doentes, as respostas, embora diferentes, são marcadas pela sinceridade de cada um. Viana alega que não teve nenhum dos sintomas e agradece aos céus por isso, pois afirma que só com a "intervenção divina" é que conseguiu se livrar do vírus até o momento. Já Araújo reconhece que passou por uma sensação de pânico na última semana, pois teve fortes dores de cabeça e febre. Mas o alívio veio quando o resultado do exame deu negativo. Até o momento, não se tem informações sobre uma ampliação do auxílio emergencial para motoristas de aplicativos que trabalham na cidade. A reportagem procurou a Prefeitura de Niterói para saber se há alguma medida para ajudar a categoria no momento, mas não obteve retorno. Assim que tiver a resposta, a matéria será atualizada.




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