'Não tem como vencer a Covid sem vacina', diz médico de Niterói que participou do teste

Profissional de saúde que foi voluntário dos testes na fase 3 alerta: ainda vamos conviver com a doença por muito tempo

Por Livia Figueiredo

O médico Raphael Bastos, um dos voluntários para o teste da vacina CoronaVac em Niterói, conta como foi sua experiência


“A gente não sabe por quanto tempo vai estar imune à doença. É uma doença nova e jamais podemos negligenciar o dia a dia. A gente vai conviver com ela ainda por muito tempo, talvez anos. E vamos ter que aprender a lidar com a Covid, mesmo com a vacina”, declara o médico anestesista Raphael Bastos, de 43 anos, um dos niteroienses voluntários para o teste da CoronaVac. Raphael é anestesista em hospitais particulares de Niterói e o responsável pelo transporte aeromédico do Corpo de Bombeiros do Rio, onde faz o transporte de pacientes infectados do interior para a Região Metropolitana. Logo depois de entrar para o programa de testes da fase 3 da CoronaVac em Niterói, ele foi entrevistado pelo A Seguir: Niterói, e agora conta como foi a experiência.


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O médico afirma que a vacina é uma questão emergencial que deve estar na pauta das prioridades do país e reforça que não há tratamento e nem remédio que resolva o problema de saúde pública que estamos enfrentando. Mesmo com o avanço dos estudos, ainda não é possível saber todas as sequelas da Covid e muito menos como cada corpo irá reagir à doença. Questões como por quanto tempo dura a imunidade também ainda não foram sanadas.


Quando a Fiocruz deu início, em junho, aos testes da vacina de Oxford, o médico e outros colegas de profissão logo se inscreveram, mas Raphael não foi selecionado. Ao saber que Niterói, cidade onde nasceu e mora, foi uma das escolhidas para testar a outra vacina, a CoronaVac, da farmacêutica chinesa Sinovac em parceria com o Instituto Butantan, Raphael não hesitou em entrar em contato para ser um dos voluntários.


O Butantan já pediu aprovação à Anvisa para uso emergencial da CoronaVac. Se aprovada, deve ser aplicada e distribuída pelo Ministério da Saúde pelo Programa Nacional de Imunização a partir do fim de janeiro.


Em agosto do ano passado, o médico e sua mulher, também profissional da área de saúde, foram à Policlínica Dr. Sérgio Arouca, no Vital Brazil, para fazer o teste de Covid e iniciar a participação na fase 3 dos testes. Ao chegarem lá, receberam um termo de confidencialidade e um documento que continha informações sobre a vacina e os possíveis sintomas ao tomar a dose, como contaram na época à reportagem do A Seguir: Niterói.


Hoje, cinco meses após ele participar como voluntário da fase 3 da CoronoVac, o A Seguir: Niterói retoma o contato com o médico anestesista para entender como foi sua experiência como voluntário da vacina, sua rotina no hospital, com o aumento de casos na cidade, e as perspectivas para o futuro pós-pandemia.


A Seguir: Niterói: Você já sabe se tomou a vacina ou o placebo quando foi voluntário da CoronaVac?


Raphael Bastos: Ainda não sei oficialmente. Os voluntários que participam dos testes somente saberão se tomaram a vacina ou o placebo em um ano, ao fim da pesquisa. O estudo não foi aberto para os voluntários, mas como médico da linha de frente, eu fazia testes sorológicos a cada 15 dias e não apresentei anticorpo até ter de fato a Covid. Depois que eu fiz o estudo da CoronaVac, em agosto, eu tive a doença no início de novembro.


Como ficou o monitoramento no período em que você foi voluntário? Você e sua esposa tiveram alguma reação à vacina?


O monitoramento foi semanal. Toda semana os pesquisadores ligavam ou mandavam mensagem por WhatsApp para saber como estávamos nos sentindo. O estudo é bem sério. Os médicos que estão envolvidos com o estudo ligam para a gente com regularidade para saber como estamos. Não tivemos reação alguma à vacina. Foi tudo muito organizado. O estudo está de parabéns. Quando tivemos sintomas de Covid, fomos atendidos pelos médicos do estudo e colhemos exames.


O que você teve de sintoma quando foi contaminado pela Covid? Você já está apresentando anticorpos para a doença?


Senti basicamente dor lombar e desconforto muscular. Não tive nenhum sintoma respiratório. Sim, já tenho o anticorpo de memória, o IgG, e ainda tenho um resquício de IgM, que é um anticorpo de fase aguda. Mas ele fica no corpo até 40/45 dias.


Olhando para trás, qual foi a importância de fazer parte dessa experiência como voluntário?


Foi muito importante fazer parte deste estudo. Acho que estamos fazendo história. A gente vai contar para outras gerações como foi essa época difícil. Nós médicos, que atuamos na linha de frente, temos o compromisso não só de atendimento aos pacientes, mas também com a ciência. A vacina é uma das melhores coisas que aconteceram para a humanidade. É um dos maiores avanços da medicina e a gente não pode jamais deixar que qualquer coisa diga o contrário, que a política influencie as decisões científicas ou que as pessoas sejam emburrecidas por conta de pensamentos políticos negacionistas. Isso é um absurdo.


Niterói irá mesmo começar a vacinação contra a Covid ainda este mês? O que você pensa sobre isso?


Acredito que, assim que a Anvisa liberar a vacina, qualquer que seja ela, o Plano Nacional de Imunização deve ser igual para todas as cidades e estados. Não vai ter estado vacinando primeiro, nem cidade. Até porque seria incoerente. Não poderia deixar um estado mais rico que o outro receber a vacinação. Acho que tem que ser igual. Mas depende da Anvisa. E, de acordo com o calendário divulgado pelo Ministério da Saúde, os idosos acima de 75 anos e os profissionais que atuam na linha de frente serão os primeiros a serem imunizados.


Quais são as principais queixas dos pacientes que são contaminados pela Covid?


Os pacientes com Covid se queixam muito de dor nas costas, perda do olfato, anosmia (perda de paladar), falta de ar, quando desenvolve a fase mais grave da doença, que acontece do sétimo ao décimo dia de sintoma. É uma doença muito séria. É uma pneumonia viral transmissível e as pessoas estão morrendo diariamente. De novembro para cá, a gente vê os casos aumentando, hospitais lotados. Eu particularmente vejo uma situação pior que a de março/ abril. As pessoas relaxaram de fato e os casos explodiram. O número de óbitos é absurdamente grande ainda e cabe a nós fazer a nossa parte. Não é porque tomamos a vacina ou porque tivemos Covid que não temos que ter os cuidados de distanciamento social, de uso de máscara e álcool gel.

O que você diria para os negacionistas da vacina?


A gente não sabe por quanto tempo vai estar imune à doença. É uma doença nova e jamais podemos negligenciar o dia a dia. A gente vai conviver com ela ainda por muito tempo, talvez anos. E vamos ter que aprender a lidar com a Covid, mesmo com a vacina. E a vacina é a solução. Não tem vitória para a Covid sem vacina. Não tem tratamento precoce, não tem remédio, não tem nada que resolva o problema de saúde pública que a gente vive que não seja a vacina. Um hospital bom, um CTI bom, uma equipe de fisioterapia boa, médicos bons fazem com que o paciente sobreviva à doença, mas depende muito da resposta do paciente. Não tem nada de fato que seja um divisor de águas. O divisor de águas para a pandemia e para a humanidade é a vacina.