História do Kamikaze que viveu e deu aulas de karatê em Niterói vira filme

Festival on-line e gratuito, em março, reúne produções de países que têm em comum o amor pela sétima arte e a língua portuguesa


Por Amanda Ares

“Tokio Mao – O Último Kamikaze”, da brasileira Marina Pessanha


O português é o idioma falado em dez países e territórios ao redor do mundo, e a língua une culturalmente povos muito diferentes entre si. Pensando em aproximar territórios, o Festin - festival de cinema itinerante de língua portuguesa, driblou o obstáculo do isolamento social, adotou o formato on-line e virou FESTin On, que ocorrerá virtualmente em Niterói entre 11 e 29 de março. A mostra reúne 14 curtas e 4 longa-metragens, e conta com produção nacional, além de debates on-line que vão reunir realizadores de Niterói e de diversos países.


Quatro cineastas niteroienses têm se destacado e fazem parte dessa mostra. São eles e elas: Ivan de Angelis, Éthel Oliveira, Rosa Miranda e Marina Pessanha, diretora do documentário "Tokio Mao – O Último Kamikaze”, sobre um ex-piloto kamikaze de 91 anos, que sobrevive à guerra e vai parar no Brasil. Ela conversou com A Seguir: Niterói sobre a produção do curta:


A Seguir: Niterói - Como você conheceu a história do professor de karatê Tokio Mao, e por que decidiu transformá-la em um filme?


Marina Pessanha: Um amigo meu comentou comigo sobre a história dele, porque sabia que eu fazia documentários. Ele disse que existia um ex-kamikaze em Niterói dando aula de karatê. isso foi mais ou menos em 2014, e eu achei a história incrível! Eu nunca tinha ouvido falar em um kamikaze sobrevivente, pois o objetivo deles é chegar às últimas consequências. Então eu cheguei até a casa dele e conversamos.


Quando ele saiu com o intuito de abater um navio americano, bateram no avião dele e ele caiu no mar, então por isso sobreviveu. Ele ficou vários dias no mar, até que a Marinha japonesa o encontrou. Ele sobreviveu comendo chocolate. Ficou vários meses no hospital, e depois que ficou bom, ainda passou um tempo no Exército até o final da II Guerra. Quando a guerra acabou, foi estudar e se formou em engenharia.


Em 1955, ele trabalhava em uma empresa de engenharia que o transferiu pra cá, onde viveu até o fim da vida com a esposa, dona Kasu. Chegou a estudar medicina, e foi um famoso acupunturista aqui em Niterói. Eu comentei que tinha a vontade de fazer um documentário, e ele e a esposa aceitaram. Ele tinha 91 anos quando a gente filmou.


A Seguir: Niterói - Quais foram as etapas da produção do filme, e quanto tempo levou?


Marina Pessanha: Quando ele topou, eu escrevi o projeto todo, inscrevi em um edital, e quando consegui eles não queriam mais filmar, por causa de uma matéria que saiu uns anos antes, de que eles não gostaram, sobre kamikazes. Então, me tornei aluna dele de karatê e virei faixa amarela enquanto tentava fazer com que confiasse em mim pra filmar. E aí foi ótimo, foi um super trabalho de campo. Ele contava várias histórias. Havia alunos que tinham aula com ele há 40 anos, que consideravam ele como um pai. Ele tinha um cuidado muito grande com os alunos, endireitando a roupa dos alunos, reclamando quando tinha alguma coisa errada, com toda disposição aos 91 anos.


Foi um ano fazendo aula, até ele topar. Eu fiquei muito feliz, vi que ele claramente confiava em mim. Os alunos me ajudaram para caramba, porque queriam muito que o filme saísse. Começamos a gravar em 2016, e em 2018 estávamos estreando na 1a mostra, a Mostra de Londrina. E em 2019, entramos em vários festivais e ganhamos o prêmio no Cine Esporte.


Também gravei muito na academia, com os alunos, e tem imagem de arquivo dos alunos também. Foram muitas horas. E desde o início eu sabia que queria usar muita imagem de arquivo da Guerra. Então, depois que a gente filmou, comecei a fazer um trabalho de pesquisa com um amigo, Keiji Kunigami, brasileiro com ascendência japonesa que fazia um doutorado em Tóquio e fez essa pesquisa de imagem no NHK, o canal público japonês. Tem imagem de outros acervos internacionais também. A montagem demorou bastante, um ano e meio, mais ou menos. A ideia era entrar nos cinemas em 2020, mas, com a pandemia, ficou complicado.


A Seguir: Niterói - Seu filme conquistou o prêmio de melhor filme no Festival Cine Esporte de 2019. Por que você acha que ele toca tanto as pessoas?


Marina Pessanha: O prêmio foi em um festival esportivo, então o filme caiu nas graças de quem gosta de esporte por ele ser professor de karatê, e ter imagens super bonitas disso. Mas acho que o que tocou as pessoas é o fato de a vida dele não ser uma história normal. Ele testemunhou um fato histórico muito marcante. Acho que quando a gente fala de século XX, e no cinema, a II Guerra mundial acho que é o evento mais importante. E a história de uma pessoa que participou dessa guerra, e depois veio parar no Brasil e dando aula de karatê aos 90 anos, ensinando alunos, crianças... você nunca diria que ele participou de uma guerra tão violenta, in locum. Quando caíram as bombas em Hiroshima e Nagasaki, ele estava no Japão e sofreu junto. É curiosa a história dele, é dolorosa, mas no fundo é positiva. Porque ele sofreu críticas por ter "falhado" na missão dele de kamikaze, mas o filme mostra que ele é um sobrevivente.


Confira o teaser de “Tokio Mao – O Último Kamikaze”


Outros países participantes da edição são Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Além da exibição, também faz parte da programação o “Conexões FESTin ON Niterói”, que promove um debate sobre o desenvolvimento do cinema na cidade. Niterói carrega o título de “cidade do audiovisual” desde 2018, e sedia a 2a escola de cinema do Brasil (a primeira foi na UnB), o primeiro curso de licenciatura em cinema do país.


As inscrições e o acesso à programação são totalmente gratuitos, e ambas podem ser feitas na plataforma de streaming www.festinon.com.