Niterói ainda conta os mortos da segunda onda da Covid, em novembro e dezembro

Cientistas consideram que números divulgados em janeiro podem refletir ainda mortes ocorridas no final do ano


Por Luiz Claudio Latgé



Os números assustam. A Secretaria Estadual de Saúde reporta mais de 164 mortes em Niterói, em janeiro, por data de notificação. A conta da Prefeitura é outra: 113, nos boletins divulgados diariamente. Qualquer que seja a estatística, porém, epidemiologistas consideram que estes dados podem refletir mais o que a cidade viveu nos últimos meses de 2020, em novembro e dezembro, do que a situação do momento.


Número de mortes, por semanas epidemiológicas, de acordo com os boletins diários da Prefeitura de Niterói. Depois do primeiro pico, em maio e junho, a doença voltou a matar a partir de novembro


A hipótese é levantada diante da observação de outros indicadores. Entre eles, o mais importante é a queda da taxa de ocupação dos leitos e vagas de UTI reservadas para Covid nos hospitais públicos e privados. Os hospitais privados chegaram a ter 93% dos quartos ocupados em 15 de dezembro e a lotação das UTIs foi a 86% na semana seguinte. Agora, segundo o Sindicato dos Hospitais Particulares de Niterói este número está em 22 % e 28%, respectivamente. O resultado é o melhor desde 13 de outubro, antes de começar a nova onda de contágio do Coronavírus.


Os dados podem parecer contraditórios. Como a cidade pode ter tantos mortos e estar com os hospitais vazios?


Pergunto ao sanitarista Aluísio Gomes da Silva Júnior, Diretor do Instituto de Saúde Coletiva da UFF, qual pode ser a explicação para os números. A conversa é rápida, ele estava fora de Niterói, ainda à espera de números mais atualizados. Mas acredita na existência de uma defasagem entre os dados. "Parece que o pico das ocorrências (casos novos e mortes) se deu entre o final de novembro e início de janeiro. O atraso dos dados distorce a curva. Neste momento, diminuíram concretamente as hospitalizações e óbitos em Niterói e no Rio também", explica.


Na última semana, o mapa de risco do Estado do Rio mostrou uma evolução, como não acontecia desde outubro. E saiu de alto risco e risco moderado para o estágio amarelo, de baixo risco. A Região Metropolitana II, onde está Niterói, a situação é considerada de baixo risco.



O registro de casos e mortes segue um padrão adotado pela OMS para o acompanhamento da pandemia. Os lançamentos são feitos por data de notificação. Ou seja, quando os exames confirmam a presença da doença. Mesmo que o paciente tenha morrido duas ou até três semanas antes, o registro será anotado na data da notificação. Em Niterói, estes dados aparecem nos boletins epidemiológicos que a Prefeitura divulga diariamente. Por estes boletins foram 113 mortes nas quatro semanas epidemiológicas de janeiro. A Secretaria Estadual de Saúde faz o mapa de acordo com a orientação internacional, acompanhando a evolução por semana epidemiológica, mas a Prefeitura contesta, sugerindo que o Estado não depura moradores de Niterói e de São Gonçalo e cidades vizinhas, que também usam a rede local. Embora nenhuma cidade faça essa separação.


Os epidemiologistas sabem que estes números são precários e costumam, com o tempo, rever os dados para ter um maior conhecimento da doença. Por isto, não gostam de analisar um dado isoladamente. Preferem se guiar por um conjunto de informações:

o número de casos, a rapidez do avanço da doença, a taxa de contágio, a ocupação dos hospitais, entre outros.


Pesquisam, por exemplo, o momento correto da morte e se houve outros óbitos que, na época, não foram atribuídas à Covid, por falta de exames, e mais tarde foi possível saber que também se relacionavam à doença. Na Covid isso é comum, com a doença mascarada em casos de síndrome respiratória. Normalmente, isso é um trabalho minucioso, e costuma revelar o aumento do número de mortes, nunca uma redução. Como o trabalho é lento, o indicador não é recomendado para o acompanhamento do momento da pandemia. Diz muito sobre o passado, mas pouco sobre o presente.


O mapa por data de ocorrência da morte, publicado no Portal da Prefeitura, é ajustado ao longo da epidemia: mostra um primeiro pico da doença em maio, com 58 mortes na semana, e uma nova curva de alta, a partir de novembro, com pico na semana epidemiológica 49, quando foram anotadas, até agora, 45 mortes, número que tende a crescer, com a atualização dos dados nas próximas semanas. A Secretaria de Saúde reconhece em novembro um novo pico de casos, maior ainda do que o de maio.


Apesar das diferenças, os indicadores convivem. E, cada um em sua especificidade, ajuda a informar os especialistas. A curva das mortes pela data real do falecimento, esta dos dados revistos, levou algum tempo para registrar o agravamento da doença. Mas agora já estabelece um pico de mortes concentrado em novembro que não aparecia nas outras séries. Na semana 49 foram 45 mortos. Um número que só fica abaixo dos 58 mortos de maio, na primeira onda da doença.


O mapa mostra a comparação entre duas séries de dados: em azul, os registros por data de notificação. Em vermelho, os dados revistos para realocar as mortes na data em que efetivamente ocorreram. E eventualmente acrescentar casos que na época não foram tratados como Covid e agora sabe-se que decorriam da doença. As duas curvas têm o mesmo comportamento, com certa defasagem no tempo. No geral, a curva vermelha acentua os picos da doença.


Existe outra diferença entre as duas. A curva azul é construída em tempo real. Registra, a cada semana, o número de mortos. Uma vez que os dados são lançados no mapa, a curva não muda. A curva vermelha, não, ela está em permanente construção, revisada de tempos em tempos. Há seis meses tinha um desenho, no mês passado tinha outro e daqui a uma semana será diferente. Às vezes parecerá que a curva vermelha capturou antes as tendências da evolução da doença. Como no início da pandemia. Mas não é verdadeiro. Foi preciso algumas semanas para ela ganhar a forma que tem hoje. Na outra ponta do gráfico fica fácil entender. A curva azul se descola da vermelha a partir de dezembro, parece bem mais alta. Mas não será sempre assim. Isso acontece devido a defasagem na revisão dos dados.


Na primeira onda da Covid, os dados por notificação (a linha azul) indicavam o pico de 28 mortes na Semana Epidemiológica 20, a SE 20. Hoje, revistos os dados, sabe-se que o pico aconteceu antes, na SE 19, e foi mais forte do que aparecia então. O número de mortes saltou de 28 para 58.


Na outra ponta do gráfico, a linha azul mostra o avanço da doença a partir de novembro e atinge o ponto mais alto em janeiro. Os dados revisados por data de ocorrência, a linha vermelha, no entanto, mostram que o pico não foi em janeiro, mas em novembro, na Semana 48. Na época, estes números não apareciam na linha vermelha. Eles só apareceram após várias atualizações dos dados, seis semanas depois. A linha vermelha continua sendo revista e provavelmente o número de mortes vai passar de 45 no pico de novembro.


Neste ponto do gráfico, depois de novembro, a linha vermelha decai bruscamente. Não significa que a doença tenha parado de matar, subitamente. Significa apenas que os dados ainda estão sendo atualizados. As mortes aparecem nos registros por notificação (a linha azul): 37, 28, 26 e 22, respectivamente, nas primeiras semanas do ano. Não quer dizer que estas mortes tenham acontecido em janeiro. Provavelmente, mais adiante, elas vão aparecer na linha vermelha nos meses concentradas em novembro, dezembro e talvez no início de janeiro.


É a análise desta atualização dos dados que faz supor que a cidade ainda está contando, com atraso, os mortos de novembro e dezembro. À medida que os registros são redistribuídos no tempo, aumenta a curva da doença em novembro, a cada semana que os dados são atualizados. Além disso, se as mortes que aparecem agora nos registros por notificação estivessem todas acontecendo neste início de ano, a taxa de ocupação dos hospitais não seria tão baixa. Por isto é importante contextualizar o estudo, além de um ou outro dado isoladamente.


Outro fator que fortalece a hipótese de uma defasagem nos dados é o registro de novos casos da doença. Depois do pico no final do ano, quando chegou a 1.500 casos numa única semana, a média começou a cair, sistematicamente. Na última semana, foram 682 casos. Estes números estão sujeitos à quantidade de testes aplicados, o que a Prefeitura não informa, mas apresentam queda desde as festas de fim de ano.


Novos casos por semana epidemiológica, de acordo com os boletins diários da Prefeitura de Niterói. Os números caem desde o início do ano

Na análise epidemiológica, o exame dos dados deve ser cuidadoso. Alguns especialistas, por exemplo, preferem esperar antes de concluir que Niterói (e o Brasil todo) viveu nos últimos meses uma segunda onda da doença. Acham que este é um padrão europeu. Que o Brasil se espelha no que acontece nos Estados Unidos, onde a doença nunca foi efetivamente reduzida, portanto não se poderia falar em segunda onda. Da mesma forma, nenhum profissional dirá que o pior momento ficou realmente em novembro e dezembro. Até porque o vírus continua circulando e a situação sempre pode piorar - já vimos isto antes. Mas é a melhor hipótese que temos no momento.


Qualquer que seja a análise, os profissionais da Saúde Coletiva reforçam a mesma recomendação: é preciso manter os cuidados preventivos, o isolamento, o uso de máscaras, a limpeza das mãos.