Niterói, Brasil: abre e fecha não deixa controlar a Covid

Brasil mantém, ao lado dos Estados Unidos, a mais longa quarentena da pandemia


A evolução do número de mortes, em Niterói. Fonte: Prefeitura


Seis meses de quarentena, desde a primeira morte registrada em Niterói, em março, e a cidade - como de resto o Brasil todo - ainda não conseguiu conter a circulação do coronavírus. Na última semana, o número de casos e de mortes na cidade praticamente repetiu os números anotados nas cinco semanas anteriores; portanto, desde o final de agosto. Números considerados ainda muito altos: 497 novos casos e 13 mortes, segundo os boletins diários da Prefeitura, na quadragésima-primeira semana epidemiológica.


Na verdade, Niterói, apesar de todos as medidas adotadas no início da pandemia, reproduz a situação do país, que, há seis meses, apresenta uma média diária acima de 300 mortes - cifra atingida por apenas dez países e reduzida mais rapidamente. Destas, 2,5 acontecem em Niterói. No total, em números absolutos, foram 150.709 mortes no Brasil; 446, em Niterói, segundo os registros da segunda-feira, 12. Os números parecem desiguais em termos absolutos, mas tomados proporcionalmente, pela taxa de mortes por 100 mil habitantes, o índice é de 71 no Brasil; e chega a 86, em Niterói.


O Brasil passou pelo pico da doença, registrado em maio e junho - e, em algumas regiões, se prolongando até julho -, mas estacionou num platô, como dizem os epidemiologistas, ainda muito alto de novos casos e mortes. Apenas os Estados Unidos tem desempenho semelhante, prolongando tanto tempo a pandemia. Não por acaso, foi outro país em que o governo federal não soube liderar o combate à doença e ainda confundiu a população com informações falsas sobre a gravidade do coronavírus e remédios milagrosos, como a cloroquina.


Esta semana, o jornal O Estadão procurou especialistas para tentar explicar as razões - e os impactos - de uma curva tão longa novos casos e óbitos. Um dos entrevistados foi o professor de Geografia da Unesp, Raul Borges Guimarães, que chamou a atenção para o fato de que a disseminação da doença leva em conta dois fatores fundamentais, a densidade populacional e a mobilidade urbana, com pessoas convivendo no mesmo espaço.


- Há países povoados como Japão e Coreia do Sul que desenvolveram um sistema de vigilância e controle baseado em testagem em massa e monitoramento", diz. "Isso não ocorreu no Brasil, que foi um dos países com menor porcentagem de testes. A gente ficou caminhando às cegas na pandemia."


Entre os dez países que ultrapassaram a marca de 300 mortes diárias - prossegue a reportagem - estão nações populosas e com megacidades, como Nova York, São Paulo e Nova Délhi. Mas, segundo ele, não dá para comparar com a China, com 1,4 bilhão de habitantes e grande extensão, onde a pandemia foi controlado em cerca de dois meses. "Lá utilizaram um sistema de vigilância impraticável em países democráticos, com a privação de liberdades individuais." Ainda assim, credita a longa duração da quarentena à falta de uma ação mais consistente de combate à doença.


Nelson Marconi, professor e coordenador do Centro de Estudos do Novo Desenvolvimentismo da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV), também ouvido pelo Estadão, diz que "ficar numa situação de platô durante tanto tempo dificulta o retorno de atividades. Não acredito que se tenha de liberar, o que deveria ter sido feito era um controle restrito desde o começo." E prossegue:


- Temos uma situação em que não saímos da pandemia, nem voltamos ao normal. Se tivéssemos feito uma estratégia mais intensiva no início, agora poderíamos estar com o R (nível de transmissão, contágio e mortes) muito mais baixo", continua. "Não dá para ficar seis meses em quarentena. Também não há retomada grande de emprego em função disso."


A situação de Niterói não difere da situação nacional - ainda que, vista isoladamente, na comparação como outras cidades. A cidade cumpriu metas melhores de isolamento, fez um lockdown quando o país ainda discutiu se seria necessário o isolamento e não enfrentou crise no atendimento médico e hospitalar. Mas flexibilizou as medidas quando a incidência da doença ainda era alta. Os números melhoraram, mas não o suficiente para, seis meses depois de iniciada a quarentena, tirar a cidade do alerta Máximo.


Nas últimas semanas, o Prefeito Rodrigo Neves liberou uma série de atividades que só deveriam ser retomadas quando a cidade saísse do Amarelo-2, conforme o plano de transição para o Novo Normal, definido pela própria Prefeitura e aprovado na Câmara de Vereadores. Apesar da recomendação contrária do Comitê Científico, formado por especialistas da UFF, UFRJ e Fiocruz, para assessoramento na tomada de decisões no combate à Covid, o município autorizou a volta às aulas no Ensino Médio, reduziu o distanciamento em bares e restaurantes, liberou música ao vivo, feiras, espaços de recreação, parques e atividades em academias.


Serão mais alguns dias de expectativa, uma vez que o impacto da redução do isolamento social só aparece duas semanas depois. O feriadão de 12 de outubro registrou a mais baixa taxa de isolamento na cidade, 38%, semelhante a do início da pandemia, quando a cidade registrava apenas uma morte.


Outro indicador da presença da doença, o índice de monitoramento da Covid em Niterói, voltou a subir na última semana, depois de chegar a 5,38, o mais perto que já esteve de uma mudança de estágio no plano de transição para o Novo Normal: chegou a 5,7, alavancado pelo aumento na incidência de casos. A cidade se mantém há seis semanas num mesmo patamar, um degrau ainda elevado do platô da Covid.


A evolução do número de casos, em Niterói. Fonte: Prefeitura

© 2020. A Seguir Niterói. Todos os direitos reservados. Site por Grazy Eckert e João Marcos Latgé.