Niterói em conexão com o mundo na pandemia

Jornalista conversa com pessoas de diversas cidades do mundo para compartilhar informações sobre a epidemia


Por Flávia Abranches

Flávia conectada com o mundo. Foto: Acervo pessoal


Eu jamais imaginei que vivendo em reclusão, devido à pandemia, eu teria a oportunidade de compartilhar experiências com pessoas de vários cantos do mundo. Já passei por Oceania, Ásia, África, Europa e Américas. De dentro de casa. Sou jornalista e também atuo como produtora de conteúdo digital e moro em Niterói. Mesmo fazendo home office, encontrei no distanciamento social ocasionado pela Covid-19 uma oportunidade de conectar a minha cidade com o mundo todo.


Assim que começou a quarentena, quando ainda não se falava muito sobre lives, me veio a ideia de conversar ao vivo com amigas que moram fora para trocar experiências sobre a pandemia. Elas toparam começar o projeto que produzo em meu perfil do Instagram (@flavi_abranches). Eu já utilizava a plataforma para divulgar serviços e produtos de Niterói e vi nesse espaço digital, com uma ampla rede de relacionamentos que venho criando, uma forma de ir além das fronteiras físicas impostas pelas novas condições sanitárias. Eu queria saber como outras cidades estavam lidando com a pandemia, quais medidas foram implementadas, políticas públicas desenvolvidas para amenizar os impactos econômicos e como é o comportamento de outros povos e seus governantes diante dessa nova realidade mundial. Me senti na obrigação, como jornalista, de compartilhar informações.

Comecei com duas amigas, uma que mora em Gondomar, Portugal, e outra que mora em Toronto, Canadá, cidades que já haviam iniciado o processo de lockdown e estavam mais à frente do Brasil com relação à experiência do novo coronavírus. Depois conversei com outra amiga, que mora em San Diego, EUA. Mais adiante me lembrei de outra amiga, que vive em Orlando, Flórida, EUA. Assim, gradualmente, amigos começaram a me passar contatos de amigos que moram em outras cidades e minhas lives foram se ampliando.


Isso cresceu ainda mais e de uma forma interessante. Muitas pessoas que assistem às lives de outros países passaram a se apresentar com interesse em participar. Amigos me apresentam parentes espalhados pelo planeta e confesso que eu também já fui atrás de muitas pessoas, pesquisando em perfis específicos, como foi o caso de Bruxelas, na Bélgica. Encontrei um goiano que mora lá há onze anos e topou conversar comigo. Nas lives, compartilhamos dados sobre o cenário, estatísticas e medidas de combate e prevenção, além de abordarmos os desafios da quarentena. Tenho conhecido pessoas do mundo todo e mantemos contato. Após a conversa ao vivo, eles seguem me atualizando sobre tudo, mandam imagens que publico em meu Instagram e notícias que eles acessam por lá. A audiência também pode interagir enviando perguntas e mantém o contato comigo.

Na lista de países e cidades pelas quais já passei virtualmente, o que não falta é história para contar. Desde o dia 21 de março, quando realizei a primeira live, já conversei com 39 pessoas de 39 cidades diferentes.

Conversei com o Luís Bespalko, que mora na Eslováquia, na cidade de Bratislava, um rapaz que divide o apartamento com uma pessoa que não respeita as regras de higiene em casa. O Luís não domina a língua original do país e sente pavor em adoecer e precisar ir ao hospital sozinho, sem poder se comunicar em meio à pandemia. Embora tente convencer o colega a respeitar as regras, como lavar as mãos ao chegar em casa, vive o dilema de redobrar os cuidados para se proteger ao máximo.

Eu tive a oportunidade de conversar também com a Talita Ciriaco, enfermeira em Bergamo, na Itália. Bergamo foi uma cidade atingida dolorosamente pelo novo coronavírus; o olho do furação da Covid-19 durante um tempo, e a Talita estava no meio dele. Ela trabalha num grande hospital da cidade e me relatou a dor de acompanhar vários pacientes com a doença, que ficam sozinhos no hospital, sofrendo, sem poder receber a visita de familiares. Por muitas vezes, ela precisou ser o apoio para muitos, sendo a ponte da comunicação pelo telefone com parentes das vítimas, pouco antes da morte.


A conversa na rede. Foto: Acervo pessoal


No dia 21/6, num domingo, fiz uma live com uma jornalista que mora em Lisboa, Portugal. Durante a conversa, ela me disse que a cidade havia saído do estado de emergência desde o dia 15/6 e entrado no estado de calamidade, o que possibilitou a reabertura do comércio. Shoppings, lojas, cafés voltaram a funcionar, mas com regras rígidas de distanciamento social. Porém, na segunda-feira seguinte, dia 22/6, Lisboa deu um passo atrás e voltou a apertar as restrições. O limite de reunião entre pessoas foi reduzido para no máximo dez e quem organizar ou participar de aglomerações que não sejam permitidas pode ser multado.

Quando conversei com o Kaleb, que mora na cidade de Quingdao, China, ele disse que o país demorou a fazer o lockdown e muitas pessoas, inclusive ele, se deslocaram por meio de viagens dentro e fora do país. Ele foi para Bangladesh e acabou ficando preso por lá e teve que ir para a Índia, onde ficou por um mês. Quando conseguiu retornar para a China, mesmo sem sintomas, ao chegar no aeroporto, foi levado de ambulância para casa e monitorado durante um 14 dias pelo governo local. Três vezes ao dia o visitavam para aferição de temperatura. A família do Kaleb mora no Pará e alguns parentes se contaminaram. Ele, que vive na China, nunca teve sequer sintomas. Ele diz se sentir mais seguro no país que foi o grande epicentro da Covid-19.

Uma curiosidade: quando começava o lockdown em algum país, um assunto recorrente para 80% dos participantes era o medo da falta de papel higiênico nos mercados das cidades. Cada um tem sua teoria, mas eu acredito que, por ser um produto enquadrado como essencial, as pessoas se sentiram assustadas com a possível dificuldade de poder sair para comprar e acreditaram que estocar muitos pacotes em casa fosse a solução. Álcool em gel também foi um produto difícil de encontrar em Chía (Colômbia), Washington DC (EUA) e em Montreal (Canadá). Em Montreal, inclusive, eu soube que o valor do álcool aumentou sensivelmente. Macarrão foi algo que faltou nas prateleiras dos mercados de Orlando (EUA) e Nova York (EUA).

E a volta ao mundo não para por aí. Já estou em contato com mais pessoas ao redor do globo e a viagem online continua. Eu posso dizer que essa experiência, além de convergir informações e histórias sobre a pandemia de vários pontos do planeta, também nos mantém unidos à mesma realidade. E me deixa mais segura pois, ao conhecer as ações de outras cidades pelo mundo, vejo Niterói como um município que está atuando em diversas frentes para evitar o avanço da Covid-19. Foi legal receber elogios das políticas públicas e medidas implementadas pela Prefeitura de Niterói dos convidados, em especial de Estocolmo, Bruxelas, Cusco, Nova York, Porto, Montreal e da cidade de Invercargill, na Nova Zelândia.

Mas é importante ressaltar que nem todas as observações são positivas. Os convidados têm se mostrado preocupados com a política nacional do Brasil. A visão crítica das atitudes do presidente do Brasil, na contramão dos países que estão conseguindo conduzir positivamente a pandemia, aparece constantemente, junto com as informações da imprensa internacional, que destaca o Brasil de maneira negativa, em meio à crise sanitária.

Sigo em busca de mais pessoas de cidades diferentes do planeta que topem compartilhar as experiências da pandemia comigo. Minhas próximas lives serão com moradores das cidades de Antuérpia (Bélgica) e Amsterdam (Holanda). E ainda desejo fazer a conexão com alguém do Japão. Estamos distantes, mas muito próximos graças à tecnologia.

Sobre o projeto


As 39 cidades por onde passei virtualmente: Madri e Valencia (Espanha), Gondomar, Porto e Lisboa (Portugal), Kiel e Berlim (Alemanha), Boulogne-Billancourt (França), Cidade do México e São Luis Potosí (México), Pitah Tiqva (Israel), Quingdao (China), Cidade da Praia (Cabo Verde, África), Estocolmo (Suécia), Zug (Suíça), Toronto e Montreal (Canadá), Nova York, Orlando, San Diego, Los Angeles, New Jersey e Washington DC (EUA), Trømso (Noruega), Londres (Inglaterra), Bratislava (Eslováquia), Praga (República Tcheca), Tallinn (Estonia), Bruxelas (Belgica), Dublin (Irlanda), Roterdã (Holanda), Cusco (Peru), Invercargill (Nova Zelândia), Buenos Aires (Argentina), Santiago (Chile), Sydney (Australia), Bergamo e Padova (Itália) e Chía (Colômbia).

Instagram: @flavi_abranches

YouTube: youtube.com/c/FlaviaAbranches

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