Niterói presta homenagem a Aída dos Santos, uma grande atleta do país

Atualizado: há 7 dias

Monumento pretende eternizar salto na Olimpíada de Tóquio



por Livia Figueiredo


Aída dos Santos em frente ao mural em sua homenagem, próximo ao MAC. Foto: Divulgação


“Desci do morro de Niterói e fui pro Japão”. Assim, como se tivesse sido fácil, Aída dos Santos já resumiu a façanha de ter sido a única mulher brasileira negra a participar dos jogos olímpicos de Tóquio, em 1964. Filha de um pedreiro e uma lavadeira, a heroína do atletismo brasileiro embarcou sem lenço, sem técnico, sem uniforme e sem qualquer ajuda. Chegou lá, deu um pulo de 1,74m e foi aos céus, voltando com o quarto lugar em salto em altura. Uma cena que o escultor Rodrigo Pedrosa quer eternizar, com uma estátua.


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Aída nasceu no Morro do Arroz, no Centro, lá no alto do complexo do Morro do Estado. Aos 83 anos, vive em Niterói desde então, no Fonseca. E continua a receber homenagens depois de 56 anos da conquista em Tóquio - porque claro que, depois da olímpica coragem de embarcar sem estrutura, a medalhista mundial foi recebida na volta do Japão até com banda de música no aeroporto.


A primeira das homenagens, um mural de 30 metros de comprimento, foi inaugurada nesta quinta-feira (15), na subida da Avenida Engenheiro Martins Romeo, quase em frente ao MAC. No mesmo dia era comemorado o aniversário de sua participação nas Olimpíadas, em que fez história alcançando a quarta posição no salto em altura.


Do artista plástico Marcelo Lamarca, o projeto tem Aída como principal homenageada. Patrocinado pela construtora MRV, o mural faz parte do projeto “Elas transformam”, que apoia atletas do sexo feminino de diversas modalidades. Para concorrer ao patrocínio da MRV, as atletas tiveram que passar por uma triagem. Os principais critérios de seleção foram as histórias de superação e a força da trajetória de cada uma.


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- Por ter sido a precursora das atletas olímpicas do Brasil e por toda a sua garra e coragem, Aída é exemplo e inspiração para essas e tantas outras atletas. A sua conquista foi o melhor resultado individual de uma atleta brasileira nos Jogos Olímpicos durante 32 anos – conta a Coordenadora de Marketing Esportivo da MRV, Carolina Trivellato Fonseca.


Mural, que faz parte do projeto “Elas transformam” da MRV, é do artista Marcelo Lamarca / Foto: Divulgação


Segundo o artista, a ideia do projeto foi prestar homenagem a atletas olímpicas do sexo feminino que têm histórias que merecem ser reverenciadas. Encomendado pela MRV e com autorização municipal, o artista utilizou a técnica do grafite, usando o spray como material.


- Foram nove dias intensos para que o mural ficasse pronto. Foi um desafio, pois o muro tem uma textura de pedra e isso dificulta muito o trabalho. Mas, ao mesmo tempo, foi um aprendizado muito grande, e a sensação é maravilhosa. A arte traz a força e a importância da representatividade da atleta na história do esporte brasileiro. Eu fiquei muito honrado de ter sido convidado para fazer essa homenagem para essas atletas, que possuem trajetórias tão marcantes. A repercussão do público que passou pelo local também foi incrível – conta Lamarca.


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Emoção maior: Aída compareceu à inauguração da obra, na quinta-feira, e também não escondia a alegria com a homenagem.


Niterói só tem esculturas masculinas


Estimulado pela carência da representação feminina na cidade, o artista plástico Rodrigo Pedrosa também planeja uma homenagem a Aída. Ele ainda pedirá autorização da Prefeitura e confessa ser um desejo de longa data fazer o primeiro monumento da cidade em homenagem a uma mulher. Como forma de prestigiar a atleta, Rodrigo Pedrosa observou, nas suas pesquisas, que Niterói não tem um monumento que represente uma mulher.


O artista já havia feito duas esculturas na cidade, sendo a primeira a de Zumbi dos Palmares, na Cantareira, a pedido da Prefeitura, e a segunda, também fruto de uma encomenda municipal, o busto do desembargador e escritor Jorge Loretti, na Praça César Tinoco, no Ingá.


- Isso é reflexo do machismo histórico no Brasil e até no mundo. Se você for a galerias de arte e museus, verá que há pouquíssimas artistas mulheres. Não valorizar trabalhos feitos por mulheres é um problema que persegue a humanidade. Já tinha esse pensamento há um tempo, mas quando vi matéria em um jornal contando a história da Aída dos Santos, tive um estalo instantâneo. A primeira mulher a ser representada e homenageada em Niterói tinha de ser ela. Por toda a sua história, sua luta e suas conquistas – conta o artista plástico.


Se conseguir autorização do poder público, Pedrosa ainda terá de definir o local onde a obra poderá ser instalada. A vontade do escultor é que ela fique no Horto do Fonseca, na Zona Norte, onde Aída mora com a família. Para contemplar seu projeto, o artista plástico criou uma campanha de crowdfunding, cujo objetivo é arrecadar fundos que viabilizem a fundição em bronze.


- Meu sonho é fazer a Aída de corpo inteiro, saltando e fazendo o movimento que ela fez na Olimpíada e tudo mais. Caso eu não atinja a meta, farei o busto, esse 100% garantido. É só uma questão de autorização da Prefeitura. Quero fazer ele ainda em dezembro e aproveitar que a Aída está com 83 anos, cheia de saúde. Quero prestar a homenagem ainda em vida, porque ela merece – revela o artista, emocionado.


Criado e nascido em Niterói, Pedrosa conta que se sente muito honrado por realizar uma homenagem a uma mulher com tanta potência e de tanto valor como Aída. O projeto de crowdfunding já foi lançado e o público pode colaborar com quantias diversas. As recompensas variam de acordo com a contribuição. Para participar, basta clicar aqui.


O artista plástico Rodrigo Pedrosa presta homenagem à atleta Aída dos Santos / Foto: Divulgação


Pedrosa tem formação de Designer pela UniverCidade e MBA em Marketing pela Fundação Getulio Vargas (FGV). Aos 19 anos, conheceu os escultores Danilo Brito, que foi seu sócio durante 16 anos, e José Luiz Benício, que o levaram para o Barro Oco, um curso de modelagem em Argila, em Ipanema, onde se especializou na técnica.


Aída professora


Aída passou sua infância no Morro do Arroz e teve de batalhar muito para estudar e conciliar a vida profissional com a acadêmica, além dos treinos. Com três graduações no currículo (Geografia, Educação Física e Pedagogia), ela ia às aulas de manhã, trabalhava à tarde e treinava à noite. Chegou a ter uma passagem pela UFF, atuando como professora de Educação Física, uma das suas maiores especialidades. Mãe da jogadora de vôlei Valeskinha, ouro nas Olimpíadas de Pequim em 2008, Aída fundou um instituto para promover a inclusão social por meio do atletismo e do vôlei.



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