No Brasil, a sociedade precisa se aproximar do saber científico para enfrentar a Covid

Segundo especialista da Fiocruz, a descrença de parte da população na ciência atrapalhou o combate ao Coronavírus


Por Maria de Lourdes, médica especialista em Saúde Pública da Fiocruz

Coordenadora da Assessoria Clínica da Fiocruz, Maria de Lourdes Maia / Foto: Divulgação


Desde que se teve conhecimento do primeiro caso reportado por infecção por Sars-Cov-2, em dezembro de 2019, o mundo tem passado por muitas mudanças, algumas novas, outras que já vinham sendo observadas e vieram para ficar, e algumas que ainda ficarão conosco por um bom tempo.


Possivelmente se o alerta mundial tivesse sido mais enfático no início de 2020, quando ocorrem várias celebrações como o carnaval, ano novo e período de férias, com maior trânsito internacional de pessoas em diferentes partes do mundo, talvez estivéssemos em outra situação. Ainda assim, há de se considerar que nem todos os países responderam e/ou vêm respondendo com políticas públicas adequadas de enfrentamento à pandemia. Obviamente, os cenários apresentados nesses países também são desiguais. No Brasil, a distância entre o saber científico e a sociedade, a descrença de parte da população sobre a ciência, ocasionou oportunidades para notícias falsas e desinformação, contribuindo com as dificuldades para coordenação do controle da pandemia.


Além disso, em alguns países como os Estados Unidos, Brasil e Índia, o quadro é ainda mais crítico tanto em número de casos quanto de mortes. Embora estes países tenham condições econômicas, aspectos sociais e institucionais diferentes, representam uma parcela significativa da população mundial e possuem dimensões continentais, com diversas peculiaridades geográficas, dificultando as estratégias de combate à Covid 19. E não menos importante, muito pelo contrário, a progressiva diminuição das ações de solidariedade e do sentimento de coletividade, principalmente nos países ocidentais, tornou uma pandemia causada por uma doença sobre a qual pouco se sabe, uma crise sanitária sem precedentes na história da humanidade.


A pandemia também tem deixado uma mensagem muito clara, se é que o mundo ainda não se deu conta disto: as doenças são globais e afetam qualquer indivíduo independente de crença, status social, conhecimento, ou outro fator. Quem sabe, esse novo olhar não traz uma mudança em relação a outras questões, que infelizmente são localizadas e relacionadas à pobreza e outros determinantes sociais. Muitas pessoas ao redor do mundo não têm nem acesso à água para lavar as mãos e produtos de higiene, muitos não têm o que comer ou onde morar. Estas são as pessoas mais vulneráveis e precisam de mais atenção. Seria muito bom que todos tivéssemos como mantra: “ninguém será deixado para trás” (campanha da OMS com objetivo de alcançar as ODS - Objetivos de Desenvolvimento Sustentável). Mas é claro que isso requer um esforço de governos, de empresas e de toda a sociedade como um todo.


Mas uma retrospectiva da pandemia não se restringe apenas à questão geográfica e social, apesar da representatividade e importância da situação. Estamos falando de uma crise sanitária que têm provocado mudanças em vários aspectos da vida cotidiana nos quatro cantos do mundo.


O quadro pandêmico tem deixado um saldo negativo que não se pode contestar. Aumentou o desemprego, a miséria, as iniquidades de uma forma geral. Na saúde, um cenário assustador, com muitas perdas de vidas em 1 ano, às vezes com famílias inteiras acometidas pela doença e muitas perdas pessoais.


A pandemia veio como um antecipador do futuro e trouxe mudanças que transformaram a forma como nos relacionamos, trabalhamos e vivemos. Tivemos que aprender a conciliar trabalho, estudo, família, tudo num mesmo espaço. O ensino à distância que já existia, mas sofria com a rejeição por parte de alguns, teve que ser colocado em prática no processo educacional. Também tivemos que nos adaptar com a virtualização da vida social e dos relacionamentos e incorporar o aprendizado de tecnologias que já existiam, mas agora parecem ser uma obrigatoriedade para todos. São mudanças que já vinham acontecendo, mas a pandemia as tornou mais reais e imediatas. Uma realidade que certamente não está acessível para todos, e se antes já tínhamos muitos desafios de inclusão e equidade, estes, agora, são ainda maiores.


Outra prática que a sociedade, principalmente a ocidental, terá que se acostumar, é o uso de máscara e outros comportamentos, não apenas por conta da Covid-19, mas pela necessidade de manter o estado de prontidão para outras emergências. Este estado de prontidão não é confortável e/ou possível para todos. Porém, se buscarmos coletivamente soluções, poderemos induzir essas mudanças de hábitos que poderão minimizar os efeitos da pandemia, e na direção de maior equidade.


Outro ponto a ressaltar são os efeitos da pandemia sobre a saúde mental. Várias pessoas têm também sofrido com depressão, ansiedade e falta de esperança. Mesmo aquelas que não foram acometidas pela doença ou tiveram parente ou amigo diagnosticado com Covid-19, as sequelas deixadas pela pandemia serão de longo prazo, e todos nós teremos que desenvolver uma dose maior de empatia, generosidade e compaixão, para que possamos viver em coletividade de maneira mais saudável.


Este tempo pandêmico também reeditou um passado em que a população tinha medo das doenças e buscava a vacinação. Nos faz relembrar que várias doenças foram evitadas com a vacinação, aumentando a esperança de vida e a queda da mortalidade infantil. Antes do aparecimento da Covid-19, o Brasil estava aturdido com as baixas coberturas vacinais, fato que não estávamos acostumados e a discussão passava pela busca em querer entender essas razões. Seriam as fakes News sobre as vacinas ou a ausência das doenças, pela erradicação/ eliminação/ controle das mesmas por meio das vacinas? Este fato teria ocasionado o relaxamento por parte da população em manter o calendário vacinal atualizado. Com certeza não foi por falta de vacinas nos postos de saúde. Os mesmos postos que hoje vivem com filas em busca pela vacina, mas agora, para a Vacina contra Covid-19.


Neste momento, temos a certeza de que para vencer este inimigo invisível a olho nu, mas bem visível nas mortes que a cada dia chegam mais perto de nós, seja pela perda de um parente, um amigo ou anônimos que só sabemos pelos crescentes números divulgados, nossa principal arma é a vacinação! A vacina torna-se um instrumento preciso de combate coletivo e não só individual, pois precisamos do maior número possível de pessoas vacinadas, atingindo uma cobertura vacinal em torno de 70% a 80%, para alcançar uma imunidade coletiva, segundo a OMS. Portanto, muito além da prevenção individual, precisamos pensar na sociedade como um todo. Mas, enquanto não temos vacinas suficientes para vacinar toda a população acima de 18 anos (só temos estudo clínicos a partir dessa faixa etária), o Programa Nacional de Imunizações teve que escalonar as prioridades para prevenir quadros graves da doença que podem levar a óbitos.


Nossa esperança é que isso tudo acabe o quanto antes, mas infelizmente não temos todas as respostas e ainda há muito a se conhecer sobre a doença. Mas sabemos que manter as medidas não farmacológicas (uso de máscara, distanciamento social, hábitos de higiene e etc) são procedimentos imprescindíveis para se evitar a doença. No Brasil, a aproximação da população com a ciência, assim como a credibilidade na vacina, também precisa ser fortalecida. Levar ao conhecimento e reconhecimento por parte da sociedade que a produção nacional de vacinas para Covid-19 só está sendo possível pela existência de laboratórios públicos dedicados a atender demandas de saúde pública, é crucial e essencial para que possamos ter a sustentabilidade e acesso equitativo da vacina para população. Para isso, é necessário dialogar com a sociedade, aproveitando a oportunidade não só para assegurar a confiança da população na vacina para Covid-19, mas também para outras doenças em que temos visto a queda da cobertura vacinal. Como eu sempre digo, é dar o giro positivo.


Maria de Lourdes de Sousa Maia é Coordenadora da Assessoria Clínica da Fiocruz. Médica especializada em saúde pública, foi Coordenadora do Programa Nacional de Imunizações (PNI) do Ministério da Saúde por dez anos.