'O último avestruz': pesquisador relata como o Brasil é visto no mundo, na pandemia

Pesquisador brasileiro, que faz doutorado no King's College, em Londres, Daniel Buarque fala sobre os danos da pandemia à imagem do país


Por Geraldo Cantarino, de Surrey, Inglaterra




Em artigo recente, o jornalista e pesquisador brasileiro Daniel Buarque afirmou que o Brasil acelera na contramão e caminha propositalmente para um abismo, que vai levar à morte de dezenas de milhares de brasileiros. Muitos poderiam ser salvos se o país adotasse uma política que seguisse as recomendações da ciência. Autor do livro "Brazil, um país do presente", Buarque faz doutorado no Instituto Brasil do King’s College, em Londres, onde aprofunda sua pesquisa sobre a imagem internacional do “país do futuro”.


Em entrevista para o A Seguir: Niterói, Daniel Buarque conversa com o jornalista Geraldo Cantarino, niteroiense radicado no Reino Unido, sobre a crise sanitária no Brasil e a imagem que se tem dela do exterior.


O pesquisador Daniel Buarque, no lançamento do seu livro "Brazil, um país do presente." Foto: Acervo pessoal


A Seguir: Niterói: Qual é a imagem do Brasil no exterior neste momento?


DANIEL BUARQUE - O Brasil é visto como o último dos “avestruzes”. A analogia foi traçada pelo professor Oliver Stuenkel no começo da pandemia, quando o país era um dos líderes de um grupo de nações que tentavam ignorar a pandemia, negar a ciência e, como avestruzes, enfiavam a cabeça dentro da terra para não ver o que acontecia. Com o tempo, os EUA e outros países que também faziam isso foram mudando suas políticas, mas o Brasil parece ser o último país a continuar no caminho errado na luta contra Covid-19. E o mundo vê que o país começa a pagar o preço por isso, com uma das piores situações da pandemia. Por mais que o problema de saúde seja global, no Brasil ele tem um fator político importante, que acaba empurrando o Brasil para o abismo. Escrevi um artigo sobre isso recentemente, apontando como o Brasil está na contramão, e enquanto Reino Unido e EUA, por exemplo, já vislumbram o fim da pandemia, vivemos o pior momento dela . A imagem, portanto, é muito negativa, marcada pela péssima política que leva ao descontrole da pandemia – o que acaba levando ainda a problemas econômicos.


Como a Europa ou o Reino Unido está vendo a crise sanitária no Brasil?


- Imagino que essa imagem que descrevi acima seja muito generalizada, inclusive no Reino Unido e na Europa. A crise sanitária, no fundo, é o que tem pautado o olhar externo em relação ao país. Então o que se vê é a crise descontrolada e a sucessão de decisões equivocadas do governo, que nega a ciência, rejeitou apostar em vacinas e agora vê o país mergulhar no caos.


O Brasil já se tornou um país pária, como alguns comentaristas sugerem, em função da alta taxa de transmissão e morte pelo coronavírus?


- Por mais que esse pareça o caminho escolhido pelo governo de Bolsonaro, acho que isso é algo que leva muito tempo para acontecer. O país está se isolando, está perdendo prestígio, mas acho exagero falar que ele já tenha se tornado um pária. Isso é evidente no fato de que o Brasil continua com todos os contatos internacionais, embaixadas funcionando plenamente e canais de comunicação abertos. O problema é que o país tem usado mal esses canais, e tem criado disputas internacionais desnecessárias (como no caso da China). Então, está com menos força global e mais isolado, mas não diria que já é um pária. Isso é algo que pode se consolidar de verdade se houver uma continuidade de longo prazo das políticas atuais ou um rompimento das regras institucionais no país.


Desde o dia 15 de janeiro, voos diretos do Brasil para o Reino Unido estão proibidos. Visitantes que estiveram ou transitaram pelo Brasil nos últimos 10 dias não podem entrar na Inglaterra. Cidadãos britânicos, irlandeses e de outros países com direito de residência no Reino Unido que chegam à Inglaterra provenientes do Brasil são obrigados a fazer quarentena forçada em hotel. Por sua vez, o Brasil também suspendeu, temporariamente, todos os voos provenientes do Reino Unido. Como você vê essas restrições e que tipo de impacto isso pode ter a médio ou a longo prazo na imagem do Brasil? Você acha que o Brasil ficará associado ainda por muito tempo a esse quadro definido pela Fiocruz como o maior colapso sanitário e hospitalar da história do país?


- Por mais que o Brasil seja um dos países mais isolados pela expansão e descontrole da pandemia, acho que esse processo atual diz pouco em relação à imagem do país em si. Ao longo do último ano foram tomadas decisões assim em relação a vários países, e mesmo atualmente o Brasil é o 2º país com mais barreiras de entrada no exterior por conta do coronavírus – ficando atrás do próprio Reino Unido. Isso tudo me parece muito temporário, e pode mudar rapidamente no caso de novidades em relação ao vírus, tanto no Brasil quanto nos outros países. Se o Reino Unido conseguir avançar na vacinação, por exemplo, logo inverterá a situação e poderá ser um dos países mais aceitos. No caso do Brasil, isso pode vir a ser um problema mais para a frente, dado que não estamos no caminho de resolver a situação, que pode se prolongar. Esse impacto só será sentido no longo prazo, entretanto, e também vai depender de como vão estar os outros países do mundo.


De que maneira o descontrole da pandemia afeta ou poderá afetar as relações diplomáticas ou comerciais do Brasil com outros países?


- Num primeiro momento, acho que a pandemia tem um potencial menor de afetar as relações diplomáticas e comerciais do Brasil do que as políticas de destruição ambiental ou a falta de apego do governo a normas e instituições democráticas. Isso porque a pandemia afeta o mundo todo, e vários outros países já viveram momentos de descontrole. Os EUA tiveram uma situação pior do que a atual do Brasil há poucos meses, e conseguiram reverter. A Itália passou por coisa parecida, e até a Alemanha está vendo casos crescerem atualmente. Então, não vejo a pandemia como o maior problema para a diplomacia brasileira. No longo prazo, entretanto, se o Brasil continuar sem fazer nada para mudar o rumo do descontrole da pandemia, se o Brasil se isolar como único lugar com pandemia descontrolada no mundo, aí, sim isso pode acontecer. Mas não sei se isso é muito provável. Até porque, bem ou mal, as vacinas estão chegando, e até o fim do ano vão proteger pelo menos os grupos de maior risco, o que pode aliviar essa grave crise atual (por mais que não resolva o problema).


O Brasil já estaria sendo visto hoje como uma ameaça global ao esforço de controlar a pandemia por se tornar um celeiro de novas variantes do vírus?


- Esta é uma percepção externa crescente. Fala-se sobre o risco de a vacinação lenta e a propagação do vírus criarem novas variantes que podem ameaçar o mundo. Mas ainda parece um tanto especulação. A preocupação é válida, e o Brasil precisa levá-la em consideração na hora de tomar suas decisões em relação ao combate à pandemia. Mas temos que ver que hoje há variantes de outros países também, e a pandemia continua atingindo muitas partes do mundo. Então, não temos como saber com certeza o que vai acontecer. Se um cenário assim se consolidar, aí é possível que o Brasil sofra com um isolamento ainda maior e possa ser tratado cada vez mais como um pária do mundo – ou pode acontecer o contrário, e se formar um esforço global para ajudar o Brasil a combater a pandemia com a intenção de reduzir os riscos para o mundo todo. É difícil saber o que vai acontecer.


Geraldo Cantarino é jornalista, nascido em Niterói, formado pela Universidade Federal Fluminense. Tem Mestrado em Documentário para Televisão pelo Goldsmiths College, da Universidade de Londres, Trabalhou no Globo Ciência, da Rede Globo, e na TV Bandeirantes. Na Inglaterra, atuou como fotógrafo e tradutor. É autor de quatro livros, entre eles "A ditadura que o inglês viu", que reúne documentos sigilosos do arquivo oficial do Reino Unido, em Londres, que revelam a visão britânica dos primeiros 15 anos da ditadura no Brasil. (www.cantarino.com)

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