O desafio de focar no estudo em meio à pandemia em Niterói

Para aluna que se prepara para o Enem, momento é “inquietante”


Por Eduarda Iennaco


Hora de estudos remotos: ansiedade ainda maior na pandemia


Não é novidade a ansiedade que o Enem provoca nos estudantes, sendo assunto repetido a cada nova edição mesmo em tempos de normalidade. Agora, não bastassem a expectativa natural e o receio do insucesso, somam-se as dificuldades dos novos tempos de pandemia e a instabilidade político-institucional.


Temos as dificuldades próprias do funcionamento da federação e um Ministério da Educação a medir forças com o Parlamento, dividindo a agenda política em meio à pandemia, o que parece ampliar os obstáculos e os desafios. Conciliar os estudos com as demais atividades nesse cenário tem sido um enorme desafio pra mim, e certamente para a maioria dos estudantes que farão o Enem.


Inicialmente, prevendo o tempo que ficaríamos em casa, o curso particular em que estou matriculada começou a gravar aulas e a propor outras formas de se manter próximo dos alunos. Tentar manter as aulas nos dias e horários “normais” foi uma das estratégias que usaram para não sermos tão afetados. Porém, mesmo com esse empenho, e com o privilégio de acesso à internet e a um ambiente físico confortável, não há como evitar a perda de rendimento e a desconcentração.


A ausência dos professores e monitores no cotidiano impede que minhas dúvidas particulares sejam esclarecidas, pois os professores não conseguem atender todos nós de prontidão. Fora isso, em casa, perde-se o clima de estudos em que todos buscam o mesmo objetivo e a rotina absorve outras tarefas, inclusive provocadas pelas incertezas socioeconômicas que a todos atingem.


Outra questão complicada é o aspecto psicológico, que tem sido muito afetado. Encontro muita dificuldade em me manter focada nos estudos e nos objetivos, diante de algo tão sério como o crescente número de mortos e infectados. Estudar num contexto pandêmico, mantendo-me serena e equilibrada tem sido o maior desafio. Vejo-me a todo momento na contingência de readaptação de meus programas de estudo, nem sempre com a produtividade e o resultado que esperava.


Às vezes há só o desânimo e o desafio de me reinventar a cada dia, sem saber se o novo jeito é o melhor ou não. Não é raro me sentir constantemente insegura em relação ao futuro e ao Enem. Mesmo com a recente decisão de adiamento, todo esse processo foi e tem sido muito desgastante, por vezes até revoltante diante de algum descaso demonstrado na gestão de informações, principalmente a partir do próprio MEC. Assistir ao descaso com que a questão do ensino está sendo tratada é inquietante, uma sensação de impotência e solidão.


Diante disso, fica ainda mais evidente para mim a importância da educação de qualidade e a necessidade de maior valorização dos profissionais da educação, que têm se desdobrado nesse processo, muitas vezes sufocados pelo fantasma do desemprego e da implementação atropelada do ensino remoto, enfim sobrecarregados de todos os lados.


Espero que consigamos sair dessa engrenagem como pessoas melhores, mais solidárias e com um olhar mais atento à coletividade. Não cabe mais olhar o mundo de forma singular. Há momentos em que só a crença numa sociedade mais fraterna nos serve de amparo a perseverar nos estudos e renovar a esperança de que o ambiente de competição e pressão em torno do resultado no Enem será só mais um momento difícil que teremos de superar, como esses tempos estranhos, na expectativa de dias melhores.

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