O risco da Covid-19 no trabalho nas padarias em Niterói

Micaele trabalha como caixa em padaria de Icaraí e espera um mundo melhor


Por Silvia Fonseca


Micaele no caixa da padaria no Jardim Icaraí. Foto: Gustavo Stephan


Micaele Brandão tem 19 anos, trabalha como caixa numa padaria na Rua Ministro Otávio Kelly, no Jardim Icaraí, e mora no Cubango. Não parou de trabalhar um dia sequer desde o começo da pandemia e do isolamento social em Niterói, em março.


O que mudou foi que a loja, que antes fechava às 22h, agora fecha às 21h. E, principalmente, os cuidados com a prevenção para evitar infecção pela Covid-19 levaram Micaele a evitar o transporte público e ir e voltar para casa, todos os dias, a pé. Mesmo saindo do trabalho às 21h, ela vai andando, por cerca de 50 minutos, até sua casa no Cubango.


- Perigo sempre tem, mas busco andar rápido e me concentrar em chegar logo em casa - diz ela, que mora sozinha, cursa o terceiro ano do ensino médio, é solteira e não tem filhos.


Também no trabalho Micaele é precavida, usa máscaras, lava as mãos toda hora, tenta se cuidar para evitar contaminação. Fora esses rituais que a pandemia impôs a todo mundo, pouca coisa mudou no trabalho dela. Ou melhor: no reconhecimento das pessoas ao trabalho dela.


- Para ser sincera, rara são as vezes que sinto meu trabalho valorizado. Então, em tempos normais e em época de pandemia, sinto que permanece a mesma coisa.


Andando os 50 minutos a pé para voltar para casa, ou mesmo quando vai de bicicleta, Micaele acalenta “três grandes vontades”, que prefere não chamar de sonhos. É ela quem conta:


- Me estabilizar, poder influenciar o mundo através da minha arte e que todo cidadão trabalhador seja respeitado e tratado da forma que merece – enumera.


Se ela já faz algum trabalho artístico? Sim, ela escreve. Escreve letras, e quer que sejam musicadas um dia.


Abaixo, uma letra que Micaele fez pensando num ritmo de rap. Ela ainda não decidiu o título que dará. Mas o ponto final já está escrito, sem interrogação, com “quando esse conjunto de desgraça vai chegar ao fim”.


Não conte comigo pra nada


vocês só querem ver derrota


Tupac falou há 30 anos atrás


e se faz presente no agora


tá faltando lápis na escola


e remédio no hospital


te garanto


que o RJ não poderia estar mais infernal


cidade maravilhosa


o que tem a me oferecer?


assaltos, roubos


e funcionários sem receber


me diz então quando é que vai mudar?


quando o povo decidir votar com consciência


vivemos num país onde


não tem ruim e melhor


temos que escolher quem é menos pior


a favela chora todos os dias


mais um sangue escorrendo nas ruas da periferia


é todo dia!


quando que as vidas se tornarão valiosas?


ta achando q valioso é só jóia?


se toca nóia


só tô vendo regresso


só lei absurda


saindo do congresso


não consigo viver em paz com minha família


pode juntar todas as favelas...


que ainda sim tem menos bandidos do que em Brasília


eu não tolero ganância em cima de trabalhador


que pega ônibus lotado


trânsito engarrafado


e ainda sim ter que lidar com a dor


de morar na favela


e passar o dia fora pensando


''quando eu chegar será que meu filho ainda vai tá vivo?''


é triste pensar assim


quando que esse conjunto de desgraça vai chegar ao fim

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