Risco da Covid em Niterói: conheça os dados que mais preocupam os epidemiologistas

Atualizado: Abr 8

Rápida transmissão da doença, lotação dos hospitais e taxas de letalidade aparecem entre os fatores que colocam Niterói em alerta



Os epidemiologistas costumam ter cuidado na hora de analisar os dados da Covid porque a observação de uma informação isoladamente pode gerar distorções. Mas quando a doença avança no Brasil todo, com o maior índice de novos casos e mortes de todo o planeta, a leitura é unânime e sem engano: o país vive o pior momento da pandemia, sem que a vacinação avance o suficiente para quebrar o contágio da doença.


A evolução da doença, no entanto, não se dá de forma uniforme em todo o Brasil. Estados como Amazonas, que viveram o drama do colapso hospitalar diante do surgimento de novas variantes do coronavírus, mais contagiosas e graves, hoje apresentam indicadores em queda. Cidades como Belo Horizonte que demoraram a experimentar a força da doença hoje vivem grave emergência. O Rio de Janeiro, fortemente castigado nos primeiros momentos da pandemia e depois de enfrentar duas ondas da doença, foi o último a se somar ao mapa de alerta máximo do Brasil.


Diante destas particularidades, e confrontado com o noticiário do Brasil e do estado do Rio, o morador de Niterói muitas vezes se confunde, sem conhecer os números da cidade e a avaliação dos riscos. Não pode se enganar, porém, sobre a gravidade da doença, que ameaça levar ao colapso o sistema hospitalar. Para facilitar o entendimento, o A Seguir: Niterói recorreu à ajuda de especialistas e às informações do Comitê Científico da cidade para listar em cinco tópicos as razões para se respeitar o isolamento. Conheça:


I - Novas variantes do coronavírus, mais contagiosas e mais graves


Uma das razões para o rápido crescimento da doença é o surgimento de novas variantes do coronavírus. Isso aconteceu em função do prolongamento da doença, em todo o mundo, que permitiu a evolução do vírus. A OMS aponta três mutações como Variantes de Preocupação: a do Reino Unido, a da África do Sul e a do Brasil - a variante P 1, identificada pela primeira vez em Manaus, no fim do ano passado, quando o atendimento médico-hospitalar entrou rapidamente em colapso. A nova cepa é mais contagiosa e provoca danos mais graves ao organismo do que o vírus original.


A variante P 1 já foi identificada em diversos estados brasileiros. No Rio, apareceu em 83% das amostras testadas. Não há testes de laboratório que comprovem a sua presença em Niterói. Mas, de acordo com o Secretário de Saúde Rodrigo Oliveira, todas as características do novo surto da doença indicam que estejamos enfrentando a P 1. Entre estas características, aparecem a alta taxa de contágio, o rápido desenvolvimento da doença, a gravidade que adquire, comprometendo o sistema respiratório em pouco tempo, e o fato de levar para a UTI não apenas os doentes mais idosos e com comorbidades, mas também grupos mais jovens.


Número de mortes em Niterói, por semanas epidemiológicas. Curva mostra o aumento dos óbitos neste ano. Fonte: boletins da Prefeitura de Niterói


O dado que melhor ilustra o rápido avanço da doença é que o número de mortes no Brasil dobrou em apenas um mês. Saímos de 2 mil mortos por dia no mês passado para 4 mil mortes. É o que os epidemiologistas chamam de crescimento exponencial. A pesquisadora Margareth Dalcomo da Fiocruz calcula que ainda este mês poderemos chegar a 5 mil óbitos por dia.


II - Estatística de novos casos não revela a gravidade


O avanço da doença às vezes é questionado na cidade, diante do baixo registro de novos casos. Especialmente por empresários contrários às medidas de isolamento social, que impactam o funcionamento do comércio, bares e restaurantes. Em dezembro, no pico da segunda onda da doença, Niterói chegou a identificar 1.500 novos casos em apenas sete dias. No último mês, os números se mantêm em torno de 400 casos por semana, abaixo da média registrada em todo período da pandemia.


Epidemiologistas acreditam que este resultado decorre de alguma falha no sistema de aferição, talvez pela redução do número de testes, até pelo cansaço da população diante do longo prolongamento da doença. A Prefeitura sustenta que não diminuiu a testagem - e a cidade já aplicou mais de 200 mil testes desde o ano passo. Mas a estatística não é compatível com o aumento dos testes nos laboratórios privados e nas farmácias. O A Seguir: Niterói mostrou que o posto de atendimento do Laboratório Sérgio Franco na rua Presidente Backer tem ficado cheio, diariamente, com gente na calçada, com frequência.


Na abordagem integrada dos indicadores, para os epidemiologistas, prevalece a informação irrefutável do aumento das internações hospitalares.


III - Capacidade de atendimento dos hospitais


A nova onda da Covid em Niteró tem levado ao limite a capacidade de atendimento hospitalar da cidade. De acordo com as últimas informações da Secretaria Estadual de Saúde, a ocupação da rede do SUS chega a 84% dos leitos reservados para doentes de Covid e 92% das UTIs. Na rede particular, os números são bem parecidos, de acordo com os boletins do SINDHLESTE.


Número de internações informado pela Prefeitura, calculado pelo pico por semana epidemiológica. Recordes sucessivos em 2021

A cidade tem capacidade de ampliar a rede de atendimento, mas essa capacidade é limitada. Os hospitais particulares reportaram, na semana passada, que estavam enfrentando dificuldades para conseguir médicos, equipamentos e insumos para a ampliação das vagas hospitalares. As equipes médicas estão exaustas e desgastadas pela longa duração e a gravidade da pandemia e as baixas têm sido frequentes. Profissionais que trabalhavam em dois ou três hospitais estão sendo obrigados a reduzir a sua jornada.


A doença tem exigido sobretudo vagas de UTI. O Secretário Rodrigo Oliveira mostrou recentemente, que, em dezembro, para cada 1.000 casos de Covid, aconteciam 57 internações em unidades intensivas; agora, a proporção é três vezes maior, 175 casos em 1.000.


Os três meses do ano já respondem por mais de 30% de todas as mortes ocorridas na cidade durante toda a pandemia.

IV - Disputa por recursos: faltam de leitos, médicos, equipamentos, oxigênio


Niterói tem uma rede hospitalar qualificada, maior que a maioria das cidades de seu porte - herança do tempo de capital do estado. É a maior depois do Rio e atende moradores de outras cidades, da Região Metropolitana II e de outras regiões, como a Serrana e até o Norte Fluminense. Tem também uma rede privada bem dimensionada, com hospitais do porte do CHN e da Rede D'Or. Mais da metade da população tem plano de saúde, o que explica o tamanho da rede. Mesmo assim nem toda essa oferta de leitos - mais de 730 no total - tem sido suficiente para atender as demandas da cidade.


O problema se agrava porque todas as cidades vizinhas apresentam o mesmo problema. De certa forma, as populações vizinhas competem pelas mesmas vagas. No caso da rede pública, o Estado estabeleceu um atendimento centralizado, encaminhando os doentes para as vagas disponíveis, não importa a cidade de origem. Desta forma, hospitais de Niterói recebem moradores de outras cidades. No cartório de Piratininga, os registros de óbitos aumentaram consideravelmente, em função da presença do Hospital Oceânico, e chama a atenção dos funcionários a quantidade de certidões emitidas para moradores de outras cidades.


A competição não se dá apenas por vagas de hospital, mas também por recursos médicos. Têm sido frequente no noticiário o drama de cidades que não contam com oxigênio para atendimento nas UTIs. A produção está no limite da capacidade e o Ministério da Saúde tem sido chamado para atender pedidos de oxigênio. Também faltam remédios, especialmente anestésicos usados na intubação dos doentes. Niterói tem recorrido à Secretaria Estadual de Saúde para assegurar o fornecimento destes insumos.


V - Quanto tempo dura?


Outro motivo de preocupação em relação a Niterói é a curva da doença, nesta nova etapa. Cidades como São Paulo, por exemplo, começaram a viver a explosão dos casos e mortes em fevereiro. Nesta época, os indicadores da cidade apontavam mais para uma melhoria no estágio de risco do que para um agravamento do quadro. Niterói exibia um indicador-síntese em torno de 6: permanecia no estágio de risco Amarelo 2, mais perto de evoluir para o Amarelo 1, do que de chegar a 10 e passar ao alerta laranja. Isso aconteceu há duas semanas. Primeiro o número chegou a 10,50. Agora está em 11,88. E as mortes começam a aparecer: os boletins epidemiológicos da Prefeitura registram nas duas últimas semanas, respectivamente, 40 e 33 mortes - os piores número de toda a pandemia


Foi neste cenário que a Prefeitura decretou o período de emergência, em ação conjunta com a Prefeitura do Rio de janeiro. Os Comitês Científicos das duas cidades advertiam que se não fossem toradas medidas duras de isolamento haveria uma explosão ainda maior de casos e mortes. Ainda não é possível avaliar os efeitos das medidas adotadas. Mas os epidemiologista têm sdo unânimes na recomendação de prolongar e tornar ainda mais rigorosa a restrição de circulação.


A nova escalada da Covid na cidade dura apenas quatro semanas. Em São Paulo, a alta já passa de dois meses. Os ciclos de pico da doença em boa parte dos casos duram 12 semanas. A se confirmar o padrão, o quadro ainda pode se agravar.


Filas para a vacina, no Clube Central, em Icaraí


A vacinação seria a única forma de quebrar o contágio. A taxa de transmissão da doença hoje é de 1,28 no país. Mas a ação negacionista do Presidente Jair Bolsonaro e as trapalhadas do Ministério da Saúde não garantiram até agora nem a imunização dos grupos de maior risco, as populações de mais de 60 anos e profissionais de saúde. Justo no momento em que a doença ataca também os jovens.


Diante de tudo isto, a recomendação dirigida ao Brasil, por especialistas da OMS e de todos os países que acompanham a evolução da doença e vêem o Brasil se tornar o pior caso no combate à Covid é adotar urgentemente um lockdown.