‘O samba é ferramenta de revolução’, diz diretor artístico da Cubango

No carnaval que não vai para a rua, Pablo Guerreiro, da Cubango, fala da cultura do samba e da filosofia da matriz afro-brasileira


Por Livia Figueiredo

O diretor artístico da Cubango, Pablo Guerreiro / Foto: Divulgação


“Desde que me conheço gente eu vivencio o carnaval. Estar atuando em Niterói em uma escola de grande relevância para a história do carnaval carioca é um sonho junto com um objetivo que sempre me acompanhou”, conta Pablo Guerreiro, diretor Artístico e Coreógrafo da Escola de samba Acadêmicos do Cubango.


Pablo dá aulas on-line pelo mundo levando a cultura da dança do samba e a filosofia da matriz afro-brasileira, mas é em Niterói que ele resolveu se instalar. “Eu adoro Niterói. É calma como Porto Alegre, mas tem praia”. Ele costuma também dar palestras e participar de congressos on-line sobre a cultura afro-brasileira e outras questões que colocam a tradição do samba no pé como contribuição à corporeidade do brasileiro.


“Aproveito para fazer também essa ligação com pessoas que não moram aqui, mas que cultuam essa cultura e entendem como ela se movimenta”, explica.


Como não existe possibilidade de carnaval de rua neste ano e muito menos de desfiles de escola de samba, Pablo seguirá ministrando aulas que abordam o samba no pé, cujo estilo de dança tem sua origem no samba que era tocado em ambientes populares, dos morros e favelas cariocas. O samba no pé é uma modalidade de dança realizada, sobretudo, em performances improvisadas ao som de um bom samba.


Pablo conta que, como diretor artístico, tem a oportunidade de trabalhar todas as questões que envolvem a materialização do enredo na avenida, através dos corpos dançantes. Além de colocar em cena esses corpos potentes, ele procura fazer uma análise subjetiva e individual do que fez chegar a esse enredo.


- Eu gosto de trabalhar com o aspecto diaspórico e fazer as ligações do motivo das pessoas estarem ali, porque elas vivenciam aquilo, mas às vezes sinto que não tem a profundidade para além do sentimento, da importância que o carnaval e o samba possuem. Eu tenho para mim que o samba educa. Procuro trabalhar sempre com projetos sociais. Gosto dessas outras visões a partir da cultura de samba – destaca.


Não por acaso, as coreografias que mais são motivo de orgulho para Pablo são aquelas que possuem a finalidade de educar. Utilizar a ferramenta corporal para ensinar algo através da dança já é essencial por si. Mas, se tivesse que escolher algumas coreografias que mais gostou de ter contribuído, destacaria as da Mangueira de 2011 e 2012. A primeira ele participou da comissão de frente da escola, representando os malandros. Em 2012, representou seu orixá de cabeça, o Exu. “Foi uma experiência muito grandiosa, sobretudo sobre a cultura do candomblé. Foi quando eu também fiz a coreografia com Carlinhos de Jesus, que era um sonho”, relata.


“Eu sou o carnaval, o carnaval sou eu


Pablo conta que sua identidade se confunde com a do carnaval e a do samba. Para ele, o carnaval está muito além do movimento e da euforia. “Ele é um manifesto, uma ferramenta de revolução, que manteve os corpos negros vivos até hoje”, diz.


Como é natural do Rio Grande do Sul, Pablo cultiva uma experiência com o carnaval de rua distante da relação que o Nordeste e os cariocas e fluminenses têm. Mesmo se mudando para Niterói, Pablo não teve muito contato com o carnaval de rua, pois as agendas viviam lotadas de desfiles de escolas de samba e coreografias, entre outros compromissos que abrangem a vida de um diretor artístico.


- O carnaval de rua é uma experiência que eu tenho lá minhas críticas pelo início dela e as contradições que têm no meio disso. Mas eu acho um exercício magnífico. É algo que tem que ter, pois é muito característico da cidade. Quando existe o carnaval de rua, existe o Rio. O Rio é essa mistura de corpos, energia e possibilidades. É algo que emerge no silêncio, mas é capaz de encantar tanta gente, tanta coisa – afirma.


Pablo conta que um dos seus objetivos nesse ano é adentrar na cena cultural de Niterói e trazer as discussões que vêm colocando nas suas aulas de forma ampla. Antes da pandemia, com a agenda corrida, Pablo diz que não conseguia entender como funcionava Niterói e explorar o que a cidade oferece. "Agora eu estou reparando muito mais na cidade. Seus parques, suas praias, seus mecanismos de cultura. Gosto de ir à praia, comer um peixinho, coisas assim", confessa.

Foto: Divulgação


Morador de Niterói há 10 anos, mas nascido e criado em Porto Alegre, Paulo Guerreiro encontrou em Niterói o repouso que queria nas praias da cidade. Pablo começou a sua carreira artística aos 12 anos no grupo de música e dança Afro-sul Odomodê, onde por sete anos atuou profissionalmente. Essa experiência o levou ao carnaval de Porto Alegre, onde ganhou dois estandartes de ouro como passista nos anos de 2006 e 2007.


Hoje é no Rio de Janeiro que Pablo busca desenvolver o seu conhecimento nas artes. Como professor da Escola de Dança e Centro Cultural Jaime Arôxa, ele ministrava aulas de samba no pé e dança de salão, mas buscou sua aproximação do samba carioca participando e adquirindo experiências através de comissões de frente do carnaval. Em sua trajetória atuou também como assistente coreógrafo da novela Lado a Lado e como preparador de elenco/coreógrafo da novela Flor do Caribe, ambas da Rede Globo.