Pandemia aumenta procura por animais de estimação em Niterói

Atualizado: Abr 12

Além da alta procura por produtos e serviços do setor, cresce a adoção de pets em tempo de desamparo


Por Livia Figueiredo

Farofa e seu amigo macaco / Foto: Giulia Madalozzo


Eles são parte da família, às vezes dormem na cama juntinho ou em um cômodo próximo. Estão quase sempre ao alcance. Possuem um jeito afetuoso de ser e são ótimos companheiros para momentos alegres e servem de consolo para os de tristeza também. São eles os responsáveis pela consolidação do termo “mães" de pet, que carimba, de certa forma, a afeição dos donos pelos seus animais de estimação. Elas que se alegram quando seus bichinhos aprendem um comando ou fazem algo inusitado, comemoram e sofrem junto quando estão passando por alguma dificuldade.


Como retribuição, seu filho de quatro patas entrega um amor imensurável para seus tutores, talvez um dos mais genuínos. Com a pandemia da Covid-19 a procura por pets apresentou uma alta que impressiona. O tempo maior em casa fez com que as pessoas adotassem a ideia que estava em suspensão. Foi o caso de Patrícia Rocco, moradora de Niterói, que resolveu colocar em prática, com o apoio do seu namorado, um desejo de longa data.


- Sempre tivemos essa vontade. Cachorros são seres perfeitos, né? Mas o que motivou mesmo foi a pandemia. Houve uma aceleração de vários planos, inclusive o de adotar um cãozinho. Lembro como se fosse ontem: nós dois sentados no sofá, no começo da quarentena, assistindo às notícias mais desanimadoras possíveis, Pedro, meu namorado, me fala que estava muito para baixo de madrugada e que viu uma carinha na internet e ficou feliz. Era a foto de um cãozinho chamado “Juquinha”, um vira-lata preto e branco lindo, que o Garra, uma ONG da Zona Oeste do Rio, tinha postado nas redes sociais informando que estava para adoção - conta Patrícia.


Não demorou muito para a ideia se concretizar. Depois de um ou dois dias refletindo sobre a possibilidade, o casal decidiu adotar o cachorrinho da foto, que se tornou um membro da família em um piscar de olhos, com um novo nome: Ziggy, que, pela definição da Patrícia “tem uma energia sem fim”. Por acaso, Ziggy completou um ano de adoção no dia 4 de abril.

Ziggy sob tela / Foto: Patrícia Rocco


- Nós planejávamos buscá-lo no dia 5 de abril de 2020, num domingo. Quem disse que aguentamos a ansiedade? No sábado de manhã já estávamos enrolando os tapetes de casa e indo para Guaratiba buscar o cãozinho da foto. Hoje ele é o Ziggy, um membro da família. É um amor sem limites, meu e dele. Tem uma vida ali que depende integralmente de você, como um filho mesmo. Como o Ziggy chegou às nossas vidas com somente 3 meses, isso requereu paciência, cuidados e ensinamentos todos os dias - destaca.


Quando pergunto se ela planeja adotar mais algum pet ela diz: “Quem sabe no futuro? O Ziggy foi a melhor coisa que nos aconteceu e frequentemente eu e Pedro nos enviamos fotos de cãezinhos com a legenda irmão do Ziggy”, confessou.


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Patrícia, Pedro e Ziggy, no dia da adoção / Foto: Arquivo Pessoal


Há também aqueles que já tiveram a experiência de ter um bichinho na infância, mas que, com a correria da rotina, deixaram a ideia de lado. Devido ao isolamento social, o tempo se tornou propício para retomar aquele projeto que estava em maturação, à espera de um momento oportuno para ser colocado em prática.


- Eu já tinha tido uma cadelinha na infância, mas meu marido não. Sempre foi um sonho dele. Quando fomos morar juntos, 3 anos atrás, comecei a sugerir de adotarmos e começamos a brincar com a ideia. Tínhamos até definido o nome. Seria Farofa. Com o começo do isolamento social, achamos que era o momento ideal para adaptarmos um cachorro nas nossas vidas e termos tempo para adestrar – diz Giulia.


E acrescenta: adotamos a Farofa no dia 23 de abril, quase um ano atrás! Ela nos ajudou em muitos momentos difíceis, como a internação do meu sogro por Covid. Não sei como teríamos passado por aquilo sem o carinho incondicional dela. Hoje temos mais responsabilidades com ela, mas vale muito a pena pelo amor que ela nos dá – relata Giulia Madolozzo, que diz que o Churros vem por aí, mas não agora. Por enquanto, a família de 3 integrantes vai muito bem, obrigada.

Farofa em um momento de carinho / Vídeo: Giulia Madolozzo


Gabriela Gonçalves, moradora do Rio, diz que sempre discordou da comercialização dos animais. Ela conta que na esquina da sua casa tem um pet shop que, antes da pandemia, todo último sábado do mês, fazia feiras de adoções de animais encontrados na rua.

- Eu sempre passava com a minha mãe e parava para brincar com eles, mas tínhamos perdido nosso cachorro há pouco tempo e meus pais não queriam bichos de novo. Eu não optei pelo gato, ele optou por mim, numa dessas feiras, eu parei e bati o olho no meu primeiro gato, o Batman, e foi aquele sentimento de que ele era para ser meu, e assim aconteceu.


Depois disso, é história. Gabriela possui atualmente três gatos. Todos adotados, claro. O último foi o Alaska, que foi adotado durante a pandemia e está para completar seis meses.

Alaska / Foto: Gabriela Gonçalves


- A vida mudou completamente. Não só por conta dos pelos que voam pela casa todos os dias, mas também pelos miados pedindo comida. Ter um bichinho em casa é aquela sensação de chegar do trabalho cansada e eles estarem ali te esperando com toda alegria do mundo, prontos para pedir um carinho e te retribuir também. A vida muda bastante em todos os quesitos, mas o melhor é a felicidade que eles trazem. Os gatos todos os dias fazem coisas que deixam a gente encantadas e nos fazer guardar na memória - destaca.


Gabriela diz que é muito apegada ao seu primeiro gato, o Batman, que é aquele gato mais na dele, não muito sociável com as pessoas, mas que adora deitar na sua cama toda noite e pedir carinho. "Ficamos de conchinha até ele achar que o carinho está de bom tamanho e ir embora. É uma das minhas memórias que vou guardar para sempre", declara.

Batman / Foto: Gabriela Gonçalves


Além do interesse pela adoção, diversos estabelecimentos que prestam serviço foram abertos na cidade de Niterói, sem contar os microempreendedores (MEIs). Considerando o período de março de 2020 até agora foram abertos 103 CNPJs para comércios que prestam serviços para pets, deste total, 84 são MEIs. Em Icaraí foram abertas 6 lojas físicas e 11 MEIs, no Fonseca, 2 estabelecimentos e 12 MEIs e, em Piratininga, 1 estabelecimento e 8 MEIs. O mercado da adoção também seguiu caminho parecido. De acordo com a página "Adote Niterói", perfil que divulga pedidos de ajuda e adoção de animais na cidade, o crescimento não se deve apenas à pandemia, mas também pelo fato de que a causa aumentou bastante ultimamente.


Tendência do mercado


A petshop Petily, localizada no bairro de São Francisco, por exemplo, fundada em outubro de 2019, nasceu com foco 100% delivery. De acordo com a sócia proprietária de um dos estabelecimentos, Yasmin Mattos, se comparado o período entre março 2020 e março de 2021, o aumento corresponde a mais de 400% no número de vendas. O crescimento médio em 2020 foi de 17% ao mês.


- É importante ressaltar que já haveria um crescimento natural do número de vendas visto que a empresa está no seu início. A empresa praticamente nasceu em meio a pandemia e com foco 100% no delivery de produtos para pet. Para nós, a pandemia funcionou como um catalisador para esse aumento. Quando a pandemia chegou, já estávamos preparados! Nós já tínhamos um e-commerce. Os clientes compram online e entregamos no mesmo dia, em poucas horas, com horário agendado e muito foco em atendimento no Whatsapp – afirma uma das sócias.


Ela diz que cerca de 75% das vendas está ligada aos produtos de compras recorrentes como rações e medicamentos de uso periódico como antiparasitários e vermífugos. No entanto, existe uma venda cada vez mais expressiva para itens como acessórios e mordedores que auxiliam no entretenimento do pet, em um momento em que as pessoas estão dedicando ainda mais tempo aos seus animais de estimação. Os bairros onde há mais demanda, de acordo com a proprietária, são Fonseca, Santa Rosa e Icaraí.


O que mudou


Com mais de um ano de pandemia, Yasmin conta que as pessoas já estão mais acostumadas e propensas a pedir os produtos por delivery. As compras online retratam essa mudança de comportamento. “O whatsapp, que é o nosso principal canal de venda da petshop, e o site tiveram um crescimento absurdo em 1 ano. As pessoas já conseguem confiar muito mais em fazer as suas compras pelo site. Elas se acostumaram com essa comodidade”, revela.


O aplicativo Zee.Now, braço de tecnologia da startup Zee.Dog, não prestava serviços em Niterói até junho de 2020. Desde que o aplicativo começou a funcionar na cidade, o aumento foi de 15% ao mês. Hoje, o aplicativo atenda há mais de 5 mil pessoas só em Niterói. Os produtos mais vendidos são tapete higiênico e rações para cães, além de areia para os gatos e os bairros onde há mais demanda na cidade são Icaraí, Santa Rosa, Ingá, Fonseca e São Francisco.


O aumento não se restringe apenas às terras niteroienses. Durante a pandemia, a Zee.Now observou um crescimento expressivo de novos clientes e um aumento no volume de produtos por pedido dos clientes fidelizados. Ao longo de um ano, o número de pedidos no aplicativo total cresceu em 40%, de maneira orgânica. Algumas categorias apresentaram crescimento muito acima da média, como brinquedos, que dobrou a venda, e higiene, que apresentou mais de 80% de aumento.


Crescimento de 30% pelo mercado pet

A Zee.Now faz parte do ecossistema que a Zee.Dog está criando e que atende as mais diversas demandas do setor pet, que desde o início da pandemia, cresceram em cerca de 30%, de acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação (Abinpet). No Brasil, as vendas do mercado pet no ano passado corresponderam a US$ 7,3 bilhões, um aumento de 14% em relação a 2019. O mercado global de animais de estimação movimenta US$ 130 bilhões e o Brasil ocupa o terceiro lugar, atrás apenas dos EUA e da China.


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