Pandemia desperta hobbies em jovens, como a leitura e a culinária

Maior tempo em casa colaborou para a retomada de antigos hábitos e para o surgimento de outros


Por Livia Figueiredo

A publicitária e moradora de Niterói Ana Carolina Fonseca faz lives de jogos numa plataforma de streaming / Foto: Reprodução de tela


Há quem diga que 2020 foi um ano perdido. Após tantas perdas, nos mais diversos sentidos que essa palavra carrega, não poderia ser diferente. As contas não param de chegar, com novos recordes de óbitos no país, superlotação de leitos hospitalares e a sensação de que parte disso poderia ter sido amenizado. Apesar de toda a dificuldade que permeia o momento, há quem pense em formas de ocupar o tempo e se reconectar com sentimentos e ideias que estavam adormecidas.


Formada em Publicidade e Propaganda e moradora de Niterói, Ana Carolina Fonseca, de 25 anos, sempre gostou muito de jogar. O hobbie a acompanha desde nova, porém se intensificou ainda mais pela perda do convívio social imposto pelo isolamento. Apesar de sua aptidão para jogos eletrônicos, o universo on-line nunca encheu seus olhos. No entanto, reconhecendo o papel que eles desempenharam no que diz respeito à socialização das pessoas durante a pandemia, ela se sentiu motivada a embarcar nesse universo.


- As comunidades podem ser um pouco tóxicas, mas logo no início da pandemia foram lançados jogos multiplayers, que ficaram muito famosos com o passar do tempo, como o Valorant e o Among Us, que são jogos bem simples. Não precisa ser pro player, pois não demanda muita habilidade para jogar. Por mais que eu seja uma pessoa que não goste muito de interações sociais, estou em casa há quase um ano já. Eu acho que o jogo entrou na minha vida como forma de socializar com os amigos. Deixou de ser uma distração e passou a ser também uma forma de interagir – destacou.


Comunidades on-line


Os jogos passaram a fazer parte da rotina de Ana, que diz que ficou rendida e chegou a criar uma conta no Twitch, site de streaming, que surgiu em 2011, mas ganhou ainda mais força com a pandemia da Covid-19. O site consiste na transmissão de jogos ao vivo ou on-demand. Quando não está trabalhando, Ana diz que dedica quase todo o seu tempo jogando e fazendo transmissões ao vivo, o que acaba resultando numa média de quatro a cinco lives por semana. Ela também diz que gosta de assistir aos jogos, ainda que não pense na possibilidade de jogá-los.


- Eu sempre gostei de ver as pessoas jogando, ainda que sejam jogos que eu não pense em jogar, mas tenho curiosidade de saber como eles são e eu sempre quis fazer lives, apesar de nunca ter tido coragem para tal. Mas, com a quarentena, eu ganhei bastante confiança em mim e eu quis fazer como uma forma de criar uma comunidade on-line. Acho que o Twitch é uma boa ferramenta de construção de conexões. É um espaço em que você troca tanto com amigos que não possuem interesse para jogar, mas que podem participar através do chat, como também com aqueles que querem – acrescentou.


Dois livros e um café


Além de criar hábitos ou apenas remodelá-los, a pandemia potencializou antigos hobbies que estavam adormecidos, com a rotina mais centralizada em casa. O estudante e morador de Icaraí, Pedro Viviani, diz que encontrou na leitura uma forma de se distrair e fugir por uns momentos de tudo que está acontecendo. A brincadeira resultou em 25 livros, apenas no ano passado, e rendeu uma assinatura na Tag, que nada mais é do que um clube de assinatura de livros que envia a cada mês um livro surpresa. Segundo Pedro, é uma forma de ter sempre livros diferentes em casa, de assuntos variados e de autores que ele talvez não teria a oportunidade de conhecer e não compraria se fosse a uma livraria.

Algumas das leituras de Pedro / Foto: Pedro Viviani


- Teve uma época da minha vida em que tive que parar de ler porque comecei a faculdade e eu trabalhava também, então não tinha tanto tempo assim. A pandemia me trouxe bastante tempo livre de uma vez só. Eu percebi que tinha um monte de livro parado e quando eu fui ver, estava lendo dois/três ao mesmo tempo. Me dei conta de que poderia retomar o hábito da leitura como uma forma de escapar da realidade. Esse ano eu já li 5 livros e estou lendo dois no momento – afirmou.


A reconexão com a literatura não foi o único ganho de Pedro, que diz ter aproveitado os meses em casa para cozinhar mais. Pão, bolo e doces foram alguns dos pratos que viraram parte do seu cardápio semanal. “Antigamente eu fazia apenas no final de semana por causa da rotina da faculdade. Agora, com as aulas online e sem perder tempo de deslocamento, consigo fazer alguns pratos durante a semana também. No começo da pandemia estava fazendo em torno de 3 pães por final de semana. Parei um pouco por causa do calor”, afirmou.


A culinária também foi uma forma de preencher o tempo e despertar a criatividade do designer Igor Baptista. Ele conta que o hábito de cozinhar sempre esteve presente no DNA de sua família, assim como qualquer atividade ligada ao lar. Igor conta que foi incentivado desde pequeno a ajudar nas atividades rotineiras da casa. A pandemia acabou tornando a culinária mais presente na sua vida devido ao tempo ocioso ter ficado bem maior, pois praticamente não há mais tempo de descolamento, sem contar com outras atividades na rua que foram reduzidas. Igor conta que a divisão de tarefas foi bem orgânica, já que houve maior demanda em casa e todos se dividiram para ninguém sair prejudicado.


- Sempre tive muito contato e fui muito ensinado a executar essas atividades como uma forma de divisão de tarefas, onde todas as pessoas realizam tudo e não há uma sobrecarga para um só membro da família. Eu tomei gosto pelo ato de cozinhar. Ficou muito marcado para mim, pois é um símbolo de carinho e afeto. Eu gosto muito desse ato de poder cuidar e tocar a pessoa através de algum gesto.

Preparação do prato anéis de cebola / Foto: Igor Baptista


Novos rumos, novos olhares


Igor diz que começou a testar vários pratos que não faria em outra época, já que o momento de estar na cozinha era mais espaçado. Com a pandemia, ele fiz que a cozinha chegou a fazer parte de sua rotina, de forma mais presente.


- Fui fazendo como teste para me aprimorar na cozinha. Eu acho que esse tempo me deu essa oportunidade de fazer coisas noivas. Comecei a dar mais atenção para o meu lado criativo também e comecei a repensar minha vida profissional muito por conta das minhas reflexões durante a pandemia. A área de design começou a aflorar muito em mim. O ócio fez despertar minha expressão artística que, de certa forma, estava reprimida. Comecei a criar coisas e pude ter um maior relacionamento com outras pessoas e traduzir o que elas gostariam de executar. Acho que a pandemia me trouxe um olhar interior muito importante – revelou.


Trabalhos manuais


As longas horas no computador, no celular e até na televisão fizeram com que algumas pessoas repensassem a sua relação com os eletrônicos, dosando mais o tempo dedicado às telinhas. É o caso da estudante Giovanna Avilez, 18 anos, que aproveitou para confeccionar sabonetes aromatizados, perfumes e velas. Pegando carona pelo seu gosto por trabalhos manuais, a estudante diz que o pontapé inicial da ideia tem nome e sobrenome: Peter Paiva.


- Ele faz sabonete, vela, entre outras coisas, mas isso começou porque uma tia do meu namorado me convidou para fazer um perfume de papel e eu vi o vídeo dele e comecei a fazer tudo que ele fazia e logo falei para minha mãe que podia dar um jeito de ganhar dinheiro com isso. Foi assim que eu tive a ideia de criar a Bio.essence. É muito difícil ter uma loja online no Instagram, mas estou conseguindo. Tem sido muito bom para mim porque distrai minha cabeça – contou.


Apesar de ainda não ter obtido o resultado almejado, a estudante afirma que o retorno financeiro tem sido bom e que o saldo é positivo, já que tem despertado seu lado criativo e ocupado seu tempo produzindo trabalhos artesanais. Ela costuma fazer sabonetes de argilas branca e preta, com essências naturais, além de perfumes e velas aromatizadas.

Sabonete de argila branca com óleo essencial de capim limão / Foto: Giovanna Avilez