Pesquisador da UFF explica a testagem das variantes do Coronavírus

Professor Fabio Aguiar Alves detalha convênio com a Prefeitura e aguarda a chegada de reagente para iniciar o sequenciamento genético


Por Thaís Sousa

Fabio Aguiar Alves. Divulgação/UFF


Ao longo do primeiro ano de pandemia, a Universidade Federal Fluminense (UFF) já deu suporte a Niterói nas mais variadas frentes de combate à Covid-19 e se prepara para assumir um papel ainda mais estratégico. A instituição aguarda apenas a chegada de um insumo para dar início ao sequenciamento genético do coronavírus, capaz detectar a presença das novas variantes, passo fundamental para tentar frear a transmissibilidade da doença.


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Em conversa com o A Seguir: Niterói, o Professor Associado de Bioquímica e Biologia Celular e Molecular da UFF, Fábio Alves, responsável pelo projeto, falou da expectativa pelo início do trabalho. À frente do grupo que já tem realizado as testagens de PCR pela rede municipal de Saúde, Alves diz que a universidade está empenhada para colocar em prática uma nova metodologia de testagem e contribuir com a cidade.


Como surgiu a iniciativa de a UFF realizar o sequenciamento genético do coronavírus?


Já estamos fazendo os testes de PCR desde o início da pandemia, em parceria com a Prefeitura. Começamos com o ambulatório de rua, testando pessoas com risco social. Depois fizemos uma nova parceria com a Secretaria Municipal de Saúde para responder às necessidades com amplitude maior para os postos de saúde e as policlínicas.


No final da história apareceu a variante. Então, a Prefeitura perguntou se existia uma maneira de fazer a identificação dessas mutações. Vamos ter que implementar uma nova metologia complementar de sequenciamento de genoma, chamada sequenciamento de nova geração.


Temos o equipamento, mas para isso precisamos adquirir os reagentes necessários para o genoma. Como é um insumo que está sendo utilizado no mundo inteiro, está sendo produzido em maior escala. Mas existe essa janela entre o pedido, a entrega e implementações, que deve levar entre 30 e 45 dias.


A UFF tem hoje um laboratório específico para esse tipo de análise?


Tem. Precisamos de equipamentos muito especificos que já estavam sendo utilizados num projeto de pesquisa especial da UFF. Desde o ano passado, já existia uma

possibilidade de a gente responder ao surgimento de variantes, em parceria com a Universidade da Califórnia em Berkley. Ainda não existiam essas mutações, mas já tínhamos o projeto desenhado, compramos o equipamento e ele chegou em agosto. Era só um projeto, mas virou necessidade por causa da aprição das novas cepas.


Quem vai financiar as atividades do laboratório?


Vai ser pago pelo convênio da Prefeitura. O dinheiro, que já está em caixa, vai ser dedicado a esse projeto. Como a gente já tinha a parceria, a subsecretária municipal de Saúde, Camilla Franco, havia autorizado o uso de parte da verba do Covid para aquisição dos reagentes e a UFF já dispunha de parte do material. Só falta essa enzima específica para coronavírus, que vai ser paga com a verba da parceria.


Qual é a capacidade de análise do laboratório?


Pelo projeto inicial, a gente tem reagente comprado para sequenciar 50 amostras de variantes. Como é bem caro, temos material para fazer 50 genomas, identificando a sequencia dessas variantes. A gente precisa comprar apenas um reagente que falta, que é uma enzima importada.


Se a parceria com Berkley for aprovada pelas autoridades americanas de saúde, existe a chance de a gente expandir e chegar a fazer análise de até 300 pacientes. Pode ser que aconteça em breve, já que há uma demanda internacional por respostas diante do número de variantes que já estão aparecendo no mundo.


Quanto tempo leva para o resultado de cada teste sair?


Pela metodologia que estamos implementando, conseguimos resposta do genoma em 48 horas. Mas precisamos de uma estrutura de bioinformática muito bem organizada, porque o processamento é complicado. É necessário um especialista em análise de genoma para fazer esse trabalho. Depois que os dados estão no computador, temos o resultado final entre sete e dez dias.


Como pesquisador, como você vê a contribuição da UFF, como instituição pública, nesse tipo de ação?


A UFF está fazendo um trabalho sensacional, porque a universidade pública tem essa visão de contribuir com a sociedade e melhorar a vida da população. Conseguimos mais de R$ 5 milhões para o desenvolvimento do Centro de Testagem PCR. E a grande sacada, no caso do sequenciamento genético, foi ter garantido a compra do equipamento no ano passado. Demoraria muito mais a chegar hoje, pra um país em desenvolvimento.

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