Podcast se tornou o 'melhor amigo' quando Niterói pede: FIQUE EM CASA

Pandemia muda hábitos e contribui para popularização de conteúdos em áudio


Por Livia Figueiredo e Gabriel Gontijo

Foto: Reprodução


O ano de 2020 tornou-se fatídico para muitos em todo o planeta por causa da pandemia. Algumas das palavras que tornaram-se obrigatórias foram “isolamento” e “distanciamento”. Por isso, muita gente passou a ficar mais em casa e novos hábitos foram surgindo, sendo um deles o consumo de podcasts. A imersão do áudio passou a ser uma forma de suprir carências individuais, revolucionando a rotina e criando novos hábitos. Ouvir conteúdos sonoros com diferentes abordagens tornou-se uma forma de passar o tempo, mudando a rotina e criando novos hábitos nos afazeres domésticos, nas atividades físicas, ou até mesmo como uma companhia para embalar o sono. É a era de ouro do áudio e o podcast veio para ficar.


A indústria do podcast vem crescendo há anos, mas agora existe uma movimentação diferente que aponta para novos formatos de narrativa, como ficção, documentários, debates, humor, entre outros tipos de programas que já não podem mais ser considerados nichos. Segundo o Listen Notes, ferramenta de buscas de áudios, já são mais de 1,9 milhão de podcasts no mundo. O Brasil lidera o ranking dos países cujas produções aumentaram mais rapidamente e é hoje o segundo país no mundo de maior consumo de podcast, atrás apenas dos Estados Unidos, de acordo com dados do Podcasts Stats Soundbite. Esse fenômeno além de possibilitar uma maior oferta de conteúdo, nos mais diversos segmentos, colabora para maior oferta de anunciantes e crescimento do mercado de podcasting.


Novos contextos


A estudante Julia Di Maio, 23 anos, costumava ouvir muito podcast para o caminho da faculdade, mesmo sendo curto. Agora, com as aulas online, o hábito passou por algumas transformações. Além de consumir podcasts em outros contextos, como arrumando o quarto ou lavando a louça, Julia diz também que procurou por outros gêneros, que antes da pandemia, não eram de tanto interesse.


- Eu estava cansada de ficar só vendo série, eu comecei a ler com mais frequência, mas queria consumir outros tipos de conteúdo. Eu sempre ouvi muito o podcast da Marcela Ceribeli, o Bom dia, Obvious e na quarentena, eu comecei a escutar o podcast da Laurinha Lero, que é mais voltado para comédia. Eu já tinha tentado ouvir podcast de comédia, mas nunca tinha me prendido. O “Respondendo em voz alta”, da Laurinha Lero, eu passei horas seguidas escutando. Então, acabou que passei a consumir mais. Por um tempo também passei a ouvir um podcast de nutrição, mas esse eu já parei de escutar – contou Julia, que diz ter se interessado também por temas relacionados à saúde mental.


Julia diz que costuma escutar podcasts agora antes de dormir, já que não costumam dar tanto estímulo como a televisão. Ela aproveita o timer do aplicativo Spotify, ferramenta que oferece opções de tempo intervaladas que interrompem a reprodução. Ele pode ser acessado pelo símbolo da lua, localizado no canto direito inferior do aplicativo. A opção só aparece como disponível em programas de podcast.


“Gosto de utilizar o timer porque eu não corro o risco de dormir ouvindo podcast e gastar a bateria do celular. Se eu estou com muito sono, eu coloco poucos minutos, se não coloco uma hora e ele pausa automaticamente”, explica.


A designer Ana Fonseca diz que a criação do seu podcast surgiu como uma forma de abordar assuntos de interesse pessoal, como cultura pop, filmes e séries do momento, e assuntos relacionados à História, como mitologia, guerra e a era medieval. O podcast também tem uma coluna de temas mais livres, como histórias de Natal e questões mais rotineiras.


- Como consumidora de podcast, eu acabei mudando um pouco meu hábito ao longo da pandemia. Costumo ouvir muito antes de dormir, o que acabou substituindo o livro, que se perdeu um pouco para mim nesse período. Ou quando estou fazendo outras atividades que não demandam um foco total, como quando eu tenho que fazer alguma ilustração para o trabalho ou quando eu estou cozinhando. É como se o podcast estivesse substituindo a função do rádio ou da música – conta.


Naturalmente, a pandemia acabou influenciando no eixo temático do seu podcast, que acabou contando com convidados para debater temas sobre como a pandemia afetou a rotina das pessoas, que ficou batizado como o “diário dos quarenteners”. Além disso, ela nota um aumento de interesse por assuntos que pertencem ao universo pop.


- Nossos maiores ouvintes são em episódios que abordam essa temática de séries e filmes. A gente acredita que tem relação com o fato das pessoas estarem consumindo mais streaming e acaba afetando diretamente nosso público nesse sentido. É como se você tivesse se reunindo com um grupo de amigos para falar sobre uma série, já que não pode encontrar, é um meio de ouvir pessoas debatendo temáticas que sejam do seu interesse – resume.


Ana divide o podcast com Matheus Decnop há três anos. Ele diz que percebeu que, com a pandemia, os ouvintes estão optando por escutar podcasts que estão mais fidelizados, com temas mais próximos do que eles gostam. Outra questão que notou foi a redução do consumo devido ao cansaço mental das pessoas, já que algumas delas não estão mais se deslocando em transportes públicos. Matheus afirma que tentou acompanhar mais de perto os trends do momento das redes sociais, especialmente os relacionados às hashtags. Isso ajudou a pautar os temas dos episódios, tendo em vista as séries e filmes mais citados.


Estudante de Jornalismo, Amanda Mira, 26 anos, conta que o interesse pelo podcast começou em 2016, quando criou um blog que abordava temas na área do entretenimento. A experiência com cobertura de eventos e cabines de imprensa fez com que ela fosse convidada por alguns programas de podcasts para falar sobre cinema.


- Eu gostava desse método de conversar e não precisar aparecer para as câmeras porque eu sempre tive timidez em relação a isso, então para mim foi muito bom. Já ouvia podcasts há alguns anos, mas quando eu comecei a participar eu passei a ouvir mais ainda. Foi quando eu comecei a pensar em criar o meu. Nessa, eu percebi que gosto mais de pensar na pauta, produzir, editar do que gravar e tudo mais – destaca.


Era questão de tempo. Amanda começou a editar para alguns amigos que pediam ajuda com a parte de edição. E, assim, surgiu a sua agência, voltada, principalmente, para produção e edição de podcasts. A agência realiza trabalhos desde a concepção do roteiro, como o agendamento de entrevistas, mapeamento de pautas, acompanhamento de gravação, edição e está com planos de fazer trabalhos de mentoria para quem não consegue pagar a edição mensalmente.


Companheiro de todas as horas


O podcast antes da pandemia era muito marcado pela trajetória da casa até o trabalho, mas essa relação com o tempo mudou. Agora, com a rotina mais voltada para a casa, as pessoas têm aproveitado para absorver mais informações e ir atrás de conteúdo que não iriam com as distrações que tinham anteriormente. Amanda diz que acredita que o podcast veio para ficar e observa cada vez mais pessoas de diversas faixas etárias consumindo podcast, pois é uma forma de estar antenado com os assuntos de modo rápido e prático.


- Ainda que as pessoas não se importem tanto com a duração de cada episódio de podcast, existem outros requisitos, como a preferência por temas mais leves. Eu vejo que hoje os podcasts de entretenimento estão mais voltados para o bate-papo, com assuntos variados, como os podcasts de mães com filhas, influencers, serial killer, o nicho do storytelling que está crescendo muito no Brasil. Hoje o podcast não é apenas mais um companheiro para o caminho do trabalho e da faculdade. Antes ele era utilizado para preencher um espaço em silêncio e agora ele é mais uma diversão, uma companhia - explica.


A estudante Amanda Mira, criadora da Agência Miragem, de podcasts


Amanda diz que tem escutado podcast enquanto lava a louça, quando arruma a casa ou durante a prática de exercícios físicos. Ela diz que ter pessoas que pode escutar toda semana acaba trazendo uma rotina e a sensação que traz é parecida como a de um encontro com um amigo.


Acessibilidade


- O podcast é possível para todo mundo. Com as ferramentas certas, desde que com um bom diálogo e uma boa ideia para fazer diferente do que já está sendo feito. Acho que a gente descobriu um novo nicho do mercado que não estava tão forte assim. É uma crescente lenta por não ter muitas pessoas do mercado incentivando essa produção. Somos o segundo país no mundo de consumo de podcasts, atrás somente dos Estados Unidos. A compra do Spotify por vários programas acabou ajudando também. É um mercado que tende a ser muito lucrativo para quem quer divulgar seu trabalho, seu produto e seu conteúdo – sintetizou.


De oficina para iniciantes a interpretação de juízes como radioatores


Responsável pelo jornalismo da Antena 1 103,7 FM e professora de radiojornalismo da Universidade Federal Fluminense e também da Estácio de Niterói, a mestre Helen Britto explica que, de início, o número de ouvintes de podcasts apresentou queda no começo da pandemia pelo fato de mais pessoas ficarem em casa, já que “muitos ouviam no deslocamento para o trabalho ou até a faculdade”.


Mas ela também afirmou que, com o passar dos dias, houve um crescimento muito grande de ouvintes pelo fato da ferramenta ajudar na “democratização da informação”.


- Em um primeiro momento, o número de ouvintes de podcasts caiu porque muitas pessoas passaram a ficar mais em casa. Então como não tinha o deslocamento para o trabalho, houve uma redução de ouvintes pelo fato de muitos terem esse hábito no ônibus ou no trem, por exemplo. Mas pouco depois, essa curva voltou a subir de forma acentuada. E muita gente percebeu que poderia passar conteúdo de uma forma simples, conversada, através da mídia sonora – explica Helen, que salientou que, apesar da “febre recente”, esse recurso existe desde 2004.

Helen Britto ao lado de Martinho da VIla durante oficina de rádio na UFF. Foto: Reprodução/Facebook


A profissional também fala que a forma como o conteúdo é passado desperta ideias em pessoas de todas as idades. Por isso, ela criou uma oficina, em janeiro deste ano, voltada para quem tem entre 15 a 25 anos - e também gente acima dos 60 - para o desenvolvimento de iniciativas focadas nesta plataforma. O projeto, que venceu um edital de cultura da Prefeitura de Niterói, contou com aulas online com o intuito de promover “um diálogo de gerações” para quem gostaria de criar um podcast.


Outro exemplo sobre ideias inovadoras é a radionovela “O Direito de Pensar – Uma Viagem Radiofônica ao Julgamento do Macaco”, da diretora Sílvia Monte. A obra tem seis capítulos e é baseada em um fato real, que foi o julgamento de um professor nos Estados Unidos, em 1925, que tinha sido acusado de se colocar contra o Cristianismo por ensinar a Teoria da Evolução, elaborada por Charles Darwin.


Uma curiosidade sobre a obra é que no elenco estão desembargadores da Escola de Magistratura do Estado do Rio de Janeiro (EMERJ). Todos os juízes participaram como radioatores e realizaram as gravações em casa por causa da pandemia. Além disso, a diretora explica que procurou acrescentar alguns aspectos que ocorrem atualmente no Brasil para dar um realismo maior à produção.


- O audiodrama fala de liberdade de pensamento, ciência, religião e direitos civis dos EUA de 1925, temas polêmicos no Brasil de 2020. História, ficção e realidade entrelaçadas para pensarmos nossa realidade marcada por intolerância e fundamentalismo - resume Sílvia.