Nos 100 anos de Clarice, professor Júlio Diniz fala da atualidade da escritora

Atualizado: 10 de Dez de 2020

'Clarice Lispector representa uma experiência de criação radical e absoluta', diz Júlio Diniz , mestre e doutor em Literatura Brasileira


Por Livia Figueiredo

"Clarice só acreditava naquilo que ela inventava", declara o professor e escritor Júlio Diniz, que lançará livro sobre a autora no ano que vem / Foto: Reprodução da internet


Convencido de que em nenhuma hipótese a escritora Clarice Lispector caberia dentro de uma plataforma como o Zoom, o escritor e professor de Literatura Brasileira Júlio Diniz teve que reformular seus planos. Antes da chegada da pandemia, ele planejava um grande evento para este ano, em que é comemorado o centenário de Clarice. No entanto, por razões óbvias, ele teve que ser adiado. Júlio diz que já tem data marcada para o lançamento de sua obra, uma grande homenagem à autora. O livro é um ensaio que reúne 20 textos e três entrevistas sobre a trajetória de uma das maiores escritoras do século XX, pelos seus contos, crônicas e romances.


Nascido em Niterói, Júlio tem um currículo de tirar o fôlego. É autor de livros, ensaios e artigos sobre poesia brasileira, MPB e cultura ibero-americana publicados no Brasil e no exterior. Em Niterói, foi professor de Literatura do Salesiano. Mestre e Doutor em Letras da PUC-Rio, atualmente ele é professor da Área de Estudos de Literatura e coordenador de Pós-Graduação do Departamento de Letras da PUC. Ele também foi professor visitante na Universidade de Salamanca, na Espanha, além de coordenador de pesquisa e edição do Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira, projeto vinculado ao Ministério da Cultura.


Em entrevista ao A Seguir: Niterói, Júlio conta um pouco da origem do seu projeto sobre a autora que completaria 100 anos nesta quinta (10). Clarice é um dos maiores nomes da literatura brasileira do século XX. Reconhecida pela sua escrita peculiar e inovadora permeada pelo fluxo de consciência, ela ousava em investigar as profundezas da sua alma.


-Guimarães Rosa tem uma frase no seu livro Grande Sertão Veredas muito conhecida em que ele diz: Narrar é resistir. E Clarice é uma das mais extraordinárias narradoras da literatura - afirma Júlio.


O professor Júlio Diniz, e a aventura de mergulhar na obra de Clarice Lispector


A Seguir: Niterói - Você está escrevendo um livro sobre Clarice Lispector, conhecida pelo seu romance inovador e sua linguagem poética, cuja obra se destacou diante dos modelos narrativos tradicionais. Conte um pouco sobre ele. É um ensaio, uma biografia?


-JÚLIO DINIZ: O nome do meu livro foi inspirado em um dos possíveis 13 títulos da obra da Clarice, “A Hora da Estrela”, que se chama “Quanto ao futuro”. Não quero falar sobre o passado, porque seria um exercício de exaltação que ela nem precisa, nem merece. Quando você fala sobre figuras mitológicas da cultura, da arte, totalmente voltadas para o passado, sobre como era incrível e grandioso, ao invés de você estar usando a ideia de memória no lugar de invenção do presente, você utiliza a memória como um lugar de arquivamento de passado. E arquivar a memória significa a morte. Então, eu queria apontar para o futuro e o melhor caminho, para isso, é viver o presente intenso. O livro reúne 20 textos e 3 entrevistas que debruçam sobre a obra da Clarice nos mais diversos gêneros.


Como surgiu a ideia do livro?


-Tudo começou quando descobri fotos inéditas da Clarice na PUC-Rio, no tradicional auditório do RDC, ao lado da escritora e jornalista Marina Colasanti e da Nélida Piñon, duas grandes amigas. As fotos datam de 1975. Ela já havia ido à Universidade em 1973 para assistir `a Jornada dos Professores de Literatura, organizada pelo diretor do Departamento de Letras e Artes da época, Afonso Sant’Anna, que vem a ser marido da Marina Colasanti. Eu me deparei com essas fotos e fiquei encantado. Então, eu pedi um depoimento à Marina para contribuir para o livro, que reúne textos longos de especialistas da obra da Clarice do Brasil e do mundo. Por exemplo, autores que traduziram Clarice para o francês, inglês, espanhol, também colaboram. Além disso, tem textos falando sobre a infância da Clarice, da literatura dita infanto-juvenil. É um grupo enorme de especialistas da Clarice. Ele será publicado em maio do ano que vem, pela editora da PUC.


Clarice é reconhecida pela sua linguagem peculiar e inovadora, pela sua transgressão. Em sua opinião, qual a maior contribuição dela para a literatura brasileira?


-Ter escrito o que ela escreveu. Ter um espírito conturbado, de uma disciplina incrível, uma experiência de viagem enorme. Tem uma frase de um dramaturgo alemão, Bertolt Brecht, em que ele diz: “A arte de representar é a arte de observar” e quem conviveu com a Clarice conta que ela era uma excepcional observadora de tudo. A Clarice era uma grande observadora da realidade, das pessoas, da vida e, creio eu, que ela viveu uma loucura interna de processar aquilo tudo, de entender todos os dilemas humanos, a própria tragédia humana e essa relação complicada com a tradição judaica, já que ela era judia. O nome em hebraico da Clarice é “Haia”, que significa vida. Então, ela já carrega esse nome forte. A Clarice pertence a essa tradição desse povo que migrou por perseguições, que veio para o Recife, e depois se mudou para o Rio.


A Clarice sempre manteve muito forte a sua memória de infância em sua passagem pelo Recife. Os romances, os contos, as crônicas, os escritos da Clarice, de um modo geral, são sempre das coisas comuns. O instrumento de trabalho da Clarice são as coisas banais. Sempre com a mulher no centro. Clarice nunca foi feminista. Ela não participava da luta do feminismo, do engajamento e militância. É fundamental entender que existia ali uma mulher que escreveu com a questão do feminino sempre muito presente, que conseguiu, de forma muito plena, ter o elemento feminino no seu lugar de potência e, ao mesmo tempo, no seu lugar de delicadeza, de opressão, de controle, enfim, no seu lugar minoritário. A Clarice transforma os lugares minoritários em lugares essenciais. Tudo que é minoritário: pequenos bichos, plantas, crianças, velhos... Os seres minoritários para Clarice são os mais importantes. Para ela, o maior mistério da vida estava em entender essa relação. Peixes, coelhos, búfalos fazem parte de sua literatura.


E tem a questão do ovo e da galinha, abordada na obra da Clarice com muita recorrência. Para você, que esses elementos evocam?


-A questão do ovo dialoga com toda uma tradição que vem da Ucrânia, de uma tradição judaica. O ovo é a representação máxima da vida. Não à toa o conto “O ovo e a galinha”. O ovo e a galinha têm a ver com a própria criação. Esse lugar de criador e criatura que se misturam o tempo inteiro.


A Clarice tem um estilo literário intimista, com narrativas que tematizam a vida cotidiana e, principalmente, abordando os conflitos psicológicos das personagens. De que forma você acha que seu estilo intimista popularizou as narrativas psicológicas na literatura brasileira?


-A Clarice é importante porque ela fez uma literatura singular, diferente de todos. E não é uma literatura de grandes heróis, de narrativas épicas. Clarice é a narrativa do menos. É a literatura menor. Não no sentido da importância, muito pelo contrário. Mas menor porque ela vai trabalhar com as pequenas coisas do cotidiano. Na Hora da Estrela, Macabea é comparada ao capim. É isso. A literatura de Clarice é de Macabea, da sua infância no Recife, das sensações à beira mar. É sempre aprendizagem e sempre um livro dos prazeres.


A Clarice já transitou em crônicas, contos, prosa e romance. De que forma ela influenciou autores da nova geração a fazer o mesmo?


-Eu acho que isso veio anterior a ela. Ela é uma aprendiz e não uma feiticeira. Isso vem da leitura que ela fez de todos que recorriam a esses gêneros. Eu acho que ela não influenciou ninguém nesse sentido. Até porque ser influenciado pela Clarice é uma sentença de morte. Ela é muito original. Ninguém até hoje escreveu próximo ao que a Clarice representa. É uma experiência de criação radical e absoluta.


Clarice também foi jornalista. Poderia falar um pouco da colaboração dela para essa área?


-A Clarice colaborou para revistas e jornais, como o Jornal do Brasil, e tinha também o correio feminino em que ela se comunicava diretamente com as mulheres. Ela pertence à geração do Drummond, do Carlinhos de Oliveira, do Aldir Blanc, do Luiz Fernando Veríssimo, do Machado de Assis. A crônica é um estilo muito brasileiro, extremamente carioca. A Clarice tinha que sobreviver, principalmente depois que ela se separou do marido, e ninguém vive somente de literatura nos dias de hoje, quanto mais naquela época. Inclusive ela tem um livro sob encomendas, que se chama “A via crucis do corpo”.


Em que pontos você acha que as pessoas se identificam com a Clarice? Acha que tem relação justamente com o fato de ela abordar majoritariamente o cotidiano em sua obra?


-Por várias razões. Principalmente as mulheres, por todas as razões do mundo, quanto mais hoje em dia. Primeiro, por como a Clarice expõe os dramas do feminino e, ao mesmo tempo, a grandeza e a potência que a mulher tem. Segundo, qualquer ser humano minimamente sensível vai perceber em Clarice um antigo compromisso que os narradores têm com a vida e que está muito bem sinalizado nas narrativas persas. A gente narra para driblar a morte, ou seja, contar histórias é adiar a morte. As pessoas que não têm contato com a experiência e com os impasses do humano, a tragédia do homem, os limites. Quem não tem o que contar não tem história e repete o que a moda e a publicidade falam, reproduz a fala alheia. Não são criadores. A Clarice pertence a isso. Guimarães Rosa tem uma frase no seu livro Grande Sertão Veredas, que é muito conhecida, em que ele diz: “Narrar é resistir” e Clarice é uma das mais extraordinárias narradoras da literatura.


De que forma você acha que esse estilo intimista da Clarice popularizou as narrativas psicológicas da literatura brasileira?


-Muitas pessoas acham que Clarice inaugura um mergulho dentro do imaginário, da inconsciência humana. O seu livro “Água Viva” é muito sobre isso e de certa maneira “Paixão Segundo GH” é um pouco também. Eu acho que Clarice desempenha um papel muito relevante nessa narrativa típica do pós-guerra. No mundo ocidental, esse tipo de narrativa tem um componente muito forte em que nada pode continuar da mesma forma depois do Holocausto, depois da Guerra. E agora estamos vivendo uma experiência semelhante. Nada será igual depois da pandemia da Covid. E não é somente pela quantidade de mortes, que por si só já é uma tragédia, mas pelo que ela representou de mudança na vida de cada um de nós. Fica muito claro entender porque as pessoas no lugar de ter todo um mergulho dentro de si, de ouvir uma música, ver um filme, ler um livro, refletir e pensar, tem uma necessidade enorme de ir para festas, transitar por grandes multidões, de ir e produzir encontros familiares ou entre amigos.


Há uma incapacidade do ser humano de mergulhar na serenidade, na plenitude e não existe possibilidade de ler se você não estiver em solidão absoluta. A Clarice não é uma leitura estridente. É como uma obra do compositor alemão Schumann. A literatura, de certo modo, resiste a uma onda de mediocridade e de totalitarismo, que se acelerou com o auxílio dos suportes digitais e da velocidade da informação. O homem da literatura sempre enganou o outro. A arte engana o outro. E quanto mais enganado você se sente, melhor. E como tudo é incrivelmente fingidor, como dizia o poeta Fernando Pessoa, você fica super feliz de ser enganado. A arte vem da incompletude da própria vida. Manoel de Barros dizia que só acreditava naquilo que ele inventou. Acho que Clarice era assim. Ela só acreditava naquilo que ela inventava.