Quando o mundo parou

Moradores de Niterói se reinventam na quarentena


Por Luiz André Alzer


Quando o mundo parou, ali pela metade de março, Marilda Ormy, diretora do Teatro Municipal de Niterói, decidiu que ia pegar um caminho diferente. Aos 66 anos, resolveu fazer do limão da pandemia uma limonada, e começou a se reinventar.


– Eu sempre trabalhei 12 horas por dia. Pra quê? Posso fazer tudo em muito menos tempo. Temos que aproveitar esse momento para pensar, espalhar amor e experimentar. Descobri, por exemplo, um desejo de continuar aprendendo inglês. E resolvi aprender a dançar... Caramba, eu não sei dançar! Então boto uns vídeos, fico meio sem jeito, mas tô curtindo.


Marilda é uma das figuras mais identificadas com a cultura de Niterói (quem já passou dos 40 certamente lembra da icônica casa de shows Duerê, da qual foi sócia). Desde o início da pandemia, confinada em sua casa na Boa Viagem com a mãe de 93 anos, está descobrindo novos prazeres. Não só pessoais, mas também desafios profissionais.


– Todos os meus 42 funcionários do teatro estão num pique só. A gente bota no ar depoimentos de artistas, cria quizz, resgata coisas bacanas do teatro para interagir com o público. E tenho provocado, de produtores a bilheteiros, para refletir e trazer sugestões sobre questões importantes. Quando o mundo voltar a o normal, de que forma devemos fazer para que público, artistas e funcionários estejam seguros? – diz Marilda, que vem estudando, com outros diretores e produtores de teatros de ópera do Brasil, os protocolos de segurança já adotados em outros países para aplicar no Brasil e, especificamente, no Municipal de Niterói.


Foto: Marilda Ormy


Foi também atento ao movimento do coronavírus fora do Brasil que o chef Bruno Marasco se antecipou à quarentena obrigatória. Junto com o irmão Carmine e a mulher Suzanne, tomou a difícil decisão de fechar os restaurantes Da Carmine, depois de 20 anos ininterruptos de funcionamento (que, agora, atendem clientes apenas no delivery).


– Pela nossa proximidade e contato direto com a Itália, vimos que, se a postura não mudasse, os riscos seriam incalculáveis.


Não pensaram duas vezes. Mas logo no dia seguinte ao fechamento, ele e Suzanne foram pioneiros no que se tornaria moda no país: fazer lives. No salão vazio do Empório Del Gusto, eles montaram uma pequena cozinha e, diariamente, às 19h, Bruno conta histórias e ensina receitas com técnicas antigas e bons ingredientes.


– No início, eu duvidava se as pessoas iam querer me ver uma hora falando. Mas aos poucos vimos que aquele horário se tornou importante para reencontrar clientes, outros chefs... Se fomos fortes e superamos guerras, fome e privações na Calábria, agora estamos nos reinventando no jeito de ter esperança e de se conectar às pessoas, virtualmente.


Foto: Bruno Marasco


A ida a bons restaurantes da cidade, assim como garimpar novidades nas livrarias, é o que mais faz falta a Celso Possas Júnior, escritor, criador da Flinit (Feira Literária de Niterói) e dono da Editora Itapuca, que carrega Niterói no nome. Por outro lado, o confinamento em sua casa em São Francisco tem sido muito bem aproveitado: ele está escrevendo um novo romance policial, seu 11º livro, e editando nada menos do que sete outros títulos – a Itapuca virou referência para autores da cidade.


– Em termos de produção, estamos trabalhando mais do que nunca. Muitos autores aproveitaram a quarentena para finalizar seus livros.


É o caso também do cartunista Bruno Drummond, criador da célebre série “Gente Fina”. Ele já trabalhava em casa, em Icaraí, e vem aproveitando as últimas semanas para desenhar o último capítulo de seu primeiro romance gráfico.


– A diferença é que agora tenho que dividir o espaço com as videoaulas dos meus dois filhos e com a minha mulher, Daniela, que passou a trabalhar em casa. Em compensação, fazemos intervalos para um filminho ou uma partida de buraco. Com o lockdown, vamos precisar reduzir as visitas à nossa cachorra, que mora na casa do meu sogro, em Piratininga.


Foto: Bruno Drummond


Essa maior proximidade com a família tem feito um bem enorme a outros niteroienses. A jornalista Viviane Lima, por muito tempo conhecida nos telejornais da Rede Globo, custou um pouco a se adaptar à nova rotina, mas hoje vê mais aspectos positivos:


– Meus filhos, Pedro e Bianca, estão em casa 24 horas. Voltei a ser mãe em tempo integral. Refeições em família, filmes à tarde, guloseimas saindo da cozinha. Nunca fiz tantos bolos, musses e pães! – brinca Viviane, que, por outro lado, não vê a hora de reencontrar parentes e amigos.


Fundador da Escola de Canoagem Hoa Aloa, na Praia de Charitas, Bruno Couto, claro, tem sentido falta de remar e praticar esportes. Mas encara a pandemia como a chance de refletir sobre valores importantes:


– É uma oportunidade de curtir mais de perto a família.


Nem tudo é tão simples assim. Até março com a agenda cheia, a influenciadora digital Rebeca Costa confessa que não foi fácil, da noite para o dia, ter que restringir seus projetos a quatro paredes. A jovem é a criadora do Look Little, que dá dicas de moda e autoestima para quem tem nanismo, como ela. Embora tenha surgido em redes sociais, o projeto cresceu, virou uma referência nacional no tema (são mais de 60 mil seguidores no Instagram) e vinha fazendo Rebeca ser cada vez mais solicitada para palestras e eventos presenciais.


– Estou aproveitando esse tempo para me atualizar com novos temas para o Look Little e também para levar informação a quem está em casa – conta ela, que, de sua casa no Jardim Icaraí, vem fazendo concorridas lives com nomes de destaque do universo fashion, como a modelo Ellen Jabour.


Rebeca vê a cidade fazendo seu dever de casa, apesar de tantas incertezas e notícias tristes.


– O trabalho em Niterói é sério e bem embasado, diferente de quase tudo que a gente tem visto em outros lugares.


Já o fundador da eterna Rádio Fluminense FM, a Maldita, o jornalista Luiz Antonio Mello não reconheceu a cidade na única noite em que deixou o confinamento de seu apartamento em Icaraí.


– A ansiedade me esganou. Pus a máscara, capacete, óculos, luvas e saí de bicicleta. Silenciosa, calada, triste, Niterói parecia ainda mais depressiva por causa da iluminação pública velha, gasta. Rodei por Icaraí, Boa Viagem, Cantareira, Gragoatá... Fui até Charitas, São Francisco, tudo ausente. Achei melhor voltar para casa e ler.


O padre João Cláudio Nascimento prefere enxergar esse impensável momento com otimismo. Responsável pela missa mais concorrida de Niterói, a Missa de São Miguel, ele precisou trocar as celebrações que reuniam milhares de fiéis na Igreja Nossa Senhora de Fátima pelas missas diárias transmitidas nas redes sociais.


– Essa pandemia está mostrando que nossa sociedade estava doente, e não era de Covid-19. A gente vinha assistindo com indiferença pessoas morrendo por diferentes motivos. Em certos momentos, é preciso fazer como as ondas do mar: recuar para avançar. Tenho certeza de que vamos sair muito mais fortalecidos de tudo isso. Pode parecer que estamos parados, em lockdown, mas estamos nos reconstruindo no aspecto espiritual – acredita.


Foto: João Cláudio Nascimento


Reconstrução é um bom termo para definir as mudanças profissionais e pessoais que a pandemia trouxe para o músico e locutor João Volpi, baixista da banda Tereza. Em confinamento desde 16 de março, ele viu o perfil de seus trabalhos migrar de locuções de peças publicitárias para audiolivros. Voluntariamente, também passou a produzir podcasts voltados para alunos do curso de Administração da UFF, do qual faz parte.


– Em casa, passei a me revezar, com meu pai, meu irmão e minha madrasta para cada dia cozinhar um prato diferente. E resolvi comprar pela internet um saco de pancadas, como hobby. Tem sido um dos momentos mais divertidos do dia – brinca.


Volpi já fez sua lista das três coisas que pretende reencontrar em Niterói assim que acabar pandemia, quarentena, lockdown e todas as restrições:


– Vou ao Bar do Jorginho, em Itaipu, pegar praia, comer isca de peixe do dia e tomar caipirinha de limão. Depois quero passar uma tarde toda no Seu Antônio tomando chope na caneca e comendo bolinho de bacalhau. E também quero ir curtir os cinemas e tudo o que tenho direito no Reserva Cultural.


Luiz André Alzer é jornalista e sócio da Editora Máquina de Livros, adora a Praia de Itacoatiara, vive nos bons restaurantes da cidade e se orgulha de ter estudado num único colégio a vida inteira, o Centro Educacional de Niterói.

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