Quando perdemos o medo da Covid? Niterói vive pior momento da pandemia, mas ruas estão lotadas

Nem flexibilização prematura e fiscalização frouxa explicam aglomerações e máscaras no queixo

por Silvia Fonseca


Rua Moreira César em plena segunda-feira de manhã: lojas lotadas


Niterói nunca teve tantos infectados, internados e mortos por Covid como na semana que passou. Mesmo assim, ruas, lojas e praias estão lotadas. O coronavírus continua com o poder de nos deixar intubados num leito frio e isolado de UTI. Não perdeu a capacidade de matar. Nem de deixar sequelas. Mas perdemos o medo?


Cansados de ficar isolados, extenuados de tanta tragédia, desorientados por uma praga chamada fake news, parece que nos sentimos mais corajosos e fortes para encarar o vírus. Mas as vítimas somos sempre nós, não ele. Ainda não há remédio que cure nem vacina disponível por essas bandas aqui.


Barreira segura carro, mas não gente


Domingo, 11h da manhã, calor infernal no trevo de Itacoatiara. Guardas municipais fazem barreiras para restringir a entrada nas praias de Itacoatiara e Itaipu, uma e outra a pouco mais de um quilômetro dali. Para evitar aglomerações, apenas moradores e trabalhadores das duas regiões podem entrar de carro ou moto. Mas não há barreira que impeça as pessoas de se juntarem na praia.


Os guardas municipais ficam lá perto da cabine da PM, na entrada de Itacoatiara. Pois no trevo param uma van atrás da outra, e delas descem dezenas de pessoas que chegaram até ali amontoadas. Muitas delas sem máscaras, descem das vans e seguem caminhando para entrar em Itacoatiara. E entram.


Da mesma forma, inúmeros carros de luxo, também sabedores das restrições por causa da pandemia, estacionam ali por fora, lotam as ruas antes da entrada do bairro e deles descem homens e mulheres dispostos a partir para o abraço no coronavírus. Mas na praia.


Loja lotada na Moreira César na segunda-feira. Quem viu disse que no domingo estava ainda pior


Não tem jeito. Não adianta só fechar e anunciar que vai multar. Perdemos o medo de nos contaminar e aos outros. Máscara agora se vê no queixo, no pulso e até na testa. Vai falar no celular, tira a máscara. Vai fumar, tira a máscara. Está calor, não aguento a máscara. E assim, além das lojas e praias, estamos lotando também hospitais, postos de saúde, laboratórios, farmácias, cemitérios.


Nesta segunda-feira (21), na porta de um laboratório na Rua Presidente Backer, em Icaraí, havia pelo menos uma dezena de pessoas numa fila espremida entre o prédio e o muro de vidro, zero distância entre elas. Filas nas portas de agências bancárias, especialmente da Caixa... essas nunca deixaram de existir e não seria agora, mesmo em meio à segunda onda da Covid.


Fila para entrar em laboratório em Icaraí, também na segunda-feira (21)


Quando perdemos o medo? Grandes epidemiologistas do país dizem frequentemente que a flexibilização por aqui foi feita cedo demais, antes de um controle mais efetivo da doença, e que agora fica difícil convencer todo mundo a voltar para casa. Defendem medidas mais restritivas e duras novamente, mas às vésperas do Natal dificilmente prefeitos e governadores mandarão fechar o comércio, por exemplo.


A Prefeitura de Niterói vivia repetindo que, apesar da gravidade da epidemia no Rio e em São Gonçalo, aqui ela estava sob controle. Podia até estar naquele momento, mas não está mais há algum tempo já.


"No Brasil, assistimos ao aumento acelerado de casos, sem ter ocorrido o término da primeira onda. Os dados sugerem uma nova onda sobrepondo-se à primeira. Isso torna o problema mais grave e complexo. A população está há mais de oito meses com restrições de mobilidade. No entanto, muitos, especialmente os mais jovens, têm se aglomerado em festas, bares, praias e outros eventos sociais. O processo eleitoral, fundamental à democracia, também gerou aglomerações. Atualmente, a mobilidade no estado do Rio de Janeiro tende a se aproximar daquela de antes da decretação do isolamento social", concluiu nota técnica de pesquisadores do Grupo de Trabalho Multidisciplinar para o Enfrentamento da covid-19 da UFRJ divulgada agora em dezembro.


Nesta segunda-feira (21), 10h30m, na loja das Havaianas na Moreira César parecia que o mundo ia acabar amanhã na forma de asfalto fumegando e que só quem tivesse aqueles chinelos escaparia vivo. Era muita, mas muita gente lá dentro. E fila na porta. Difícil de entender. Toda farmácia, supermercado, banca de jornal vende o produto. Quem tem coragem de ficar aglomerado numa loja pequena com o coronavírus rondando, ameaçando, tirando vidas na cidade? Muita gente corajosa. Perdemos o medo.


Mais casos e mais mortes


Niterói tem hoje mais casos de Covid-19 do que no pico da pandemia, em maio e junho. No sábado (19), o boletim da Prefeitura confirmou 1.251 novos casos e 21 mortes. Pela segunda semana seguida, o número de infectados ficou acima de mil casos.


O número de internações também reflete esta escalada da Covid. Na última semana, foram 168 internações na rede do SUS de Niterói. Um recorde, pela terceira semana seguida, indicando tendência de crescimento da doença. Além disso, os hospitais particulares registram 475 internações, entre leitos e UTIs. No casos dos leitos, a taxa de ocupação dos hospitais particulares chegou a 93% em Niterói.


Vacina vem, mas demora. Até lá risco de infecção é alto


O fato de Niterói ter assinado um protocolo para aquisição da vacina CoronaVac com o Instituto Butantan não pode animar alguém a sair por aí sem máscaras. Até tomar a vacina em duas doses, com um intervalo de três semanas a um mês entre uma e outra dose, ninguém pode se sentir seguro se não seguir os protocolos que todo mundo já sabe: isolamento, máscara, álcool em gel, etc.


Mesmo que o cronograma previsto pela Prefeitura seja cumprido, o que é difícil de prever porque há inúmeras questões ainda em discussão e que não dependem nem de Niterói nem do Butantan, mas da Anvisa também, a grande maioria das pessoas não será vacinada antes do segundo semestre de 2021. Até lá, todo mundo deverá usar máscara, evitar aglomeração, lavar as mãos, usar álcool em gel, etc. Pelo menos os que ainda não perderam o medo.