“Quando tudo isso acabar, é assim que vai ser?”

Jornalista experimenta o “novo normal” ao ir a uma consulta com o cardiologista em meio à pandemia de Covid


Por Irany Tereza


Esse “novo normal” que a pandemia vem criando é mesmo muito esquisito. Todo mundo se evitando, o incômodo com o olhar de desconfiança alheio, sem conseguir disfarçar o próprio receio. Temor que nem litros de álcool conseguem esterilizar. Tudo bem, a gente pensa, um mal necessário. Mas, sempre que se precisa colocar o pé para fora de casa, aumentam as estranhezas.

Fui ao médico. Cardiologista, consulta de rotina. Principalmente por conta de um medicamento de uso controlado. A própria saída de casa é um evento. Checagem de itens essenciais incorporados às usuais carteiras de identidade e do plano de saúde: máscara, o bendito álcool e a caneta azul que a menina do consultório pediu para levar. Agora é assim: cada um com a sua para assinar o formulário.


A exigência é apenas um dos itens que os consultórios médicos adicionaram à rotina. Também há o pedido para não chegar adiantado, pra não ter de ficar aguardando na antessala; a recomendação de que eventuais exames sejam impressos porque os médicos não aceitarão mexer em celular e, claro, a máscara, que virou item obrigatório no armário de todos.


Chego um pouco cedo, dou um tempinho e aperto a campainha menos de dez minutos antes do horário marcado. Uma voz feminina pede, lá de dentro, para eu esperar um pouco porque o cardiologista estava atendendo outra cliente. Prontamente respondo que iria esperar um pouco na rua. A moça abriu a porta de vidro e, um pouco constrangida, disse: “Não, a senhora pode esperar aqui mesmo.”


Entrei e logo fui apresentada a uma pia, na sala ao lado. “Pode lavar as mãos, por favor?”. “Claro.” Lavei as mãos tentando imitar aquele jeito dos médicos antes da entrada na sala de cirurgia. A moça, parada na porta. Mãos lavadas, voltei, meio devagar, esperando novas instruções. “Pode sentar naquela cadeira, por favor”, me indicou.


Havia de dez a 15 cadeiras na recepção, todas vazias. A que eu deveria sentar era a última da fileira, bem próximo à porta de saída. Não tive nem coragem de pegar uma revista para folhear. Fiquei ali, disciplinada. Pra falar a verdade, fiquei até aliviada por não ter que dividir espaço com outros pacientes. Notei, no laboratório em que fui fazer exame de sangue, como me incomodou uma cliente que tagarelava sem parar com a máscara abaixada no queixo.


Da sala de espera ouvia o doutor falando com a outra cliente. A porta estava escancarada. Ela saiu e, enquanto assinava – com a própria caneta azul – a papelada do convênio, outra atendente entrava na sala de consulta, munida de um recipiente com álcool e papel toalha. Somente depois que a cliente que me antecedeu saiu do consultório eu fui autorizada a entrar. Eu por uma porta, o médico por outra. Mas, antes, me informou que a minha cadeira já estava posicionada.

Sentei na cadeira que estava a meio metro de distância da mesa do médico, com o cuidado de ficar também na diagonal em relação à cadeira do doutor. Acho que a distância só não foi maior porque a maca para exame impedia. Comecei a achar tão engraçada a situação que fiquei torcendo para não ter um acesso de riso.


Sei que todo o cuidado é pouco, que os médicos sabem o que estão fazendo, que a Covid não é brincadeira. Mas, sei lá... É tudo tão estranhamente anormal que parece pegadinha. Fiquei pensando o que aconteceria se eu levantasse e, de repente, pegasse no braço dele. Bobagem. A situação é séria, não cabe esse tipo de pensamento bobo.


Simpático, o médico comentava sobre o momento. Estava reabrindo naquele dia o consultório e justificava o fato de deixar as duas portas do consultório abertas e os cuidados que estava tomando. “Tudo bem, super compreensível”, respondi. Daí ele disse que os médicos reconhecem há muito tempo a necessidade desses cuidados. E que, infelizmente, foi preciso uma situação como esta para que todos se conscientizassem.


Fiquei pensando: “O quê? Quando tudo isso acabar, é assim que vai ser? Para sempre?”. Acho que não. Um distanciamento como este não tem como virar um comportamento perene. O confinamento, tão necessário nesses tempos de pandemia, nos desafia dia a dia, com sua rotina fora da rotina. Mas é o distanciamento social que mais incomoda e constrange. Difícil prever quando, mas isso vai passar. E, depois de tudo, o “novo normal” vai voltar a ser somente o normal.


Irany Tereza é jornalista e, há 37 anos, niteroiense por opção. Trabalhou no Jornal do Brasil, O Globo e O Estado de S.Paulo, onde ficou por mais de 22 anos e foi editora executiva no Rio e em Brasília. É colunista do Broadcast, serviço de informação econômica do Grupo O Estado de S.Paulo. É mãe de uma linda jovem e espera ansiosa pelo momento de voltar a tomar um chope gelado nos bares da orla de São Francisco, participar da aglomeração no “Bar da Fila” esperando uma vaga no Seu Antônio, disputar aos gritos o camarão graúdo do Mercado de Peixe ou, simplesmente, caminhar pelo calçadão de Icaraí, desviando de bicicletas, crianças, cachorros, corredores... enfim, da encantadora confusão de Niterói.


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