Ritmo de vacinação está devagar, uma bagunça, diz especialista

Atualizado: Fev 19

Professor e pesquisador da Uerj, Mario Dal Poz afirma que lentidão na imunização só será resolvida com a chegada de mais doses


Por Amanda Ares

O pesquisador e professor Mario Dal Poz. Divulgação/USP


Com mais de 40 anos de experiência na área, o médico Mario Dal Poz, pesquisador e professor do Instituto de Medicina Social da Uerj, não mede as palavras ao criticar o ritmo da vacinação contra a Covid no país. Ele vê falhas na organização pelo Ministério da Saúde e fala em bagunça, mas está otimista com a possibilidade de uma agilidade maior a partir da chegada de novas doses.


- O ritmo de vacinação não parece devagar, ele está devagar! Como disse o Drauzio Varella (também médico), a vacinação está uma bagunça.


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Diversas capitais, como o Rio de Janeiro, por exemplo, já interromperam a vacinação de idosos por falta de imunizantes. Niterói também deve suspender ainda esta semana por falta de vacinas. A Prefeitura tem capacidade para vacinar cerca de 20 mil pessoas por dia, com mais de cem postos de imunização, mas vacinou pouco mais que isso desde o início por falta de doses.


Para o especialista, o problema se deve à falta de planejamento de cima para baixo:


- Primeiro, não tem vacina suficiente, e segundo, não tem organização do Ministério da Saúde (que é quem deve comprar as vacinas e distribuir para estados e daí para municípios, pelo Plano Nacional de Imunização).


Na última segunda-feira (15), o prefeito Axel Grael disse que a campanha de vacinação em Niterói estava “muito dificultada” por causa da quantidade de vacinas e lembrou que a responsabilidade de aquisição é do Ministério. Para Mario Dal Poz, o Ministério da Saúde está desperdiçando a estrutura de saúde pública que o Brasil tem:


- O sistema de saúde precisa de planejamento para ser eficiente, com normas, treinamento… Há ações que devem ser planejadas localmente, mas existe uma rede de postos de saúde que não se compara com outros países do mundo, e isso é uma coisa que nos ajudaria muito, a nosso favor..


Ministério da Saúde não cumpre seu papel


Ainda segundo o especialista, ao delegar a complexa tarefa para Estados e municípios, o Ministério deixa de cumprir seu papel de planejar uma ação coordenada, e abre margem para ingerências de todo o tipo:


- O Ministério transferiu a responsabilidade de organização para os municípios e Estados, como quem diz “cada um faz o que quer”. Isso abre margem para oportunismos, carteiradas… Para não acontecerem situações como as que existem hoje, por exemplo: acaba em uma cidade e as pessoas vão para outra. Nunca existiu isso. Em São Gonçalo, por exemplo, foi uma bagunça.


Com mais doses, ritmo deve mudar


Dal Poz diz acreditar que, havendo doses suficientes e organização, o ritmo de imunização deve melhorar:


- Essa vacina exige procedimentos que outras não exigiam. Tem uma agulha específica, frascos de medidas diferentes… São dificuldades técnicas que têm que ser resolvidas pelos técnicos de enfermagem e a organização local. Então, você tem alguns procedimentos que precisam ser aprendidos por todo mundo, e depois entra num ritmo normal.


Ele ainda cita a campanha norte-americana como exemplo, e aponta qual será nosso principal desafio:


- Nos Estados Unidos, começaram vacinando 250 mil por dia, e agora vacinam mais de 1 milhão por dia, e isso se dá pela curva de aprendizado. Aqui, também vai ser assim. Uma vez passado esse período de adaptação, nosso problema será a falta de vacinas.


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