Saiba por que Niterói adiou mudança de fase na flexibilização da pandemia

Aumento de casos no Rio e pequena mudança na taxa da cidade foram decisivos


Por Carolina Ribeiro


O epidemiologista Rômulo Paes de Sousa, da Fiocruz, que integra o Comitê Científico Consultivo da Prefeitura de Niterói


A previsão da Prefeitura era que Niterói avançasse do nível Amarelo-2 para Amarelo-1 do plano de transição gradual para o novo normal até o fim de julho, mas isso não aconteceu. Dados mostram que a Covid-19 voltou a crescer no município do Rio depois de maior flexibilização do isolamento. Em Niterói, também aumentou, ainda que pouco, o índice em que que baseiam as decisões da Prefeitura sobre as medidas de flexibilização. Por isso o Prefeito Rodrigo Neves decidiu adiar a mudança de fase.


O indicador que leva em conta os números de casos, óbitos, taxa de transmissão e retaguarda hospitalar em Niterói, entre outros, passou de 6,13 para 6,63, nesta semana. Ou seja: em vez de melhorar, a situação da pandemia piorou na cidade. Foi isso que o Comitê Técnico Científico, que assessora a Prefeitura de Niterói sobre Covid, levou em conta, na reunião da última sexta-feira, 31.07.


Em entrevista ao A Seguir: Niterói, o epidemiologista Rômulo Paes de Sousa, membro do Comitê como representante da Fiocruz, afirma que a decisão de adiar em um mês, pelo menos, o avanço de estágio da cidade é acertada e condiz com a consistência das ações de combate ao vírus no município. O especialista ressalta que é hora de esperar e analisar os efeitos da flexibilização em ambos os municípios antes de uma nova decisão sobre Niterói.


Paes de Sousa é epidemiologista especialista em avaliação de políticas públicas voltadas para a saúde e está participando também de comitês da ONU e de diferentes cidades do Brasil e do mundo.


A Seguir: Os números de casos e mortes mostram crescimento de contaminação pelo coronavírus no Rio de Janeiro. Niterói vem sofrendo reflexos desses novos casos?


Rômulo Paes de Sousa: Essa relação com o Rio sempre foi tensa, porque temos uma conduta muito distinta entre os dois municípios. Niterói com muito planejamento e organização, com capacidade de condução das medidas de segurança desde o início. E, no Rio, a situação oposta, uma gestão muito atrapalhada. Esse processo de definição [de estágios] que o Rio tem adotado é errático. Nas últimas decisões, por exemplo, os ambulantes foram liberados para trabalhar nas praias mas ao mesmo tempo as pessoas não podem ficar na areia. São medidas contraditórias, que tendem a atrair a pessoa para a areia. A informação é muito confusa para a população, que, por sua vez, teve uma adesão muito limitada às medidas de isolamento social. Então, essas dificuldades de manejo do Rio na condução da pandemia não são de hoje. Niterói teve que lidar com isso desde o princípio. Essa é apenas a continuidade de duas trajetórias muito distintas no enfrentamento ao vírus.


Por outro lado, essa tese de que o Rio de Janeiro está numa segunda onda de contaminação não está definida, não há um consenso sobre isso. Prefiro tratar ainda como a primeira onda de contaminação e com uma dificuldade grande de manejo em muitas cidades do Brasil, e o Rio é uma delas.


Niterói, após o processo de flexibilização que adotou e o que tem acontecido com os indicadores que são a referência do município, era o que estava previsto quando essas medidas começaram (passar do Amarelo-2 para o 1 no fim de julho). Houve uma cautela. O Prefeito acabou alterando as datas em relação à próxima etapa de flexibilização para o final de agosto. Penso que isso foi uma medida de precaução adequada, justamente temendo que essas medidas confusas do Rio acabem atrapalhando o desempenho de Niterói.


Niterói mantém métricas semanais para acompanhar a evolução da doença na cidade e basear as decisões futuras, medindo a taxa de transmissão do vírus, novos doentes e capacidade de atendimento nos hospitais. Na semana passada, o índice era de 6,1, nesta semana é de 6,6. Esse dado já mostra um reflexo em Niterói em relação ao aumento do Rio?


Já se esperava que fosse haver algum tipo de aumento. Quando se passa para uma etapa seguinte da flexibilização, é de se esperar que possa acontecer algum aumento, devido à maior circulação de pessoas, e portanto um risco maior de infecção. Então, já havia essa possibilidade, mas a grande questão é que não haja uma alteração substantiva no quadro de modo a nos obrigar a retroceder em relação às etapas que já estamos vivenciando. Essa cautela que foi estabelecida, adiando o avanço para uma nova etapa, é adequada porque reage a esse tipo de situação. A expectativa era de continuar baixando, mas como aumentou, ainda que pouco, é importante manter o estágio que estamos e observar. Mas de onde teria vindo isso, seria de fora para dentro ou fruto da própria dinâmica interna do município? Não dá, a priori, para afirmar. É mais provável que as duas coisas estejam contribuindo.


É interessante observar o que vai acontecer com os indicadores do município do Rio. Neste final de semana, começa a se observar o registro do menor nível de isolamento social desde o início. Isso tende a ter uma repercussão nos indicadores. Ainda vamos observar isso e qual será a tendência, não só para Niterói, mas para todos os municípios que têm uma relação muito grande com o Rio de Janeiro.


E tem um outro problema a ser considerado. O comportamento dos municípios muito grandes influencia e reforça tendências nos outros municípios, isso também é ruim. Acabam influenciando o comportamento de outras administrações municipais, pela importância por ser capital do estado, umas das cidades mais importantes do Brasil, pela capacidade instalada que tem o município do Rio. Vamos observar, portanto, não só o impacto dos indicadores do município do Rio, mas do comportamento em termos de gestão de outros municípios que estão mais relacionados com o Rio.


A cidade estava a ponto de avançar para o estágio Amarelo nível 1 quando começou a nova onda de contaminação no Rio, mas resolveu esperar mais um mês. Mesmo que Niterói mantenha os bons índices, é hora de flexibilizar?


A gente precisa continuar acreditando que a condução [de combate ao vírus] que Niterói vem adotando é a correta. Quando o município estabeleceu o manejo da pandemia e o seu plano de transição, teve fundamentos. Esta é uma doença que vamos conviver com ela por um período longo, depende muito da mudança de comportamento [da população]. Na questão da retaguarda hospitalar, temos um número pequeno de casos graves, por isso o isolamento é a principal estratégia.


Agora, precisamos levantar uma questão. Essa especulação toda em relação às vacinas, e elas têm razão de ser, de que vamos ter uma vacina eficaz, ou talvez mais de uma, até meados do ano que vem, não altera a necessidade que temos de um comportamento de prevenção. Demora até estarmos suficientemente imunizados numa proporção muito grande. Isso não será até o segundo semestre do ano que vem, na melhor das hipóteses. As pessoas começam a se comportar como se tivéssemos uma situação resolvida e, portanto, já poderíamos gastar por conta. Isto é um equívoco.


Niterói faz muito bem em manter a sua estratégia de manejo da pandemia, fundamentalmente apoiada na adesão da população no comportamento adequado em termos de prevenção. Por isso, dentro dessa mesma estratégia, temos que olhar os indicadores e saber definir o nosso nível de flexibilização. Observamos que, um mês depois de ter iniciado a flexibilização, temos um pequeno aumento em relação ao indicador composto que temos como referência. Então não é hora de dar o passo seguinte, mas esperar para ver o que acontece. Este risco pode estar (relacionado) internamente ao próprio município ou ao grande vizinho, que é o Rio. O que importa é que é preciso acreditar na estratégia que tem funcionado, daí a consistência. A decisão [de não avançar de estágio] considera a situação do Rio, mas também é preciso analisar a dinâmica interna do próprio município, que pode explicar esses números.


Já estamos caminhando para cinco meses de quarentena, com dados que mostram um aumento de casos durante a flexibilização. Será possível deixar a quarentena sem uma vacina aprovada?


Os países que conseguiram ter um bom desempenho no controle da circulação do vírus dependeram de duas estratégias que foram bem sucedidas. Uma é a capacidade de identificação das pessoas infectadas, o isolamento desses casos e seus contatos. Países que conseguiram fazer isso com uma disciplina muito grande, acompanhado do modelo de testagem massiva, têm conseguido ter um enfrentamento muito positivo. Caso clássico da Nova Zelândia, mas também de países pobres como o Vietnã. Outra estratégia foi a de isolamento massivo: na impossibilidade de identificar em separado os casos, se trabalhou fazendo uma restrição muito rigorosa da população por um tempo. Esse tempo permitiu que reduzisse bastante a circulação para depois retornar os níveis de flexibilização. Exemplo clássico é o da Itália, que começou muito mal, mas depois conseguiu, através de uma estratégia de isolamento muito rígido, controlar a circulação do vírus. Tem feito um manejo de forma que o vírus está mais concentrado em uma região da Itália e não num espalhamento mais amplo do país.


No caso do Brasil, não conseguimos fazer nenhuma das duas estratégias. Na primeira, que seria focar nos casos, deveria ter havido uma decisão muito cedo, uma disciplina muito grande. Se tivéssemos usado a atenção primária de saúde desde o primeiro momento, usando os agentes sanitários para identificar os potenciais casos, poderia ser que funcionasse em alguns municípios. Mas não foi o caso. Partimos, então, para um processo de adesão massiva da população ao isolamento social, isso funcionou em alguns casos no Brasil, mas no geral não funcionou. A nossa adesão às medidas quarentenárias foi muito baixa, esse é o nosso grande problema. Não conseguimos, na maioria dos municípios, fazer de fato um isolamento social com grande cobertura e de forma intensa. Niterói é uma exceção, mas também há outros casos que foram positivos. No caso da Região Metropolitana do Rio, se destaca Niterói.


Niterói mantém reuniões semanais do Conselho Científico Consultivo do qual o senhor faz parte. Qual tem sido a recomendação para a cidade no combate ao vírus?


O que a Prefeitura tem feito é a manutenção da sua estratégia de gestão. Utilizar os indicadores, estar atento à rede hospitalar e ser consistente com aquilo que vem conduzindo até o momento. Houve já um cuidado da Prefeitura de reforçar a atenção nessa comunicação com o Rio, que envolve a estação das barcas, por exemplo. Mas a grande questão é manter a consistência. Para quem mora em Niterói, pode parecer algo trivial, mas não é. Muitos municípios e países mudaram as suas estratégias de gestão por razões diversas. Um exemplo claro é a Índia, que foi um dos países que fez um lockdown muito severo e depois abriu mão da sua estratégia e hoje é um dos países que disputa com o Brasil e Estados Unidos nos números diários de casos. Os países e municípios podem abandonar as suas estratégias por razões diversas, por não darem conta de mantê-las, falta de credibilidade nas estratégias que estavam seguindo, pressão econômica… No caso de Niterói, o grande mérito é ter sido consistente do começo da pandemia até agora. Isso não é trivial e isso é o aspecto mais meritório da condução até agora.


A grande questão é entender que mudanças de conduta, quando ocorrem, na gestão da pandemia são percebidas pelos indicadores quase três semanas depois. Estamos tendo sempre que nos antecipar ao que pode acontecer, usando a sensibilidade. Se há uma maior mobilidade do outro lado da Baía, é preciso agir já, mas obviamente temos um painel sofisticado de indicadores que permite também ao município tomar decisões baseados no que observa no interior de seu município.



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