Sair ou não sair de casa? O medo na pandemia em Niterói

Moradores relatam fobias mesmo após flexibilização do isolamento


Por Melina Amaral


A advogada Christiane Almeida: cursos na quarentena e medo de sair


Débora de Souza: cuidados com ela e familiares na pandemia em Niterói


Enquanto cenas de passeios ao ar livre, pés descalços à beira do mar e olhares esperançosos - revelando sorrisos por debaixo das máscaras - começam a despontar nas redes sociais, boa parte da população parece ainda não se sentir segura para sair de casa, diante de tantas incertezas. Nos casos mais extremos, essa transição para uma nova rotina pode ser tão arrepiante como um mergulho na obra do pintor norueguês Edvard Munch. São os desastrosos legados da pandemia para a saúde mental da população mundial.


Segundo dados de uma pesquisa recente divulgada pelo instituto Ipsos, realizada de forma on-line com 16 mil adultos de 16 países, durante o mês de maio de 2020, 68% dos brasileiros não se sentem confortáveis para retornar às atividades nas próximas semanas.


Em Niterói, onde a flexibilização do isolamento já começou, o tema também divide opiniões. Enquanto a orla recebe a cada dia mais frequentadores, os relatos de insegurança relacionados à retomada gradual das atividades são frequentes. Casos de surgimento ou agravamento de fobias e distúrbios também têm aumentado, situações que merecem atenção e acompanhamento especializado.


Isolada em seu apartamento desde o dia 13 de março, a advogada Christiane Almeida, que já sofria de transtorno fóbico ansioso, viu o seu quadro de saúde se agravar na quarentena. Apesar do acompanhamento médico e psicológico durante esse período, inicialmente ela não conseguia sequer buscar as entregas que chegavam por delivery na portaria do prédio ou mesmo higienizar as compras, tarefas que deixava para o marido, devido ao medo de se contaminar. Algumas tentativas de passeio, de carro e sempre usando a máscara, também foram momentos de grande tensão. Aulas online de pilates, yoga, inglês, pintura e até bordado ajudaram Christiane a enfrentar a fase mais difícil, mas a retomada da rotina ainda parece algo muito distante.


- A vontade que tenho é aguardar o surgimento de uma vacina ou até a erradicação da doença para então sair. Ficar dentro de casa é, para mim, o meio mais seguro e eficiente de não me contaminar. Tenho medo por mim, pelos meus familiares e amigos. E não vou me forçar a achar algo normal quando para mim está longe de ser - desabafou a advogada, que não dispensa o uso de um aplicativo de celular para monitorar, diariamente, seu nível de oxigenação no sangue.


Quem também não pretende deixar a quarentena tão cedo é a designer e servidora pública Débora de Souza. Em isolamento há mais de 70 dias com os pais, a irmã e a avó, ela tem permanecido em casa durante quase todo esse período e afirma que sua rotina tem sido produtiva, mesclando o trabalho remoto com alguns cursos, demandas da casa e atividades físicas. Débora explica que a preocupação com os familiares, que fazem parte do grupo de risco, é um dos principais motivos para permanecer em casa. Mas ela revela uma outra angústia relacionada a essa nova normalidade:


- Logo no início, quando tive que sair uma vez para fazer compras, algo que me incomodou muito foi o contato com as pessoas de máscara. Senti medo e, ao mesmo tempo, estranha por não conseguir agir naturalmente, respondendo com simpatia, como sempre fiz. Evitar as pessoas foi algo difícil, como se eu não me reconhecesse. E sei que isso vai se repetir no novo normal. Por isso, e também para proteger a mim e a meus familiares, pretendo continuar em casa por bastante tempo ainda -, ressaltou Débora.


Casos como o de Christiane e Débora têm se repetido em muitos lares, e não devem ser minimizados ou mesmo negligenciados. Devemos estar atentos às repercussões psiquiátricas e psicológicas decorrentes da pandemia. Mas como diferenciar situações de medo, inerentes a esse momento de dúvidas e indefinições, do surgimento real de fobias e distúrbios?