Todo medicamento no Brasil usa matéria-prima da China, diz cientista

Especialistas defendem segurança das vacinas contra a Covid, inclusive da CoronaVac, do Instituto Butantan, comprada por Niterói



Vacinação é o meio mais eficaz para combater epidemias por vírus. Vacinas são seguras. Nem todos serão vacinados em 2021. Falar em "vacina chinesa" é preconceito, até porque não se faz medicamento no Brasil sem insumos chineses. Estas, entre tantas outras explicações, foram dadas por três dos maiores especialistas do Brasil durante entrevista sobre vacinas contra Covid ao programa Roda Viva, da TV Cultura, nesta segunda-feira (14) à noite.


O encontro reuniu Denise Garrett, médica epidemiologista e vice-diretora do Sabin Institute, Margareth Dalcolmo, médica pneumologista e pesquisadora da Fiocruz, e Dimas Covas, presidente do Instituto Butantan.


CoronaVac, que Niterói encomendou, é segura e não é chinesa


Os especialistas defenderam a necessidade de a população se conscientizar sobre a importância da vacina para frear a epidemia e garantiram que os imunizantes passam pelos mais rigorosos testes, muito mais rigorosos que medicamentos em geral, e são seguros.


Também frisaram que é preciso ter transparência e deixar questões ideológicas de lado, comentando inclusive o preconceito que foi difundido no Brasil contra a CoronaVac, chamada por alguns de "vacina chinesa". Não é chinesa, é feita com insumos da China enviados pelo Sinovac, mas é fabricada no Brasil, no Instituto Butantan, destacou Dimas Covas. Ele contou já ter sido procurado por diversos países interessados na compra da vacina.


O Butantan começou a produzir a Coronavac na fábrica de São Paulo na semana passada e, segundo Dimas Covas, tem condições de fabricar 1 milhão de doses por dia. Em vez de pedir autorização para uso emergencial da CoronaVac, o Butantan decidiu pedir o registro da vacina, tanto no Brasil como na China. Com o registro, a Anvisa tem prazo de 72 horas para liberar. Já para dar a liberação emergencial, a Agência pode demorar bem mais tempo.


Professora da Fiocruz, que também desenvolve uma vacina em parceria com a Universidade de Oxford, Margareth Dalcolmo foi direta ao falar do preconceito contra a China e da falta de informação:


-A China é o maior produtor de insumos de biotecnologia do mundo. Se formos levar na ponta da faca, é tudo chinês. Até matéria-prima. Todos os remédios que fabricamos no Brasil usam matéria-prima da China - disse a especialista.


Depois de lembrar que vacina é um dos maiores avanços da medicina, Garrett afirmou que é o "que realmente será capaz de parar esse vírus". Para ela, as vacinas já em fase 3 de testes que comprovaram 95% de eficácia terão "um impacto tremendo" no controle da Covid-19.


Dimas Covas destacou um aspecto importante sobre as vacinas contra a Covid que estão sendo desenvolvidas no mundo todo.


- Não sabemos ainda qual será o nível de proteção contra o vírus. Sabemos que as vacinas vão proteger contra a doença, mas não sabemos se será neutralizante (do vírus) ou não. Dados iniciais dizem respeito aos sintomas clínicos da doença - disse ele, explicando que as vacinas já em fase final de testes, como a do próprio Instituto Butantan, têm comprovada eficácia contra a doença, mas não contra o vírus. "Ideal é que tenha os dois", acrescentou ele, mas isso só se saberá depois da vacinação.


Margareth Dalcolmo destacou que vacinas são solução para doenças mais agudas e que elas devem interceptar a cadeia de reprodução da doença, mas que ainda não se sabe "o quão de neutralizantes (do vírus) serão". Garrett concordou e completou:


-Sabe-se que previne a doença, mas não se previne que a pessoa seja infectada - resumiu, afirmando, porém, que "só isso (evitar a doença) já é muito bom.


Os especialistas lembraram, por diversas vezes ao longo do programa, da necessidade de se manter os cuidados básicos contra a Covid-19.


- Não haverá vacina para todo mundo, e não só no Brasil. Se somarmos tudo, todas as que estão e que vão ser fabricadas até o ano que vem, teremos 2,7 bilhões de doses no mundo para quase 8 bilhões de habitantes no Planeta. Então está fora de cogitação vacinar todo mundo em 2021.


Perguntada por que a ciência conseguiu produzir vacinas contra a Covid em um tempo relativamente curto em relação a outros imunizantes no passado, Garrett garantiu que "em nenhum momento se sacrificou a segurança da vacina".


-Conseguimos por vários fatores: investimentos de bilhões de dólares no mundo todo, cientistas trabalhando 24 horas durante sete dias por semana e, o que foi realmente decisivo, foi o uso de plataformas e tecnologias muito avançadas, que não tínhamos no passado


A segurança de uma vacina, explicou a especialista, é determinada principalmente na fase 3 dos testes.


-E não houve nenhum atalho nessa fase 3! - disse Garrett, contando que recentemente saiu um estudo mundial que analisou 57 vacinas ao longo de 20 anos. Destas, apenas uma foi retirada do mercado por causa de algum efeito mais sério, destacou.