“Sempre fomos invisíveis para a sociedade”

Entrevista: Antônio Coutinho, Conselho Federal de Enfermagem


Por Carolina Ribeiro


No ano internacional dos profissionais de enfermagem, 108 enfermeiros morreram e mais de 14.200 foram infectados pelo coronavírus só no Brasil até quarta-feira (13). No Estado do Rio de Janeiro, já são 3.100 infectados e 29 mortos. Em meio à pandemia da Covid-19, profissionais precisam lidar com outro vírus, o da desinformação e das fake news, chamado de infodemia. Para tentar combater este mal, foi lançada uma campanha internacional nesta quarta-feira cobrando mais ações contra as inverdades compartilhadas, principalmente, na internet. O Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) aderiu à campanha. Confira a entrevista ao A Seguir: Niterói do enfermeiro e conselheiro federal Antônio Coutinho sobre o mal causado pela Fake News.

A Seguir: Por que o Conselho Federal de Enfermagem aderiu à campanha internacional contra fake news sobre o novo coronavírus?

Antônio Coutinho: Estamos na linha de frente do combate ao coronavírus. Nós, profissionais da enfermagem, ficamos muito fragilizados quando aparecem informações nas redes sociais contra tudo aquilo que estamos pregando e praticando em nosso dia a dia. Muitas vezes, a própria população coloca em dúvida o trabalho que temos desenvolvido, um trabalho centrado em conhecimentos técnicos-científicos e em orientações do Ministério da Saúde. Nas redes sociais, como o Facebook e o Youtube, há muitas informações que ‘ensinam’ curas milagrosas para a Covid-19. E as pessoas, com boa intenção e até uma limitação de conhecimento, são induzidas a aderirem a tratamentos duvidosos que podem levá-las a necessitarem de um atendimento em unidades de saúde.

Quais são os exemplos de fake news identificadas pelo Cofen e os riscos de acreditar nessas informações?

Temos visto muitas coisas, desde a cura da Covid-19 por uso de alguns condimentos... São muitas informações que chegam por meio das redes sociais e ficamos assustados, caso as pessoas acreditem naquilo. Veja o uso de cloroquina e hidroxicloroquina, que tanto divulgaram como remédios que podiam curar. Já está comprovado que o resultado não é aquele propagado inicialmente. Isso nos preocupa bastante, pois a população brasileira tem o hábito de tomar medicamento sem prescrição médica e pode se intoxicar com a medicação.

Como o Conselho combate diariamente as fake news? Na carta assinada pelos profissionais da saúde, há pedidos para que as rede sociais controlem a disseminação de informações falsas…

Nós temos pedido medidas, principalmente aos donos dessas redes sociais, para que busquem mecanismos técnicos de se evitar a propagação das informações falsas. Google, Facebook, Youtube, entre outros, devem adotar medidas que possam se antecipar à divulgação dessas falsas informações que não retratam a verdade. Caso a informação seja divulgada, eles precisam de um mecanismo para identificar quem está recebendo e repassando fake news e atuem para que a pessoa receba a informação da forma correta. Porque depois que a informação se espalha, conseguimos avisar que não procede, mas a quantidade de pessoas avisadas pode não ser a mesma.

No Brasil, profissionais de enfermagem já foram atacados durante manifestações e pelas redes sociais. Como o Conselho vê esses ataques?

Levamos em consideração a ignorância das pessoas. Por trás da ignorância, há um conteúdo ideológico, não só em Brasília, como ocorreu durante manifestações. Mas temos informações de que os profissionais estão sendo atacados em transportes públicos. Os profissionais que já estavam habituados a sair de casa com a característica roupa branca ou com jaleco, que antes passavam despercebidos ao olhar da sociedade, hoje são atacados. Justamente aqueles que estão fazendo frente à pandemia, lutando bravamente. Temos enfrentado isto com muita altivez e vamos vencer esta luta, mesmo que alguns sejam contra ou façam algo para nos atacar.

O Brasil já chegou a 108 enfermeiros mortos em decorrência da Covid-19, sendo 29 só no Estado do Rio. Como o Conselho lida com o psicológico dos trabalhadores que enfrentam não só o vírus, mas também a onda de desinformação?

O Cofen criou um grupo, de enfermeiros e outros profissionais, para dar apoio psicológico aos trabalhadores. Os profissionais que fazem o atendimento são especialistas das áreas de psiquiatria e psicologia, justamente para apoiar os profissionais que necessitam desabafar e se livrar de suas angústias do plantão. Observamos que o período da madrugada recebe o maior número de ligações para nossa central. Esta foi uma medida acertada, que tem dado certo, e que nos surpreendeu devido ao número de profissionais que estão nos procurando.

Em sua experiência como enfermeiro e como conselheiro do Cofen, acredita que os profissionais da enfermagem serão mais valorizados após a pandemia?

Sempre fomos muito importantes no contexto da saúde do Brasil e do mundo. Porém, parece que sempre fomos invisíveis para a sociedade. Cuidamos dos pacientes, na linha de frente, atendendo a população. Mas é nessa pandemia que a sociedade tem visto o trabalho da enfermagem. Nunca é tarde para valorizar, principalmente porque 2020 foi considerado o ano internacional de enfermagem. Agora, temos que reforçar a cobrança das autoridades às nossas bandeiras de luta, como o piso salarial para a categoria, uma carga horária decente para o profissional e um lugar de descanso, que muitas vezes não existe nos hospitais. A dificuldade de materiais de proteção e insumos, assim como a falta de leitos e de profissionais para atender sempre foi uma realidade. Enfrentamos essa desvalorização há anos. A pandemia mostra que a saúde precisa ser vista com maior cuidado.

Enfermagem Solidária atende, de forma sigilosa e por 24h, cerca de 130 pacientes por dia. O atendimento é feito por meio do site juntoscontracoronavirus.com.br


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