Médica de UTIs alerta: situação é pior que no começo da pandemia

Vejo muitos idosos doentes com Covid porque o neto saiu para uma festa, diz médica intensivista


por Silvia Fonseca


A médica intensivista Carolina Lucas Iung: 'Tenho visto pacientes jovens chegando em estado grave'


A situação da pandemia de Covid-19 hoje é pior do que em março, quando começou no país. Os hospitais estão lotados e os profissionais de saúde, exaustos. As pessoas estão sendo egoístas de irem para bares, correndo o risco de contaminar seus pais e avós em casa. É assim, exaurida entre um plantão e outro, que a médica intensivista Carolina Lucas Iung, de 32 anos, descreve o que está vivendo na atual situação, com aumento dos casos de contaminação e de internação de pacientes com Covid em Niterói, no Rio e São Gonçalo. Carolina é formada desde 2012 e atualmente trabalha no Hospital Municipal Oceânico de Niterói, no Hospital Carlos Chagas, no Hospital Federal de Ipanema e na Unimed em São Gonçalo.


Um desabafo da médica sobre a pandemia e o descaso das pessoas com cuidados básicos para evitar a infecção viralizou nas redes sociais. Ao A Seguir: Niterói, Carolina contou:


A senhora diz que a situação hoje está pior do que no começo da pandemia. Por quê?


-A situação atual é pior que no início da pandemia porque a sensação que tenho é que as pessoas “perderam o medo” do vírus. No início todos ficavam em casa porque não sabiam como a doença poderia se manifestar. Como agora sabem que existem manifestações leves, estão vivendo a vida normalmente como se não tivesse mais nada acontecendo.


Qual a situação nas UTIs de Covid no Rio e em Niterói?


-As UTI’s estão lotadas! Tanto na rede privada como napública.


Qual tem sido sua rotina?


-No momento estou trabalhando em quatro hospitais, sendo 3 deles em CTI e um na emergência. São 60h de plantão semanais.


Desde o começo da pandemia, houve períodos menos estressantes e dolorosos? E desde quando voltou a piorar?


-Sim, os meses de agosto, setembro e início de outubro foram mais “brandos”. Voltou a piorar há cerca de três semanas.


A que a senhora atribui o aumento dos casos de Covid nove meses depois do início da pandemia no país?


-Os casos aumentaram novamente porque, com o início da flexibilização, as pessoas voltaram a fazer tudo como se a pandemia tivesse acabado. Festas, bares, shows e praia... tudo lotado! Todo mundo grudado um no outro e sem máscara.


E a situação dos hospitais?


-Todos os leitos de Covid lotados. Tanto de enfermarias como as UTI’s.


A senhora disse que os hospitais vivem o caos, que é desesperadora a situação dos profissionais de saúde...


-Nós estamos esgotados, muitos ainda estão ficando doentes e até se recontaminando, desfalcando as equipes e fazendo com que o trabalho seja maior. E ainda existem muitos casos de distúrbios psiquiátricos (como depressão e ansiedade ) que iniciaram após a pessoa ficar doente.


E os pacientes, estão chegando com quadros mais graves, além de em maior número?


-Sim! Tenho visto muitos pacientes jovens chegando muito grave. Com acometimento pulmonar importante e desenvolvendo complicações que se instalam rapidamente.


Onde foi que erramos, como sociedade, na sua opinião? Perdemos o medo da Covid e estamos arriscando mais?


-Acho que o ser humano tem sido muito egoísta, não se importando com o próximo. Vejo muitas pessoas que já tiveram a doença andando sem máscara e sem se proteger com o argumento de que já pegou e que agora não precisa mais se proteger. Vejo muitos idosos doentes porque o neto saiu para uma festa, um bar, se contaminou e passou para toda a família.


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