Somos 100 mil mortos

Registro de mortes no Brasil é o segundo do mundo, atrás dos Estados Unidos


Por Luiz Claudio Latgé


Nenhum homem é uma ilha. Faz tempo sabemos disso. Na filosofia, na política, na poesia. A frase é do poeta e pastor inglês, John Donne, nascido em 1572. Quase um ditado de para-choque de caminhão. Na pandemia ganhou atualidade, como se fosse uma expressão da biologia. Diante de uma doença que ameaça pelo contato, às vezes poderia parecer que estamos por nossa conta, cada um no seu abrigo. Mas não é assim. Os epidemiologistas são os primeiros a advertir o engano. Ninguém estará à salvo, se não nos salvarmos todos. Porque é a responsabilidade individual e o respeito ao próximo que pode conter a pandemia. Quem usa a máscara, e mantém o distanciamento social, faz isto por si mesmo, mas também pelo seu vizinho. Quem exibe carteira de desembargador contra o vírus não só se apresenta como um idiota como nos afronta a todos. Não haverá proteção, se não nos protegermos como sociedade, como nação, como seres humanos. Só teremos uma vacina se trabalharmos na mesma direção, a que empurrou a humanidade ao desenvolvimento da ciência e da solidariedade. E porque não somos ilhas choramos 100 mil mortes no Brasil. Podería fazer outras contas. São 300 mortos em Niterói. Catorze mil no Rio. No mundo, 750 mil mortos, em pouco mais de seis meses. Mas ainda não acabou. Convivemos há meses com a morte. Duas mil mortes por dia, no Brasil, há dois meses. O que podemos esperar pela frente? Não pense que você pode estar à salvo, porque não tem 60 anos, não é cardíaco, nem diabético e estocou caixas de cloroquina. Em pouco tempo, seremos 150 mil mortos. Vale reler Donne, no seu contexto original. Ele se pergunta, por quem os sinos dobram. “Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.” Somos 100 mil mortos. Hoje, os sinos dobram por nós.



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