UFF e Secretaria de Direitos Humanos criam projeto contra o discurso de ódio e fake news

Projeto tem como objetivo criar políticas públicas para enfrentar a desinformação baseadas em pesquisas acadêmicas e análises de dados


Por Livia Figueiredo

Imagine um projeto para combater a desinformação e o discurso de ódio nos ambientes digitais. É o que a Secretaria de Direitos Humanos de Niterói, em parceria com a UFF, através do grupo do laboratório de Pesquisa em Comunicação, Culturas Políticas e Economia da Colaboração (COLAB) estão desenvolvendo. A iniciativa, conhecida como Laboratório dos Direitos Humanos, tem como objetivo promover um espaço para a criação de políticas públicas e o incentivo à cultura dos direitos humanos. A proposta é transformar as descobertas acadêmicas em políticas públicas como um serviço à sociedade.


Não é de hoje que o laboratório universitário realiza análise e monitoramento de dados das plataformas digitais. O COLAB da UFF é um grupo de pesquisa registrado no CNPq que desenvolve investigações com o intuito de compreender as interfaces entre tecnologias da comunicação e culturas políticas. O projeto, que visa o combate ao discurso de ódio, irá receber apoio financeiro de 200 mil reais, através de emenda parlamentar aprovada pelo deputado Alessandro Molon (PSB).


- O projeto é herdeiro direto de um conjunto de ações e iniciativas que eu e o COLAB vemos desenvolvendo desde 2018, quando a gente começou a mapear as redes de disseminação de desinformação e campanha política, sobretudo no ambiente do Whatsapp, e também em outras plataformas, como o Twitter, o Facebook e o Instagram. Há cerca de dez anos desenvolvemos um trabalho de pesquisa e monitoramento do papel dos memes nas mídias sociais com o objetivo de entender como alguns desses conteúdos conseguem relacionar humor e política. Observamos que muitos deles, especialmente nos últimos anos, têm sido utilizado para instrumentalizar certo discurso de ódio e aspectos relacionados à desinformação política – explica o coordenador do projeto, Viktor Chagas.


Viktor é professor do departamento de Estudos Culturais de Mídia da UFF e do programa de Pós-Graduação em Comunicação Social. É também pesquisador associado do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital. Ele vem atuando há mais de dez anos na UFF com pesquisas relacionadas ao campo do ativismo digital e da comunicação política. Ele conta que, no primeiro semestre de 2018, o COLAB iniciou um projeto ainda experimental, já que ainda estava se compreendendo os efeitos da circulação de desinformação no ambiente do Whatsapp. O monitoramento era extenso e envolvia um conjunto de grupos de perfil da extrema direita para tentar entender que tipo de discurso era gerado na plataforma. Ao longo do ano, foi monitorado um conjunto de aproximadamente 130 grupos de perfil bolsonarista.


- De maio a dezembro de 2018 circularam em torno de 1,8 milhões de mensagens nesse ambiente monitorado e, a partir disso, começamos a desenvolver um conjunto de análises. Uma delas tem o objetivo de compreender em que medida a gente consegue identificar alguns elementos de comportamento desenvolvidos por usuários que afiliam a um campo de atuação profissional na política. Ou seja, a partir de que momento conseguimos distinguir o comportamento de um usuário que se apresenta de forma espontânea, como um eleitor ou cidadão ou quando ele se apresenta como um agente do campo profissional da política. Um dos intuitos da pesquisa é justamente tentar compreender quando os elementos são suficientes para apontar esses indícios – conta.


Chagas explica que o monitoramento tem sido contínuo e regular desde 2018. A pesquisa surgiu com o objetivo de pensar de forma mais efetiva ações que estejam diretamente relacionadas à sociedade, através de oferta de cursos, organizações do terceiro setor e apresentação de relatórios periódicos de monitoramento para a imprensa. Para isso, são realizados produção de artigos científicos e pesquisas acadêmicas que tem como objetivo compreender melhor esse universo. Alguns resultados preliminares já foram apresentados e a recepção em palestras e organizações de terceiro setor tem sido boa.


- Quando falamos em ambientes como o Whatsapp temos a impressão de se tratar de uma caixa preta. É muito difícil entender esse movimento porque o Whatsapp é uma rede fechada, opaca. Então, o objetivo desse projeto é lançar um pouco de luz sobre esse processo de formação de redes extremistas – destaca.


O coordenador explica que de um lado há uma atuação junto a um segmento mais especializado, de pesquisadores e de organizações de terceiro setor, que eventualmente vão receber um treinamento para lidar com esse tipo de monitoramento e trocar experiências com um conjunto de pesquisadores que acumulam expertise na área. Enquanto do outro, há uma perspectiva do grande público e de outras janelas de divulgação científica. A expectativa é de que os relatórios dessa pesquisa possam circular de forma um pouco mais ampliada, de forma a dar conhecimento ao público sobre as atividades que são desenvolvidas nesses ambientes virtuais.


Desse modo, o projeto Laboratório de Direitos Humanos chega com a proposta de criar políticas públicas para enfrentar esse desafio de desinformação, baseadas em pesquisas acadêmicas e análises de dados. Para o secretário municipal, Raphael Costa, a principal missão da secretaria de Direitos Humanos é o combate às violações de direitos, uma vez que o ambiente digital é atualmente um espaço onde ocorrem muitas violações.

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